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Corrupção
O PT deu a senha
para desmatar
Outro escândalo de corrupção
na
área ambiental: madeireiros do Pará
doaram dinheiro a petistas em troca
de autorização para derrubar árvores

Leonardo Coutinho e André
Rizek
Paulo Santos/Interfoto
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FLORESTA ORFÃ
O esquema entre o PT e os madeireiros teria ceifado
no Pará quase 220 000 metros cúbicos de madeira
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O que se lerá a seguir
é o relato de um esquema de corrupção na área
ambiental que mostra que, em alguns estados brasileiros, seções
do Partido dos Trabalhadores perderam as feições de
partido político para assumir os contornos de organizações
criminosas. Na semana retrasada, a Polícia Federal já
havia desbaratado uma quadrilha em Mato Grosso, formada por funcionários
do Ibama e madeireiros, acusada de se associar para desmatar a Amazônia
em troca de propinas. Entre os presos estavam três petistas.
Um deles era Hugo Werle, gerente do Ibama em Cuiabá, professor
de geografia e membro do conselho fiscal do PT no estado. Werle
atuou como arrecadador de fundos para a campanha do partido nas
últimas eleições municipais. Já configurava
um escândalo sem tamanho a suspeita de que três funcionários
públicos, membros do partido do governo e pagos para defender
a floresta, vinham agindo como cupins na selva amazônica:
contribuindo para dizimá-la em troca de suborno. Agora se
sabe que eles estavam longe de ser os únicos. VEJA revela
que esquemas semelhantes ao de Mato Grosso funcionavam também
no Pará e no Rio Grande do Norte.
Olaf Grimburg/Interfoto
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PÁTIOS
LOTADOS
A morte da freira Dorothy, em fevereiro, interrompeu
o esquema do adesivo |
No Pará, um esquema envolvia
três candidatos a prefeito nas eleições municipais
do ano passado e dois deputados, todos petistas, além de
funcionários do Ibama, Incra, madeireiros e sindicalistas.
Os três candidatos a prefeito pelo PT, apurou a reportagem,
teriam recebido pelo menos 300.000 reais de madeireiros, às
vésperas das eleições, em troca de autorização
do Ibama para derrubar madeira ilegal. São eles: Paulo Medeiros,
de Uruará; Chiquinho do PT, de Anapu; e Lenir Trevisan, de
Medicilândia. O esquema, segundo um representante do Sindicato
dos Reflorestadores do Estado do Pará (Sindifloresta), era
intermediado pelo deputado federal José Geraldo e pelo deputado
estadual Airton Faleiro, ambos ligados ao Ibama. Os métodos
usados pelo grupo eram de um descaramento nunca visto mesmo para
os padrões de fronteira sem lei que costumam imperar nos
rincões da Amazônia. Funcionavam da seguinte maneira:
um grupo de agricultores ligados à Federação
dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri) fazia o desmate ilegal
de suas terras, com a conivência de funcionários do
Incra e a assessoria da empresa de engenharia florestal HB Lima.
Os agricultores vendiam madeiras nobres (como mogno, jatobá
e cedro) a 22 empresas da região. Para que as árvores
ilegalmente derrubadas e, portanto, sem a respectiva autorização
para o transporte de produtos florestais (ATPF) passassem
pelos postos de fiscalização, o grupo inventou um
expediente inacreditável para membros de um partido que chegou
ao poder com a missão de moralizar o trato da coisa pública.
Mandou fazer um adesivo com os dizeres: "oPTtante do Plano Safra
Legal 2004" assim mesmo, com as letras P e T em maiúsculo.
Pregado no pára-brisa dos caminhões do esquema, o
adesivo atestava o conluio dos donos da carga com os petistas e
funcionava como salvo-conduto para a madeira proibida. Em contrapartida,
os madeireiros faziam "contribuições" à campanha
dos candidatos do PT. O presidente da Associação das
Madeireiras dos Municípios de Anapu e Pacajá, Leivino
Ribeiro, disse a VEJA que seu grupo gastou, "na parceria com o PT",
2 milhões de reais, incluindo as doações às
campanhas dos candidatos e o custo dos procedimentos "para documentar
a madeira".
A existência do esquema
do adesivo foi confirmada a VEJA por uma das proprietárias
da empresa HB Lima, Gracilene Lima, que ajudou o grupo de agricultores
da Fetagri a cortar a madeira ilegal. Ela afirma que a autorização
"para a retirada da madeira sem documentação" foi
dada pelo gerente do Ibama em Santarém, Paulo Maier, e pelo
chefe do Ibama de Altamira, Elielson Soares Farias. A substituição
das ATPFs pelos adesivos do PT foi relatada também ao deputado
federal João Batista Oliveira, o Babá (PSOL-PA), por
um representante do Sindifloresta (leia
trechos da conversa). O esquema previa que esse sindicato
levaria sua fatia do bolo ao fazer o reflorestamento das áreas
ilegalmente devastadas. Como o trato não foi cumprido, o
sindicalista resolveu denunciá-lo. Ele concordou em falar
ao deputado Babá com a condição de não
ter seu nome revelado.
O esquema entre o PT e madeireiros
do Pará teve início no segundo semestre de 2004, quarenta
dias antes das eleições municipais. Foi interrompido
em fevereiro deste ano, depois da morte, na cidade de Anapu, da
irmã Dorothy Stang a missionária americana
assassinada a mando de grileiros. O crime levou à cidade
o Exército, a Polícia Federal e funcionários
do Ibama de Brasília. Com isso, a fiscalização
na região aumentou e o esquema teve de ser suspenso. A freira
americana tinha conhecimento do envolvimento de políticos
do PT na derrubada de madeira ilegal, afirma o ex-funcionário
do Ibama na região, Amarildo Formentini. "A irmã Dorothy
dizia que, agora, quem estava desmatando a floresta eram os deputados
do partido que ela ajudou a eleger."
Movida a cobiça e a interesses
menores, a política ambiental do PT é terra fértil
para escândalos. VEJA apurou que o gerente executivo do Ibama
em Natal, Solon Fagundes, decidiu pedir demissão do órgão
por não suportar mais pressões vindas do diretório
municipal do PT. Ele disse a colegas que foi instado, e negou-se,
a usar seu cargo para arrecadar fundos para o partido nas eleições
de 2004 a exemplo do que fez seu colega de Mato Grosso, o
professor de geografia Hugo Werle, preso pela PF. Disse ainda que,
ultimamente, vinha sendo pressionado por dirigentes petistas em
Natal para receber em seu escritório empresários autuados
com multas altas pelo Ibama. Na quarta-feira, Fagundes foi a Brasília
para uma reunião sigilosa com auditores do instituto. À
saída, não quis revelar a VEJA o teor da conversa.
A revista apurou, no entanto, que ele contou aos auditores ter descoberto
que a corrupção no órgão que dirige
está tão generalizada que dela não escapa nenhum
dos vinte fiscais encarregados de proteger o mais ameaçado
ecossistema do estado, o mangue. Citou o que ocorre com as multas
aplicadas pelo Ibama junto a empresários do setor de carcinicultura.
Para montar viveiros de camarões, esses empresários
freqüentemente invadem os limites do mangue, área de
proteção permanente. As multas pela infração
podem chegar a 1 milhão de reais. Ocorre que, depois de autuados,
os empresários solicitam ao Ibama uma revisão do valor
da multa. Por intermédio de funcionários corruptos,
segundo relatou Fagundes aos auditores, esses valores têm
caído com extraordinária freqüência
para 300 reais, por exemplo.
No que se refere à devastação
causada pela corrupção na Amazônia, o governo
Lula não pode dizer que não teve chance de, ao menos,
contribuir para reduzi-la drasticamente. Poderia tê-lo feito
por meio de uma assinatura. Quando assumiu o Ministério do
Meio Ambiente, a ministra Marina Silva encontrou, em fase final
de elaboração, um sistema de fiscalização
muito mais eficiente do que as atuais ATPFs, o pedaço de
papel que acabou viabilizando uma das mais disseminadas modalidades
de fraude entre madeireiros e funcionários corruptos do Ibama:
os primeiros compram dos segundos o documento em branco e
o preenchem com a quantidade e a qualidade da madeira que bem entenderem.
O módulo do sistema que Marina rejeitou era o Selo de Origem
Florestal, que o Ibama emitiria de forma informatizada, restringindo
o espaço para fraudes.
Sergio Lima/Folha Imagem
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CHANCE DESPERDIÇADA
Marina Silva: decisão de engavetar projeto que
diminuiria a corrupção |
Procurada para falar sobre os motivos da sua decisão e sobre
as denúncias no Pará e no Rio Grande do Norte, a ministra,
por meio de sua assessoria, transferiu a tarefa ao Ibama. O instituto,
por sua vez, informou apenas que "estão em curso procedimentos
disciplinares e os eventuais servidores envolvidos em delitos serão
punidos". Compreende-se por que a ministra se recusa a falar. Nas
últimas semanas, ela assistiu a órgãos subordinados
à sua pasta serem alvo de denúncias que causariam
perplexidade e horror a qualquer brasileiro, ainda que ele não
fosse, como é o caso de Marina, uma respeitada ambientalista,
comprometida por seu trabalho e por sua biografia com a defesa do
meio ambiente. Resta concluir que o que sufoca a indignação
ainda não suficientemente demonstrada da ministra
é o fato de que, cada vez mais, fica claro que a corrupção
que devasta as florestas brasileiras não é obra de
meia dúzia de cupins petistas. Pelo contrário: é
orquestrada no seio do PT, para imensa tristeza de Marina
e dos que, ao votarem na sigla, confundiram inseto com inseticida.
Tristeza também para Lula, que sonhou em mudar a "geografia
comercial" do mundo e o que tem a apresentar é uma máquina
partidária que transforma em suspeito de corrupção
um pacato professor de geografia.
Com reportagem de Ronaldo
França, de Brasília
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SENHA
PARA CORTAR
O adesivo que, segundo foi relatado ao deputado
Babá, identificava os participantes da quadrilha
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Leia
trechos da conversa em que
um representante do sindicato dos
reflorestadores do Pará conta ao
deputado Babá como funcionava o
esquema em que madeireiros davam dinheiro ao PT em troca
de autorização para cortar madeira ilegal:
Deputado Babá:
"Como era essa história do adesivo?"
Representante
dos reflorestadores: "O pessoal intitulou o acordo
de 'Optante do safra legal', com destaque para a sigla
do PT no adesivo. Os caminhões com esse adesivo
iam sem ninguém perturbar. Só em Anapu
foram mais de 100 mil metros cúbicos de madeira
nesse esquema (...)"
Babá: "Mas
por que o Ibama liberou toda essa madeira? Vocês
deram apoio para o PT na região?"
RR: "Foi dado
apoio, sim. Estou falando isso como sindicalista, sou
do Sindifloresta, participei das negociações,
mas estou achando uma grande sacanagem!"
Babá: "Mas
tinha contrapartida financeira?"
RR: "Eles
(PT) aproveitaram o momento para pedir apoio. O setor
madeireiro tem muito voto e também deu apoio
financeiro."
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