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Corrupção
O que Jefferson omitiu
Ao revelar o esquema do mensalão,
o petebista deixou de fora uma explícita
cena de corrupção. VEJA a descreve
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AS SALAS DO PODER
As cenas dos Correios encontram paralelos nos relatos
colhidos no Congresso sobre uma reunião que Jefferson
ainda tem de esclarecer |
A imagem do diretor dos Correios Maurício
Marinho embolsando um bolo de dinheiro passado por um corruptor
é graficamente a mais explícita já vista na
rica história de corrupção da administração
pública brasileira. Na semana passada, o repórter
de VEJA Ronaldo França ouviu depoimentos de pessoas que tomaram
conhecimento de cenas tão chocantes quanto aquela ocorrida
nos porões da política em Brasília. Seu relato
vem a seguir:
"O capítulo subseqüente à
entrevista na qual o deputado Roberto Jefferson denunciou a existência
de um esquema de mesadas a deputados da base aliada acrescentou
uma dose de suspense à trama. O deputado Miro Teixeira confirmou
que Jefferson lhe fizera o mesmo relato no ano passado, porém
acrescido de fatos 'muito mais graves', que estariam sendo omitidos
agora. Na conversa, ocorrida no gabinete de Miro, então ministro
das Comunicações, Jefferson referiu-se a uma reunião
realizada em 'ambiente ministerial' na qual teriam ocorrido cenas
explícitas de corrupção. Uma reconstituição
da reunião pode ser feita a partir de entrevistas com congressistas
que ouviram, em diferentes momentos, depoimentos parciais dos fatos
descritos pelo presidente do PTB. O encontro teria ocorrido no gabinete
do então ministro dos Transportes, Anderson Adauto, no segundo
semestre de 2003. Estiveram presentes, além de Jefferson
e do ministro, o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e dois
outros deputados, um representante do PL e outro do PP. Um sexto
participante seria ligado ao Departamento Nacional de Infra-Estrutura
de Transportes (DNIT).
O que se passou ali, segundo os relatos ouvidos
por VEJA, foi um descalabro, tanto por sua natureza quanto pelo
local do encontro o gabinete de um ministro da cota do PL,
partido do vice-presidente da República. De uma mala levada
por Delúbio ou pelo representante do DNIT (nesse ponto as
versões são divergentes) saiu uma bolada de dinheiro
que foi posta sobre a mesa em torno da qual a reunião se
realizava. E começou a divisão. Ao chegar sua vez,
Jefferson teria declinado. A partir daí a história
é semelhante à contada na semana passada pelo próprio
presidente do PTB ao jornal Folha de S.Paulo, ao qual afirmou
ter recusado a oferta o que é, aliás, uma hipótese
plausível. Não porque Jefferson seja mais ou menos
honesto do que a turma do mensalão, por exemplo. Mas talvez
porque o presidente do PTB, após ocupar um naco da máquina
governamental, passou a cobrar gordas contribuições
de seus indicados fato admitido por ele próprio em
sua entrevista-bomba da semana passada. Ou seja, por essa hipótese
Jefferson poderia dar-se ao luxo de recusar o mensalão oferecido
por Delúbio, pois preferiria arranjar dinheiro por seus próprios
meios.
O então ministro Anderson Adauto, atual
prefeito da cidade de Uberaba, em Minas Gerais, negou na semana
passada que tenha participado desse encontro. Também garantiu
que nunca fez reunião alguma com Roberto Jefferson. O tesoureiro
do PT, Delúbio Soares, na entrevista coletiva que concedeu,
afirmou que as declarações de Jefferson não
passam de chantagem (palavra que, segundo o Dicionário
Aurélio, significa 'ato de extorquir dinheiro, favores
ou vantagens a alguém sob ameaça de revelações
escandalosas, ou secretas'). Procurado por VEJA, o deputado Miro
Teixeira recusou-se a dar detalhes do que ouviu sobre a reunião.
Evidentemente não se pode afirmar que a história da
reunião seja integralmente verdadeira. Mas, no ambiente instalado
na semana passada no país, tampouco se pode afirmar que seja
integralmente mentirosa. Investigar cada detalhe do que está
vindo a público neste momento é tarefa obrigatória
para os deputados que compõem a CPI dos Correios, finalmente
instalada na semana passada.
A divisão de cargos promovida pelo
governo do PT, origem da crise de agora, gerou outras reuniões
que merecem atenção. Especialmente a convocada pelo
deputado Luiz Antonio de Medeiros, do PL, em 2003, que reuniu os
companheiros de legenda para um depoimento intrigante, reproduzido
a VEJA por um dos presentes à reunião. Medeiros relatou
a seus pares uma conversa mantida entre ele e o ministro-chefe da
Casa Civil, José Dirceu, na qual teria cobrado do ministro
mais cargos no governo para seus indicados. Segundo esse relato,
a resposta de José Dirceu foi enfática: 'Vocês
já têm um dinheirão para gastar. Estão
reclamando de quê?'. Referia-se ao Ministério dos Transportes,
ocupado por Anderson Adauto."
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