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Diogo
Mainardi
Sou o oráculo
de Ipanema
"Os políticos que governaram
do fim da
ditadura militar em diante só aplicaram em
escala nacional o que a tradição sertaneja
produziu de pior. Os políticos sertanizados
não vão parar de roubar. Só podemos exigir
que eles aprendam a roubar escondido"
Eu disse que Lula não ia dar certo.
A partir de agora me tratem como o oráculo
de Ipanema. Ponham oferendas na entrada do meu prédio. No
momento, estou ocupado com o parto do meu segundo filho. Não
tenho tempo para me ocupar de Lula. O futuro, porém, é
muito claro:
Lula não chega ao fim do mandato. Ele terá de renunciar.
Quando Lula renunciar, José Alencar será impedido
de assumir o cargo. Ele é do PL. O PL foi acusado de receber
propina do tesoureiro do PT, Delúbio Soares.
Severino Cavalcanti tem o mesmo problema. Ele é do PP. O
PP também foi acusado de receber propina de Delúbio
Soares.
Renan Calheiros, o quarto na linha sucessória, tomará
posse como presidente da República.
O nome de Renan Calheiros até hoje
é associado ao de Collor. Ainda que por tabela, através
de seu antigo seguidor, Collor poderá, afinal, completar
seu mandato. Não é tão grave quanto parece.
A imprensa lulista garante que a roubalheira do atual governo é
bem menor do que a do tempo de Collor, inocentando-o preventivamente.
Eu não teria tanta certeza. O próprio Collor, em agosto
do ano passado, em entrevista à Folha de S.Paulo,
no restaurante Piantella, afirmou que "o Delúbio é
muito mais abrangente" do que o PC Farias. Collor foi mais longe.
Ele previu direitinho que, por causa de Delúbio Soares, Lula
perderia o mandato, exatamente como aconteceu com ele, em 1992.
Se eu sou o oráculo de Ipanema, Collor é o oráculo
de Maceió.
O Piantella sempre foi um dos restaurantes
preferidos de Delúbio Soares. Seu dono é Antonio Carlos
de Almeida Castro, o Kakay, amigo de José Dirceu e advogado
de defesa do ministro Romero Jucá, na picaretagem da Frangonorte.
Pouco tempo atrás, o prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia,
relatou que o homem da mala do governo Lula distribuía pacotes
de dinheiro aos parlamentares dos partidos aliados durante almoços
realizados em restaurantes de Brasília. De acordo com Cesar
Maia, a distribuição dos pacotes de dinheiro era feita
abertamente, sem o menor sigilo. Só faltou dizer se o Piantella
era um dos locais em que isso ocorria. Outro restaurante muito freqüentado
por Delúbio Soares era o Porcão, que contribuiu para
a campanha de arrecadação de fundos do PT, organizando
o espetáculo da dupla caipira Zezé Di Camargo e Luciano,
com verba do Banco do Brasil.
Recentemente, Fernando Henrique Cardoso denunciou
a "sertanização" da política brasileira. Depois
negou ter usado o termo. Toda vez que Fernando Henrique diz algo
aproveitável, ele volta atrás. A sertanização
da política não é somente metafórica
é literal. O governo Lula tem 45% de aprovação
no Nordeste; no Sul e no Sudeste, a taxa cai para 30%. Não
é improvável que boa parte desses 30% seja de migrantes
nordestinos. O Brasil nunca teve uma cultura democrática.
Os políticos que governaram do fim da ditadura militar em
diante só aplicaram em escala nacional o que a tradição
sertaneja produziu de pior: a compra de voto, o empreguismo, a corrupção.
Os políticos sertanizados não
vão parar de roubar. Só podemos exigir que eles aprendam
a roubar escondido.
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