Edição 1909 . 15 de junho de 2005

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Diogo Mainardi
Sou o oráculo
de Ipanema

"Os políticos que governaram do fim da
ditadura militar em diante só aplicaram em
escala nacional o que a tradição
sertaneja
produziu de pior. Os políticos sertanizados
não vão parar de roubar. Só podemos exigir
que eles aprendam a roubar escondido"

Eu disse que Lula não ia dar certo.

A partir de agora me tratem como o oráculo de Ipanema. Ponham oferendas na entrada do meu prédio. No momento, estou ocupado com o parto do meu segundo filho. Não tenho tempo para me ocupar de Lula. O futuro, porém, é muito claro:

Lula não chega ao fim do mandato. Ele terá de renunciar.

Quando Lula renunciar, José Alencar será impedido de assumir o cargo. Ele é do PL. O PL foi acusado de receber propina do tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Severino Cavalcanti tem o mesmo problema. Ele é do PP. O PP também foi acusado de receber propina de Delúbio Soares.

Renan Calheiros, o quarto na linha sucessória, tomará posse como presidente da República.

O nome de Renan Calheiros até hoje é associado ao de Collor. Ainda que por tabela, através de seu antigo seguidor, Collor poderá, afinal, completar seu mandato. Não é tão grave quanto parece. A imprensa lulista garante que a roubalheira do atual governo é bem menor do que a do tempo de Collor, inocentando-o preventivamente. Eu não teria tanta certeza. O próprio Collor, em agosto do ano passado, em entrevista à Folha de S.Paulo, no restaurante Piantella, afirmou que "o Delúbio é muito mais abrangente" do que o PC Farias. Collor foi mais longe. Ele previu direitinho que, por causa de Delúbio Soares, Lula perderia o mandato, exatamente como aconteceu com ele, em 1992. Se eu sou o oráculo de Ipanema, Collor é o oráculo de Maceió.

O Piantella sempre foi um dos restaurantes preferidos de Delúbio Soares. Seu dono é Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, amigo de José Dirceu e advogado de defesa do ministro Romero Jucá, na picaretagem da Frangonorte. Pouco tempo atrás, o prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, relatou que o homem da mala do governo Lula distribuía pacotes de dinheiro aos parlamentares dos partidos aliados durante almoços realizados em restaurantes de Brasília. De acordo com Cesar Maia, a distribuição dos pacotes de dinheiro era feita abertamente, sem o menor sigilo. Só faltou dizer se o Piantella era um dos locais em que isso ocorria. Outro restaurante muito freqüentado por Delúbio Soares era o Porcão, que contribuiu para a campanha de arrecadação de fundos do PT, organizando o espetáculo da dupla caipira Zezé Di Camargo e Luciano, com verba do Banco do Brasil.

Recentemente, Fernando Henrique Cardoso denunciou a "sertanização" da política brasileira. Depois negou ter usado o termo. Toda vez que Fernando Henrique diz algo aproveitável, ele volta atrás. A sertanização da política não é somente metafórica – é literal. O governo Lula tem 45% de aprovação no Nordeste; no Sul e no Sudeste, a taxa cai para 30%. Não é improvável que boa parte desses 30% seja de migrantes nordestinos. O Brasil nunca teve uma cultura democrática. Os políticos que governaram do fim da ditadura militar em diante só aplicaram em escala nacional o que a tradição sertaneja produziu de pior: a compra de voto, o empreguismo, a corrupção.

Os políticos sertanizados não vão parar de roubar. Só podemos exigir que eles aprendam a roubar escondido.

 
 
 
 
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