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Entrevista: Fernando
Gabeira
"O PT acabou"
Ícone da esquerda brasileira, o deputado
diz que o PT é "igual aos outros partidos"
e que o presidente Lula está deslumbrado
com o poder

Thaís Oyama
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Anderson
Schneider/Versor

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"Ao superestimar o potencial
da linguagem publicitária, Lula saiu da história
para entrar no marketing" |
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Na lista da sucessão de
erros que diz ter cometido ao longo da vida, o deputado e escritor
Fernando Gabeira (PV) acrescentou, recentemente, mais um: o apoio
ao governo Lula, que ele hoje define como "uma farsa". O ex-guerrilheiro
do MR-8, que participou do seqüestro do embaixador americano
Charles Elbrick em 1969, afirma que Lula "traiu" a nação
e que o autoritarismo intrínseco do PT, partido ao qual ele
próprio pertenceu até 2003, está na raiz da
sua derrocada que ele considera consumada. O ícone
da esquerda brasileira, que já quis morrer pela revolução
e se libertar pelo desejo, hoje diz que crê apenas na eficácia
e na nobreza das pequenas ações. Aos 64 anos, pai
de duas filhas uma, surfista profissional, outra, estudante
de psicologia , o deputado já não vai de bicicleta
ao Congresso, trocou-a por uma moto. O existencialismo que o inspirou
na juventude ainda se revela no formato do atual casamento: à
moda de Sartre, é cada um na sua. Na semana passada, ele
deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja O senhor
escreveu, em artigo recente, que a chegada de Lula à Presidência
foi uma crueldade histórica. O que isso significa?
Fernando Gabeira Quando Lula foi candidato pela primeira
vez, o Muro de Berlim havia caído e a etapa mundial que nós
vivíamos já era a etapa do fracasso completo do socialismo.
O que eu quis dizer foi que a eleição de Lula representou,
simbolicamente e pela via eleitoral, a chegada de um operário
ao poder, mas em um momento em que isso já não significava
muito mais. Era um sonho retardatário. Nós chegamos
a ele atrasados em relação à situação
mundial. Na verdade, se tivéssemos tido um pouco mais de
percepção, veríamos que, em vez do roteiro
de Marx da chegada do operário ao poder , nós
estávamos assistindo à chegada da classe operária
ao paraíso. Porque o que aconteceu foi isso: Lula, ao chegar
ao poder, ficou deslumbrado com ele.
Veja Em que
momentos o senhor percebe esse deslumbramento?
Gabeira Em muitos momentos. A chegada ao governo significa
uma ascensão social, pelo menos nessa circunstância.
Você passa a desfrutar de bens materiais superiores aos que
desfrutava antes. E quando você chega ao governo no bojo de
um grande movimento social, muito admirado e cortejado, isso contribui
para que você, de certa maneira, perca o rumo. E aí
você vai ver as pirâmides, tirar foto ao lado das pirâmides,
comprar um avião... Isso tudo aconteceu com Lula e, no seu
caso, houve ainda a agravante de ele não ser uma pessoa inquieta,
do ponto de vista intelectual.
Veja Essa inquietação
poderia ter contribuído para amenizar o deslumbramento a
que o senhor se refere?
Gabeira Sim, porque a chegada ao poder, com todos
os atrativos que ele oferece, é sempre um questionamento
da sua sabedoria. E também um desafio à capacidade
de saber olhar os seus projetos e se manter fiel a eles. E nem o
PT nem Lula souberam responder a isso. Diante da necessidade de
abandonar um programa que talvez não estivesse totalmente
ajustado à realidade, eles optaram simplesmente por jogar
esse programa para o ar sem substituí-lo. Não
foi à toa que, durante a campanha eleitoral, poucos de nós,
intelectuais que apoiamos Lula, se submeteram àquele mico
no programa de televisão, de andar de um lado para o outro
com uma pasta debaixo do braço, dando a impressão
de que todos os problemas do Brasil estavam equacionados e que,
quando chegássemos ao governo, resolveríamos tudo.
Veja O senhor
se recusou a participar da gravação desse programa?
Gabeira Eu não fui convidado. Mas quando eles
fizeram o programa final, com o Lula já eleito no primeiro
turno, nós fomos chamados a São Paulo para gravar.
Era um programa de auditório, e nós tínhamos
de levantar as mãos, todos juntos, e balançá-las
para o alto. Eu fiquei perplexo com aquilo, não fiz. O Lula
até reclamou: "Poxa, Gabeira, você tá dormindo?".
Claro que eu não estava dormindo, eu estava achando aquilo
ridículo. Éramos participantes de um projeto político
que, no último momento, havia sido sintetizado em um programa
de auditório. Parecíamos chacretes.
Veja Foi nesse
momento que o senhor achou que o trem começava a sair dos
trilhos?
Gabeira O momento em que eu acho que o trem começa
a sair dos trilhos é quando o Lula decide, nessa última
campanha, que vai ganhar e que, para ganhar, é preciso
ter dinheiro e um excelente programa de televisão. São
premissas aparentemente sensatas. Mas, ao descobrir o imenso potencial
do veículo e da linguagem publicitária, ele passou
a superestimar o trabalho de marketing em detrimento do movimento
social que o apoiava. E isso marcou o princípio do governo:
a agenda dele passou a ser uma agenda de foto-oportunidade, para
usar uma expressão dos ingleses. O presidente recebia misses,
por exemplo, enquanto o Cristovam Buarque, durante o tempo em que
foi ministro, esteve com ele apenas uma vez. O ministro da Educação!
Lula saiu da história para entrar no marketing.
Veja O senhor
participou da montagem do governo. Houve um momento, portanto, em
que acreditou nele.
Gabeira Eu acreditei pelo seguinte: nunca houve tanto
entusiasmo popular em torno de uma candidatura. Nunca tantas pessoas
competentes e interessantes se juntaram para ajudar uma candidatura.
Então, eu achava que nós tínhamos um capital
humano suficiente para realizar um processo de transformação
importante para o Brasil. Só que o que houve foi uma traição.
Veja A quem?
Gabeira Às pessoas que acreditaram nele. Eu
andei mais de 1 000 quilômetros com o Lula. Vi a esperança
nos olhos das quebradeiras de coco do Maranhão, das plantadoras
de cebola de Santa Catarina... Era visível a esperança
delas, era visível que acreditavam na gente: "Essas pessoas
são ligadas a nós, vão mudar a nossa vida".
Vi mães chorando quando a caravana passava, mulheres levantando
os seus bebês para que vissem o palanque... Era um capital
de esperança muito grande. E parece que eles não se
importaram muito com isso. Eles não tinham um projeto de
Brasil, não tinham um projeto de nação
tinham um projeto de poder. E perderam o contato com a realidade.
Prova disso é que, no auge dessa crise, José Dirceu
disse àquele grupo de escritores espanhóis com que
se encontrou em Madri que o projeto do PT era ficar doze anos no
poder.
Veja Qual o
futuro da sigla, na sua opinião, diante dessa crise?
Gabeira O PT tem um grave erro de origem. Ele
opta pelo centralismo democrático, que foi um instrumento
criado por Lenin, no princípio do século XX, para
organizar trabalhadores fabris na luta contra o Exército
do czar. Ora, nós já estamos no princípio do
século XXI e o PT continua fazendo coisas em nome desse centralismo,
como a expulsão da senadora Heloísa Helena. Isso é
uma coisa ridícula, já não existe mais. Na
Inglaterra, 240 deputados do Partido Trabalhista votaram contra
a guerra no Iraque e continuam lá, ninguém vai expulsá-los.
O PT foi construído de uma forma autoritária, e essa
construção autoritária é que permitiu
o deslocamento da camarilha que está hoje no Palácio
do Planalto e que designa os caminhos do partido.
Veja Do ponto
de vista histórico, então, o PT estaria condenado.
E do ponto de vista ideológico?
Gabeira Desse ponto de vista, ele não existe
mais. Acabou, foi para o espaço. A população
já descobriu que o PT é igual aos outros que ele denunciava.
Veja Em que
momento isso aconteceu?
Gabeira Quando ele achou que poderia abrir mão
da bandeira ética que mantinha quando estava na oposição.
Eles adotaram a tática da visita da velha senhora, a peça
do Dürrenmatt (dramaturgo suíço Friedrich
Dürrenmatt). Ele mostra uma prostituta que sai da cidade
e volta rica. Aí, diz: "O mundo fez de mim uma prostituta
e eu vou fazer desse mundo um bordel". Eles tiveram de conseguir
dinheiro, tiveram de entrar no jogo e tiveram de comprar a sua base,
já que não podiam buscá-la no PMDB nem no PSDB.
Veja Em que
medida essa saída fisiológica não seria também
responsabilidade do sistema político brasileiro, em que o
Executivo não tem maioria garantida no Congresso e precisa
ficar o tempo todo tentando seduzi-lo para conseguir governar?
Gabeira Acho que a culpa dessa estrutura é
parcial. Porque, se você considerar a centro-esquerda brasileira,
como o PT e o PSDB, existe uma base numérica para você
dirigir o país. O problema é que, como os dois não
vão jamais se entender, estão ambos condenados ao
fisiologismo ou, como diz o Fernando Henrique, condenados
a ser a vanguarda do atraso. O que nos leva a uma situação
em que, em 2006, restará só perguntar de quem será
a vez de pedir a CPI e de quem será a vez de abafá-la.
Nós poderíamos superar essa etapa da história
brasileira criando uma frente política que fosse não
tão rigidamente ideológica, como eles querem, mas
uma frente política dos homens e mulheres de bem. Havendo
essa demarcação ética, o governo conseguiria
isolar progressivamente os fisiológicos. O processo do PT
foi justamente o contrário: ele fortaleceu o fisiologismo
e colocou na presidência da Câmara, por meio dos seus
erros, um homem que está em contradição com
o Brasil moderno, que é o Severino Cavalcanti.
Veja O ministro
José Dirceu esteve presente em vários momentos importantes
da sua vida. Foi um dos presos libertados por seu grupo em troca
do embaixador americano seqüestrado, esteve exilado em Cuba
na mesma época em que o senhor e teve peso fundamental na
sua saída do PT. Qual a relação que vocês
têm hoje?
Gabeira Não há relação.
Ele jamais gostou de mim. Em 1989, fui escolhido pela convenção
do PT candidato a vice de Lula na eleição contra Collor
e ele ficou muito zangado com isso. Aliás, foi um bombardeio
geral. Chegaram a dizer não ele, pessoalmente, mas
aliados e pessoas do próprio PT que eu não
era viril o suficiente para representar a classe operária.
Excelente isso, não?
Veja A que se
deveria isso, na sua opinião?
Gabeira Acho que o temor dele é que as pessoas
ocupem o seu espaço, que ameacem aquele trono que ele construiu
tão duramente, através de tantas reuniões e
tanto café frio. Imagine uma pessoa que coleciona sessenta
grupos de trabalho! Eu digo que ele é o Tio Patinhas dos
grupos de trabalho, que a piscina dele está cheia de relatórios
e ele não deixa ninguém chegar perto. Como se dissesse:
"Quem vai cuidar do imobilismo aqui sou eu". Mas, de maneira geral,
acho que o PT não convive bem com uma personalidade. No sentido
de que toda a estrutura do pensamento da esquerda clássico
está voltada para fazer com que o conjunto se imponha sobre
o indivíduo. Eles são anteriores à fase em
que os indivíduos já deram um passo adiante, buscando
a autenticidade como referência. Convivem mal com essa idéia.
Veja Houve um
momento em que o senhor acreditou na luta de classes como saída
para a transformação da sociedade. Em outro momento,
defendeu a política do corpo e, mais recentemente, viveu
a experiência de ser, por dez meses, governo. Foram três
decepções?
Gabeira Eu acho que, realmente, na escolha do socialismo
houve um erro meu no sentido de não compreender o momento
histórico. Contribuiu para isso o fato de estarmos na ditadura
militar e essa ditadura militar ser, em si, um símbolo do
atraso. Então, você é facilmente levado à
ilusão de que, sendo contra ela, você está na
frente, quando a verdade é que você está na
frente de um projeto em declínio. Quando entendi isso, com
a visão do marxismo sendo superada na minha cabeça,
não havia mais uma explicação da história,
que era uma espécie de substituição da religião.
Aí, eu tive de me voltar para dentro de mim para buscar onde
estava a referência. Nisso, me vi com a política do
corpo, que eu reconheço que foi absorvida pelo sistema. Passou
a ser uma grande indústria, como, aliás, ocorre com
todos os grandes movimentos. O elemento mais recente nessa sucessão
de fracassos foi esse envolvimento com um governo que ia transformar
o país e que resultou nessa farsa que vemos agora.
Veja Diante
desses três fracassos, o que restou das suas convicções?
Gabeira A decisão de me apoiar em alguns princípios
de atuação: a democracia como uma visão
estratégica, e não mais como os comunistas a viam,
uma tática para chegar ao poder , a defesa dos direitos
humanos, da consciência ecológica e, finalmente, da
justiça social. E caminhando por aí eu acho que posso
fazer alguma coisa. Não é mais uma grande revolução,
com o esplendor daqueles tempos, mas é um pouco parecido
com aquela história do Salinger, de O Apanhador no Campo
de Centeio: quando eu era jovem, eu queria morrer pela revolução.
Agora, quero viver para transformar um pouco as coisas. Sem grandiosidade,
sem melodrama. Com pequenas ações, apenas.
Veja O senhor
se separou recentemente. Voltou a se casar?
Gabeira Eu tenho uma companheira, mas vivo na minha
casa, com minha filha.
Veja É um
casamento à la Sartre, então?
Gabeira O que me fascinou no existencialismo, em Sartre
e Simone de Beauvoir, inicialmente, foi justamente a maneira como
eles lidavam com essa questão da afetividade. Mas, hoje,
não diria mais "a monogamia ou a liberdade", por exemplo.
Diria que, se você está bem com uma pessoa, ótimo.
Se não está, acho razoável que tente ficar
bem com mais de uma.
Veja O ministro
Gilberto Gil declarou que parou de fumar maconha aos 50 anos. O
senhor também parou?
Gabeira Ah, mas eu não fiz 50 anos ainda! O
Gil é mais velho, eu sou muito jovem...
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