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André
Petry
Flor de Pessegueiro
"São casos em que a mãe,
quase sempre
a mãe, não se calou diante dos abusos
sexuais sofridos pela filha e, domando
o preconceito, a vergonha e o medo, denunciou o agressor
o pai, quase sempre o pai"
É lamentável que
não seja possível promover exibições
em massa, de norte a sul do país, de um modesto documentário,
lançado recentemente em Florianópolis. Chama-se Flor
de Pessegueiro, foi dirigido por Ângela Bastos e a bela
trilha sonora é assinada por Miriam Moritz e Ricardo Fujii.
O documentário é modesto porque não custou
uma fortuna nem é um primor técnico mas é
de um vigor tocante e de uma atualidade desesperadora. Seu foco
é um tema delicadíssimo: as mães que tiveram
a enorme coragem de denunciar o abuso sexual do qual suas filhas
foram vítimas. Em 26 minutos, o documentário choca
e revolta e incomoda e sufoca ao exibir mães contando, entre
soluços de uma dor que parece ter séculos de idade,
coisas como:
A menina de 7 anos que era sexualmente abusada pelo dono do restaurante
onde a mãe trabalhava. Certo dia, a mãe, suspeitando
que um sangramento vaginal da menina pudesse ser uma hemorragia,
levou-a ao médico. Ouviu o diagnóstico que lhe roubou
a alma: "A mãe não desconfia de nada? Mãe,
sua menina foi abusada", disse-lhe a médica.
O caso da menina de 14 anos de idade que ficou grávida do
próprio pai. A menina foi autorizada a abortar.
A filha que, vencendo o medo de ser abandonada pela mãe,
finalmente lhe revelou: "Foi meu pai que me estuprou". A mãe
conta que nunca mais conseguiu esquecer essa frase as palavras,
o som, a entonação saindo da boca da filha.
A menina que, aos 4 anos e 3 meses, contou que era abusada pelo
pai. As agressões, entre outras manifestações,
levaram a criança a desenhar árvores em formato de
pênis.
O caso da jovem que, depois da separação dos pais,
ficou morando com o pai e foi sistematicamente abusada por ele dos
12 aos 22 anos de idade. A filha, surda desde os 2 anos, só
recentemente começou a recuperar a audição
graças a uma cirurgia. Ela é bonita, suave, delicada.
A mãe conta que, quando a filha era criança, dormia
tão suavemente que a chamava de "minha flor de pessegueiro".
A filha é Anahi Guedes de Mello, hoje tem 29 anos
e, corajosamente, falou com o rosto à mostra ao lado da mãe,
Marlete.
Todos os depoimentos foram colhidos
em cidades da região metropolitana de Florianópolis
e têm um dado em comum: são casos em que a mãe,
quase sempre a mãe, não se calou diante da descoberta
dos abusos sofridos pela filha e, domando o preconceito, a vergonha
e o medo, denunciou o agressor o pai, quase sempre o pai.
Há um padrão terrível
em casos assim: uma quantidade significativa, às vezes até
mais do que a metade, das mães cujas filhas são sexualmente
abusadas foram, elas próprias, vítimas de abuso na
infância ou na adolescência. Diante disso, especialistas
concluem que a violência tende a se repetir geração
após geração. Uma trava possível para
evitar a reedição do inferno é a denúncia.
Flor de Pessegueiro é vigoroso por isso: encoraja
as mulheres a trazer a público sua experiência dramática.
Seria bom se Flor de Pessegueiro
fosse exibido pelo país afora. Ficaríamos uma sociedade
melhor.
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