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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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Stephen Kanitz

O candidato perfeito

"Um governo que taxa 36% do PIB e
controla outros tantos não precisa
somente de um presidente perfeito. Precisa
de 22 ministros perfeitos, 540 secretários
perfeitos, 100 000 vereadores perfeitos,
1 milhão de funcionários perfeitos"


Poder votar num candidato perfeito é o sonho de cada brasileiro. Não é o programa de governo que tem de ser perfeito, é o candidato. Atribuímos nossos inúmeros fracassos como nação ao fato de não termos um presidente perfeito, honesto, culto, inteligente e simpático. Esse desejo, talvez utópico, leva à frustração de estarmos votando continuadamente "no menos pior".

Para a alegria de todos, acaba de ser lançado o candidato perfeito. Seu projeto de governo pode ser acessado em www.coracaobrasileiro.org. Ele é bonito, inteligente, honesto, incorruptível, não tem passado, não participa de alianças escusas, não tem dinheiro de campanha, não fuma, não bebe, não tem rabo preso. Ele é simplesmente perfeito!

Chama-se Feliciano Brasileiro, o primeiro candidato virtual a disputar as eleições para a "Presidência do Coração do Brasil", uma campanha que irá ajudar nada menos que as 400 maiores entidades brasileiras ao mesmo tempo.

Os presidentes, na realidade, não mudam países tanto quanto imaginamos, mesmo aqueles que não têm defeitos. Podem fazer discursos inspiradores em prol da mudança, vetar uma lei, representar-nos bem no exterior, escolher no máximo três ministros sem consultar ninguém, o resto é indicado pelos partidos que não venceram as eleições. Presidentes não criam leis – isso é atribuição do Legislativo – e quando as criam, por medidas provisórias, são criticados. Quem muda um país é você, é o povo como um todo.

Talvez seja essa a responsabilidade que não queremos assumir. É muito mais fácil entregá-la ao presidente, ao candidato perfeito, ao governo e reclamar depois. Lamento dizer que, com exceção de Feliciano Brasileiro, não existe candidato perfeito – como não existem marido perfeito, namorado perfeito, filha perfeita, professor perfeito. Nem é justo de nossa parte exigir tanta perfeição dos candidatos.

Em vez de nos concentrarmos nas qualidades especiais que cada candidato possui, iremos estimular e presenciar uma campanha feroz espalhando os defeitos de seus adversários. Hoje são necessários muito estômago e muita coragem para ser candidato, além de um ego extremamente forte para agüentar os desaforos de campanha. Aos candidatos que se atrevem, aqui vai minha profunda admiração.

Embora não querendo parecer pró-FHC, não há como negar que ele atende a quase todos os quesitos citados no início da coluna, e deu no que deu: quase 40% de avaliações como ruim e péssimo.

Um governo que taxa 36% do PIB e controla outros tantos não precisa somente de um presidente perfeito. Precisa de 22 ministros perfeitos, 540 secretários perfeitos, 100.000 vereadores perfeitos, 1 milhão de funcionários perfeitos, já que todos lidam com dinheiro público, matéria em que erros não são admitidos. Quando um presidente imperfeito comete um erro, quem paga é sempre você, nunca aquele que o cometeu.

Criamos mecanismos como orçamentos e auditoria posterior, que visam a coibir fraude e corrupção mas não julgam nem previnem os erros. Nem poderiam. Corrupção nem é o maior de nossos problemas, e sim a má gestão e a má administração da coisa pública.

Numa fraude é até possível reaver o dinheiro roubado, mas num erro não. Erros como o câmbio fixado em nível irreal, um enorme programa social mal elaborado, um subsídio mal pensado geram despesas para a economia maiores que todos os desvios de verbas somados.

Qual a diferença, então, entre pagarmos pelos erros cometidos em nosso nome e pagarmos nós mesmos por nossos próprios erros? A diferença é crucial.

Quando você erra, quem aprende com seu erro é você. Governantes raramente aprendem com os próprios erros. A maioria nem sequer reconhece os erros que comete. E os poucos que reconhecem fatalmente não serão reeleitos e nunca chegarão a usar o custoso aprendizado que o dinheiro do povo proporcionou. Erro por erro, prefiro pagar pelos meus.

O início da cidadania se dá com cada cidadão reconhecendo as bobagens que cometeu e pagando por elas, em vez de tentar empurrar a responsabilidade, a conta e o prejuízo para o vizinho, o governo ou a próxima geração.

Stephen Kanitz é administrador
(www.kanitz.com.br)


 
 
   
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