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Edição 1 750 - 15 de maio de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

Copa do Mundo:
prós e contras

Que temporada horrível, esta
que
se avizinha! Ao mesmo
tempo, que temporada deliciosa!

Prepare-se, leitor, para o sofrimento: vem aí a Copa do Mundo. Buzinaços lhe explodirão nos ouvidos. Bandos bêbados de camisa amarela varrerão as ruas como furacões. Será impossível esquivar-se do aluvião de bandeiras. Elas serão tão desabusadamente sacudidas que passarão raspando nos narizes vizinhos, ou terão seus mastros, empunhados por mãos imperitas, aplicados sobre inocentes cabeças. É época de reviver, ainda que de forma atabalhoada e não-programada, a antiga tradição dos corsos carnavalescos. Os carros, rodando devagar, carregarão turmas que, penduradas nas janelas, de onde soltam gritos apoteóticos, a cada 100 metros se precipitarão para o meio da pista, onde dançarão e confraternizarão com as turmas de outros carros, sem atenção para quem, atrás, indefeso, quer apenas ir para casa. Diante do poder esmagador da corrente-Brasil, eletrizada do Oiapoque ao Chuí, extensa como o Planalto Central, indomável como as Cataratas do Iguaçu, caudalosa como o Amazonas, selvagem como o Pantanal, os mais delicados poderão até ser sacudidos pela tentação de torcer contra – mas ai deles. Merecerão tratamento de John Walker, e, para quem não sabe quem é John Walker, trata-se do pobre coitado do americano desorientado e barbudo encontrado por seus compatriotas lutando ao lado dos talibãs, no Afeganistão.

O melhor a fazer, em Copa do Mundo, para um espírito sensato, é retiro espiritual. Mas onde? Se for num estabelecimento religioso, o padre também estará tomado da febre. Não espanta se, ao rezar a missa, tenha, oculto nas dobras da sobrepeliz, o walkman, que, conectado ao ouvido, o protegerá da irremediável desgraça de perder algum lance. As freirinhas gritarão "Vai, Ronaldo", "Passa, Rivaldo", com a desenvoltura de contumazes freqüentadoras das gerais. Se o retiro for numa reserva indígena do Xingu, será ocasião de, em vez de buzinas, ouvir tambores. As danças se prolongarão horas a fio, e talvez até lanças sejam disparadas a esmo, e projéteis soprados de perigosas zarabatanas, a título de comemoração.

O leitor duvida de que vá sofrer? Na verdade, já está sofrendo. Copa do Mundo é tempo de os craques estrelarem anúncios. Nos outdoors, na TV, no rádio... eles já estão em toda parte, e vendendo de tudo – insinuantes, insistentes. Até o técnico, travestido em ator de raquíticas qualidades, tira a sua lasquinha. Para eles, os astros do momento, é tempo de faturar – e eles se jogam à oportunidade com volúpia de sátiro em dia de bacanal. Depois, há a verborragia patrioteira dos locutores da televisão – quem agüenta? E pairando sobre tudo, avassaladora, a mais tenebrosa característica da temporada – a unanimidade. Ela vem com a força dos fenômenos naturais, de combinação com a arrogância das ditaduras. Ai de quem se opuser, ai de quem não gostar, ai de quem não quiser festejar.

Já se sofreu o suficiente? Então vamos aos prazeres, para compensar. O primeiro prazer que oferece uma Copa do Mundo é o futebol, em si. É época dos jogos que ficarão para a história e dos lances que se perpetuarão na memória, para o bem e para o mal. Para o mal, no caso dos brasileiros, ficaram o pênalti cometido por Domingos da Guia que pôs a Copa de 1938 a perder e, mais que tudo, mais ainda que a derrota contra a Itália que desclassificou a bela e malfadada seleção de 1982, o gol de Ghiggia que, em 1950, calou o Maracanã. Para o bem, os dribles de Garrincha e os gols de Pelé em 1958, ou os concertos da insuperável sinfônica que foi a seleção de 1970.

Mas há também, numa Copa do Mundo, prazeres de outro tipo, que dizem respeito à utopia de uma ordem mundial menos injusta. O campo de futebol é um espaço onde a humilhada Argentina se eleva à categoria de potência. Onde o Brasil, PIB per capita de 3 600 dólares, encara, de superior para inferior, a Alemanha, PIB per capita de 25 000 dólares. Sobretudo, para ilustrar o prodígio de relações equilibradas entre as nações e os continentes proporcionado pela bola, o futebol é um campo onde a África, terra dos recordes de miséria e da culminância dos barbarismos, das epidemias e das guerras civis, tem um presente risonho e um futuro promissor. No futebol, a República dos Camarões é alguém.

Em Olimpíadas não é assim. Pode ocorrer, numa certa modalidade, como a maratona, que a Etiópia ou o Quênia ganhem destaque. Também podem ocorrer fenômenos isolados, como um João do Pulo ou um Joaquim Cruz, a favorecer o Brasil. Pode ocorrer ainda que um país menor, como Cuba, venha a superar-se. Mas, no geral, impõe-se a lógica da potência. Ganham as nações mais fortes. Confirma-se a supremacia dos grandes do mundo e, entre todos, a supremacia dos Estados Unidos. A Copa do Mundo, em sua capacidade ilógica de nivelar as nações privilegiadas com as deserdadas, chega onde a ONU não conseguiu chegar. De quebra, é talvez o único acontecimento planetário em que não prevalece, nem dentro nem fora do campo, o peso sufocante dos Estados Unidos. Desenha-se nesta época a utopia de um mundo realmente multipolar.

   
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