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Roberto
Pompeu de Toledo
Copa
do Mundo:
prós e contras
Que
temporada
horrível,
esta
que se
avizinha! Ao
mesmo
tempo,
que temporada
deliciosa!
Prepare-se,
leitor, para o sofrimento: vem aí a Copa do Mundo. Buzinaços
lhe explodirão nos ouvidos. Bandos bêbados de camisa amarela
varrerão as ruas como furacões. Será impossível
esquivar-se do aluvião de bandeiras. Elas serão tão
desabusadamente sacudidas que passarão raspando nos narizes vizinhos,
ou terão seus mastros, empunhados por mãos imperitas, aplicados
sobre inocentes cabeças. É época de reviver, ainda
que de forma atabalhoada e não-programada, a antiga tradição
dos corsos carnavalescos. Os carros, rodando devagar, carregarão
turmas que, penduradas nas janelas, de onde soltam gritos apoteóticos,
a cada 100 metros se precipitarão para o meio da pista, onde dançarão
e confraternizarão com as turmas de outros carros, sem atenção
para quem, atrás, indefeso, quer apenas ir para casa. Diante do
poder esmagador da corrente-Brasil, eletrizada do Oiapoque ao Chuí,
extensa como o Planalto Central, indomável como as Cataratas do
Iguaçu, caudalosa como o Amazonas, selvagem como o Pantanal, os
mais delicados poderão até ser sacudidos pela tentação
de torcer contra mas ai deles. Merecerão tratamento de John
Walker, e, para quem não sabe quem é John Walker, trata-se
do pobre coitado do americano desorientado e barbudo encontrado por seus
compatriotas lutando ao lado dos talibãs, no Afeganistão.
O melhor a fazer, em Copa do Mundo, para um espírito sensato, é
retiro espiritual. Mas onde? Se for num estabelecimento religioso, o padre
também estará tomado da febre. Não espanta se, ao
rezar a missa, tenha, oculto nas dobras da sobrepeliz, o walkman, que,
conectado ao ouvido, o protegerá da irremediável desgraça
de perder algum lance. As freirinhas gritarão "Vai, Ronaldo", "Passa,
Rivaldo", com a desenvoltura de contumazes freqüentadoras das gerais.
Se o retiro for numa reserva indígena do Xingu, será ocasião
de, em vez de buzinas, ouvir tambores. As danças se prolongarão
horas a fio, e talvez até lanças sejam disparadas a esmo,
e projéteis soprados de perigosas zarabatanas, a título
de comemoração.
O leitor duvida de que vá sofrer? Na verdade, já está
sofrendo. Copa do Mundo é tempo de os craques estrelarem anúncios.
Nos outdoors, na TV, no rádio... eles já estão em
toda parte, e vendendo de tudo insinuantes, insistentes. Até
o técnico, travestido em ator de raquíticas qualidades,
tira a sua lasquinha. Para eles, os astros do momento, é tempo
de faturar e eles se jogam à oportunidade com volúpia
de sátiro em dia de bacanal. Depois, há a verborragia patrioteira
dos locutores da televisão quem agüenta? E pairando
sobre tudo, avassaladora, a mais tenebrosa característica da temporada
a unanimidade. Ela vem com a força dos fenômenos naturais,
de combinação com a arrogância das ditaduras. Ai de
quem se opuser, ai de quem não gostar, ai de quem não quiser
festejar.
Já se sofreu o suficiente? Então vamos aos prazeres, para
compensar. O primeiro prazer que oferece uma Copa do Mundo é o
futebol, em si. É época dos jogos que ficarão para
a história e dos lances que se perpetuarão na memória,
para o bem e para o mal. Para o mal, no caso dos brasileiros, ficaram
o pênalti cometido por Domingos da Guia que pôs a Copa de
1938 a perder e, mais que tudo, mais ainda que a derrota contra a Itália
que desclassificou a bela e malfadada seleção de 1982, o
gol de Ghiggia que, em 1950, calou o Maracanã. Para o bem, os dribles
de Garrincha e os gols de Pelé em 1958, ou os concertos da insuperável
sinfônica que foi a seleção de 1970.
Mas há também, numa Copa do Mundo, prazeres de outro tipo,
que dizem respeito à utopia de uma ordem mundial menos injusta.
O campo de futebol é um espaço onde a humilhada Argentina
se eleva à categoria de potência. Onde o Brasil, PIB per
capita de 3 600 dólares, encara, de superior para inferior, a Alemanha,
PIB per capita de 25 000 dólares. Sobretudo, para ilustrar o prodígio
de relações equilibradas entre as nações e
os continentes proporcionado pela bola, o futebol é um campo onde
a África, terra dos recordes de miséria e da culminância
dos barbarismos, das epidemias e das guerras civis, tem um presente risonho
e um futuro promissor. No futebol, a República dos Camarões
é alguém.
Em Olimpíadas não é assim. Pode ocorrer, numa certa
modalidade, como a maratona, que a Etiópia ou o Quênia ganhem
destaque. Também podem ocorrer fenômenos isolados, como um
João do Pulo ou um Joaquim Cruz, a favorecer o Brasil. Pode ocorrer
ainda que um país menor, como Cuba, venha a superar-se. Mas, no
geral, impõe-se a lógica da potência. Ganham as nações
mais fortes. Confirma-se a supremacia dos grandes do mundo e, entre todos,
a supremacia dos Estados Unidos. A Copa do Mundo, em sua capacidade ilógica
de nivelar as nações privilegiadas com as deserdadas, chega
onde a ONU não conseguiu chegar. De quebra, é talvez o único
acontecimento planetário em que não prevalece, nem dentro
nem fora do campo, o peso sufocante dos Estados Unidos. Desenha-se nesta
época a utopia de um mundo realmente multipolar.
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