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Edição 1 750 - 15 de maio de 2002
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A vingança dos nerds

Peter Parker, ou o Homem-Aranha, é
tímido e desajeitado. Mas já é também
um milionário, que deixou na poeira os
recordistas de bilheteria

Isabela Boscov

 



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Estação VEJA: especial com fotos, trailers e curiosidades

Há pelo menos um momento de excitação em Homem-Aranha (Spider-Man, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país. Depois de uma noite de febre e mal-estar, o jovem Peter Parker acorda se sentindo uma nova pessoa – nova mesmo. Seus músculos mirrados milagrosamente ganharam volume e definição. Os óculos já não servem mais – ao invés de corrigir sua miopia, eles embaçam sua visão agora perfeita. Sua agilidade é algo de extraordinário: ele é, literalmente, capaz de caminhar pelas paredes. Peter vai se dando conta dessas transformações com aquela elação típica dos sonhos, de quem se vê subitamente livre de todos os pequenos fracassos e fraquezas que tornam a vida tão mesquinha – ainda mais a vida dos adolescentes solitários e impopulares, do tipo que os colegas acham "esquisitos". É nessa reinvenção de Peter que o filme ganha a platéia. Sejam quais forem os defeitos que Homem-Aranha apresente daí para a frente – e há alguns –, essa cumplicidade entre protagonista e espectador permanece, até o final, o grande trunfo do filme. Aqui há um personagem que desperta interesse genuíno, coisa rara nesse gênero de superprodução.


Fotos Zade Rosenthal
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Maguire, como Peter, descobre seus poderes: os objetos grudam em suas mãos, sua visão ficou perfeita e a gravidade não é mais um obstáculo

Homem-Aranha quebrou com folga os recordes de bilheteria nos Estados Unidos, onde recolheu quase 115 milhões de dólares apenas nos primeiros três dias de exibição (veja quadro). Ou seja, está perto de pagar seu custo de produção, de cerca de 140 milhões. A cifra pegou todo mundo de surpresa: as "bocas de urna" mais otimistas previam um total de 75 milhões no primeiro fim de semana. Somaram para esse sucesso a expectativa em torno de um projeto que passava de mão em mão havia anos, os trailers sensacionais, que vinham atiçando o apetite do público fazia meses, e o carisma do personagem criado por Stan Lee, que há quatro décadas é um dos campeões de vendagem da editora de quadrinhos Marvel. Um olhar mais atento ao desempenho do filme, contudo, revela a influência de outro fator: o boca-a-boca positivo. Foi isso que deu a Homem-Aranha pernas para avançar além do gueto de fãs do personagem e conquistar um público que nunca folheou suas revistas.

Homem-Aranha é, em tudo, um pouco diferente das adaptações costumeiras dos quadrinhos – e em tudo um pouco melhor. Primeiro fato notável: trata-se de um romance. Quando Peter (interpretado por Tobey Maguire) adquire seus poderes, nem passa pela sua cabeça correr para salvar o mundo. A única coisa que lhe vem à mente é que agora talvez fique mais fácil conquistar Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), sua vizinha no bairro nova-iorquino do Queens. Não que Peter cogite dar uma de galã. Seu plano é empregar sua força nos ringues de luta livre e, com os prêmios, comprar um carro usado. Aí quem sabe ele possa convidar Mary para passear. Peter é tão humilde que costura sozinho seu primeiro uniforme – um moletom com capuz e uma aranha pintada no peito. Só mais tarde, quando as circunstâncias o impelem, ele começa a livrar Nova York do crime, correndo por entre os arranha-céus da cidade preso à sua teia. Nessas seqüências, Homem-Aranha é irresistível. Até no ar irreal e cartunesco dos efeitos especiais o diretor Sam Raimi acertou. Em vez de buscar o realismo, eles dão a sensação de que se está vendo um quadrinho que ganhou vida, com toda a exuberância e o ritmo vertiginoso que o gênero pede.

 
Zade Rosenthal/Columbia Pictures
Doug Hyun/Columbia Pictures
O diretor Sam Raimi (à esq.) no set: um ex-nerd que só veste terno e gravata e que bateu o pé para escalar Maguire e Kirsten (à dir.) para os papéis centrais

Bem menos envolvente é a relação de Peter com seus tios, que tem um quê de novela das 6, ou o embate do Homem-Aranha com o grande vilão do filme, o Duende Verde (Willem Dafoe) – na verdade, o pai do melhor amigo de Peter, que desenvolve uma personalidade psicótica ao inalar um gás tóxico. O problema aí não está só na atuação burocrática de Dafoe, ou na pobreza evidente do personagem. É que, nessa altura da trama, o Homem-Aranha já alcançou a plenitude de seu poder, o que reduz muito seu apelo. O que torna Peter Parker um super-herói tão especial não é o domínio de seu arsenal, mas justamente a falta de controle sobre ele. Peter é o que os americanos chamam com muita crueldade de loser, ou perdedor. Desde a infância, ele observa Mary pela janela de seu quarto, mas ela mal nota sua existência. Não que Mary esteja sozinha nessa indiferença. Ninguém olha duas vezes para Peter, a não ser para dar risada ao vê-lo correndo atrás do ônibus escolar, todas as manhãs, por obra de um motorista perverso. Peter é órfão, mora com seus tios idosos, não tem dinheiro, não é bonito e é bom aluno. É, enfim, um nerd, e como tal invariavelmente almoça sem companhia na cafeteria da escola. É nela, aliás, que acontece uma das cenas mais bem boladas do filme. Peter acabou de ser picado por uma aranha geneticamente modificada – razão de sua metamorfose – e ainda não sabe muito bem que surpresas o aguardam. Por causa de um gesto mais brusco com os talheres, uma substância esbranquiçada e viscosa – sua teia – jorra de seu pulso, atingindo os colegas e causando um embaraço sem tamanho. Clara sem ser grosseira, a cena resume aquele pânico que um adolescente experimenta ao constatar que seus hormônios agem sem aviso prévio e transformam situações simples em cenários de pesadelo.

 
Zade Rosenthal/Columbia Pictures
O Homem-Aranha enfrenta o Duende Verde: o vilão é o ponto fraco

Até um ano atrás, Homem-Aranha ainda não tinha adquirido esse contorno de sucesso anunciado com que chegou aos cinemas. Por quase vinte anos a transposição do quadrinho para a tela foi alvo de infindáveis disputas legais, em que se misturavam falências, embargos e desistências. Em 1999, quando o diretor James Cameron – um fã incondicional do personagem – avisou que estava caindo fora do projeto, sua morte parecia só uma questão de tempo. Nem a decisão da Sony de reavivá-lo diminuiu o pessimismo. O primeiro senão, segundo se acreditava, estava na contratação do diretor Sam Raimi. Hoje com 42 anos, Raimi começou a carreira como um garotão (também ele um nerd, obviamente) com nítida inclinação para o trash e o filme B – criativo e de qualidade, mas nem por isso menos B. Até duas semanas atrás, seus trabalhos mais conhecidos ainda eram A Morte do Demônio e os dois Uma Noite Alucinante, fitas cômicas (e baratíssimas) de terror em que ele extravasava toda a sua imaginação e o seu talento para inventar câmaras e lentes novas, capazes de proezas visuais até hoje difíceis de igualar – e cuja marca está bem presente em Homem-Aranha. Nos últimos tempos, Raimi partiu para dramas pequenos, como o ótimo Um Plano Simples e o irregular O Dom da Premonição. Até aceitar o convite para Homem-Aranha, ele nunca havia comandado uma produção multimilionária, muito menos lidado com efeitos digitais na escala exigida pelo projeto. Pelo que se vê na tela, isso não o atrapalhou em nada. Raimi (que só comparece ao set de terno e gravata) tem uma sensibilidade perfeitamente sintonizada com a linguagem dos quadrinhos e um senso de humor efusivo, que pende muito mais para o alegre do que para o esquisito – uma das razões pelas quais assistir a Homem-Aranha é uma experiência tão saborosa.

A principal virtude de Raimi, contudo, é a preocupação em ancorar o filme nos atores, e não nos efeitos, por mais delirantes que estes sejam. Contra o eterno instinto dos estúdios de convocar astros consagrados e esteticamente privilegiados, foi do diretor a decisão de recrutar Tobey Maguire e Kirsten Dunst para os papéis centrais. Nem um nem outro têm porte de estrela, mas ambos estão entre os melhores nomes de sua geração. A serenidade de Tobey e a delicadeza de Kirsten são, no fim, o eixo em torno do qual gira Homem-Aranha: quando o Duende Verde já está há muito esquecido, a platéia ainda está ansiosa para saber que rumo, afinal, vai tomar o romance dos dois. Não que a história termine por aqui. Homem-Aranha 2, é claro, já está garantido.

 

 

Aracnídeo, mas sensível

 
Lee, representado ao lado do infalível Capitão América (à esq.), e os atormentados Hulk e Surfista Prateado

O quadrinista americano Stan Lee criou o Homem-Aranha quarenta anos atrás, num gesto de rebeldia e teimosia. Lee trabalhava por encomenda, e durante um bom tempo teve sob sua responsabilidade as histórias do Capitão América. Com seu novo personagem, ele virou do avesso a fórmula dos super-heróis. Em vez de resolver seus problemas, os poderes do adolescente Peter Parker só lhe trazem mais dúvidas, inadequações e desafios. Publicada numa revista que já estava em seu último número, a história fez sucesso imediato e catapultou a carreira de Lee. No cargo de presidente da gigante Marvel Comics, o autor criou outros personagens conflituosos de sucesso. Entre eles, o Incrível Hulk – cuja versão cinematográfica está sendo dirigida pelo taiwanês Ang Lee, de O Tigre e o Dragão – e o Surfista Prateado. Lee, hoje com 79 anos e ainda na ativa, influenciou fortemente os rumos da história em quadrinhos. Essa sua ótica do herói "comum" levou à revisão até de personagens rivais, como Batman, que se tornou um morcegão angustiado.



   
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