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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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Thaís Oyama

 
Agência Estado

GLAMOUR E HORROR
Cláudia Reali com Diniz
e, acima, anúncio de jornal: senha para contato

Cláudia Reali, 40 anos, viveu um dos piores pesadelos pelos quais uma mãe pode passar: presenciar o sofrimento dos filhos e, em meio a ele, ser obrigada a abandoná-los. Namorada de Alcides Diniz, da família proprietária do Grupo Pão de Açúcar, ela foi seqüestrada no dia 14 de março, em casa, com os três filhos, um caso raro mesmo na atual onda de barbaridades. Passou onze dias com os meninos num cativeiro até ser forçada a deixá-los sozinhos nas mãos dos bandidos, que ameaçavam matá-los caso ela não conseguisse 3 milhões de dólares. A tragédia terminou na segunda-feira passada. João, de 16 anos, Antonio, de 14, e Luís Felipe, de 11, foram libertados mediante resgate de 430.000 reais. Voltaram para casa magros e assustados – tanto que pouco têm conseguido ajudar a polícia na tentativa de prender seus algozes. "Eles estão visivelmente amedrontados", diz o delegado Carlos Castiglioni, da Divisão Anti-Seqüestro, que orientou a família durante o episódio. Apesar de abalados, ainda passaram na escola que freqüentam, onde a preocupação com a seguranca dos alunos, já enorme, compreensivelmente redobrou. A seguir, a reconstituição dessa história tristemente brasileira.

14 de março, o engano: depois de dominarem o motorista da família, seis homens invadem a casa de Cláudia Reali, no bairro dos Jardins. João e Luís Felipe estão lá. Ela chega mais tarde com Antonio. Os bandidos esperam que Alcides Diniz apareça em breve. Acreditam que ele seja o pai dos meninos. Só se convencem do engano quando os irmãos mostram a carteira de identidade. A quadrilha desiste de pegar Diniz. Cláudia e os filhos são colocados numa Blazer, cobertos por mantas e levados para um barraco. Ficam num quarto minúsculo, escuro e abafado.

17 de março, luvas de borracha: um dos bandidos leva a bela Cláudia para o que parece ser a cozinha da casa. Ordena que escreva uma carta ao companheiro, insistindo no pedido de resgate. Cláudia contou à família que esse foi um dos momentos mais apavorantes que viveu lá. Além do capuz, o seqüestrador usava luvas de borracha. Ela teve a certeza de que seria mutilada. Disse que tremia tanto que mal conseguia segurar a caneta.

25 de março, a separação: os bandidos comunicam que Cláudia será libertada, mas seus filhos não. Para tê-los de volta, ela deverá reunir o "máximo de dinheiro que puder". Chegam dois encapuzados para levar os meninos a um segundo cativeiro. Eles choram. Naquele momento, segundo contou depois a familiares, Cláudia sentiu-se como as mulheres que tinham os filhos arrancados de seus braços pelos nazistas. "Foi A Lista de Schindler", disse, referindo-se ao filme que relata episódios do genocídio dos judeus durante a II Guerra.

26 de março, novo cativeiro: Cláudia é libertada. Seus filhos já se encontram no novo cativeiro: um quarto tão escuro quanto o primeiro, um pouco maior e com banheiro. Recebem café da manhã e uma refeição à tarde – macarrão com salsicha, bife com ovo frito e, uma vez, massa com frutos do mar. Embora a comida seja ruim, percebem que devem comer tudo: quando deixam sobras nos pratos, os bandidos "esquecem-se" de mandar a próxima refeição.

 
Epitacio Pessoa

ÚLTIMA VIAGEM
Carro usado pelos bandidos para levar os três irmãos ao local da libertação

30 de março, a ameaça: na Páscoa, Diniz recebe nova ligação de um dos seqüestradores e diz que poderá levantar 300.000 reais – resistir sempre à chantagem inicial dos seqüestradores é uma orientação básica da polícia para preservar os próprios reféns. O bandido, irritado, ameaça: "Isto aqui não é brincadeira. Os meninos vão pagar". Dias depois, a família publica dois anúncios de jornal, conforme exigência anterior dos seqüestradores, tentando restabelecer contato.

19 de abril, silêncio: os seqüestradores ouvem novamente de Diniz que ele não tem o dinheiro pedido (agora, 3 milhões de reais). A partir daí, entram num longo silêncio. A família fica quinze dias sem nenhum contato. Cláudia está à base de calmantes.

Manhã de 4 de maio, o desafio: os seqüestradores finalmente voltam a ligar, dessa vez para o empresário João Geraldo Bordon, o pai dos meninos. Dizem que Diniz "não está querendo resolver o problema". Bordon deve arrumar o dinheiro e publicar novo anúncio quando estiver com ele em mãos. O empresário insiste que não vai publicar nada e que a situação terá de ser resolvida imediatamente. Chega a dizer aos bandidos que erraram ao devolver a Diniz "a única coisa" que lhe interessava: Cláudia. "Agora, sobre os meus filhos, quem responde sou eu", desafia. Os bandidos acabam aceitando a proposta de Bordon, de 300.000 reais mais 53.000 dólares, e ameaçam: "Ficamos com a mixaria e, mais tarde, acertamos o resto com o Alcides".

Noite de 4 de maio, tensão máxima: novo contato para combinar o pagamento do resgate. Orientado pela polícia, Bordon pede uma prova de que seus filhos estão vivos. Ouve uma recusa. Dois outros telefonemas semelhantes se sucedem. A polícia passa a cogitar três hipóteses: a) a quadrilha rachou e os meninos ficaram com o outro bando; b) os seqüestradores "venderam" os reféns para uma segunda quadrilha; c) os meninos estão mortos. A tensão na família atinge o nível máximo. Bordon quer pagar o resgate com ou sem prova de vida. Hugo Ribeiro, irmão de Cláudia, pede para que ele insista. Cláudia acompanha tudo a distância, da casa de Diniz. O telefone toca pela última vez na madrugada e Bordon mantém a exigência da prova de vida. O bandido, novamente, se recusa a atendê-lo. Irritado, diz: "Agora você vai ver quanto tempo vai ficar sem notícia dos seus filhos". Bate o telefone.

 
Antonio Milena

ATRÁS DA MURALHA
Saída da escola dos meninos: congestionamento de guarda-costas

5 de maio, o fim: Bordon é informado de que a prova de vida que pediu está num orelhão do bairro Cidade Jardim. É uma página de jornal do dia com digitais dos três meninos e recados de cada um deles. Às 22 horas, Bordon sai para entregar o resgate na Rodovia Anchieta. Às 6 horas da manhã do dia 6, os meninos são libertados. Estão pálidos e mais magros. João está de barba, Antonio exibe um bigodinho ralo e Luís Felipe é o mais falante. Os três seguem para a casa da avó e, depois, para a mansão de Diniz. O padrasto os presenteia com motos de competição. Cláudia diz a familiares que pretende deixar o país.

   
 
   
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