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Fantasmas
em Tóquio
A moderna
capital japonesa teme
assombrações ancestrais, que
perturbam até o primeiro-ministro
Para todos
os efeitos, Junichiro Koizumi, primeiro-ministro do Japão, mudou-se
da residência oficial, um casarão construído há
mais de setenta anos, em busca de um ambiente mais moderno e adequado
à imagem de renovação que pretende empreender a seu
governo. Mas, para o povo, Koizumi mudou-se mesmo com o objetivo de escapar
das assombrações da mansão original. Há dois
anos, um antigo morador, o então primeiro-ministro Yoshiro Mori,
declarou que ouvia ruídos estranhos à noite e que as portas
e janelas se abriam sem que ninguém as tocasse. Os jornais populares
no Japão especulavam se a nova residência oficial, que é
à prova de terremotos e demorou seis anos para ficar pronta, seria
imune a fantasmas.

A
Esposa Infiel, de Shunkosai Hokuei: a ancestral arte fantasmagórica
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O medo das
almas, especialmente as que pertenceram a pessoas mortas em circunstâncias
violentas, é um traço presente nas mais variadas culturas.
O que chama a atenção no Japão é o fato de
esse traço cultural ter atravessado incólume os séculos,
resistido a toda modernização e chegado com vigor ao século
XXI. No passado, fantasmas famosos no Japão, como o do marido assassinado
que vem atormentar a esposa infiel, foram motivo para artistas. O mais
produtivo deles, Shunkosai Hokuei, pintou uma série memorável
de cenas de inspiração fantasmagórica. O curioso
é que alguns dos seres do outro mundo pintados por Hokuei há
quase 200 anos se parecem muito com as imagens modernas de fantasmas:
são seres que flutuam no ar como balões se desinflando.
Os estudiosos do fenômeno estranham especialmente o fato de essas
crendices terem tantos adeptos numa sociedade que valoriza como poucas
a matemática, a ciência e a alta tecnologia. "O exorcismo
se tornou uma indústria multibilionária no Japão",
diz uma reportagem do jornal americano Los Angeles Times. As pessoas
que se anunciam com poderes para exorcizar fantasmas prestam serviços
para empresas de porte e são famosas como os jogadores de futebol
e artistas de televisão. Eles cobram de 400 dólares a 160.000
dólares para espantar os maus espíritos.
Já
existe até a exploração turística do fenômeno.
Há uma "alta estação" para quem quer ver fantasmas.
Ela ocorre em agosto, quando se acredita que os espíritos dos ancestrais
voltem à terra para sua visita anual. Para aplacarem a ira das
almas mais atormentadas, os japoneses fazem oferendas de alimentos, objetos
e até mesmo dinheiro. A Sociedade de Preservação
da Memória de Taira-no-Masakado, um samurai que morreu há
mais de 1.000 anos, depois de uma batalha sangrenta
pelo poder, abriu uma conta bancária para depositar as dádivas.
O saldo chegava na semana passada a quase 200.000
dólares.
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