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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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Fantasmas em Tóquio

A moderna capital japonesa teme
assombrações ancestrais, que
perturbam até o primeiro-ministro

Para todos os efeitos, Junichiro Koizumi, primeiro-ministro do Japão, mudou-se da residência oficial, um casarão construído há mais de setenta anos, em busca de um ambiente mais moderno e adequado à imagem de renovação que pretende empreender a seu governo. Mas, para o povo, Koizumi mudou-se mesmo com o objetivo de escapar das assombrações da mansão original. Há dois anos, um antigo morador, o então primeiro-ministro Yoshiro Mori, declarou que ouvia ruídos estranhos à noite e que as portas e janelas se abriam sem que ninguém as tocasse. Os jornais populares no Japão especulavam se a nova residência oficial, que é à prova de terremotos e demorou seis anos para ficar pronta, seria imune a fantasmas.



A Esposa Infiel, de Shunkosai Hokuei: a ancestral arte fantasmagórica

O medo das almas, especialmente as que pertenceram a pessoas mortas em circunstâncias violentas, é um traço presente nas mais variadas culturas. O que chama a atenção no Japão é o fato de esse traço cultural ter atravessado incólume os séculos, resistido a toda modernização e chegado com vigor ao século XXI. No passado, fantasmas famosos no Japão, como o do marido assassinado que vem atormentar a esposa infiel, foram motivo para artistas. O mais produtivo deles, Shunkosai Hokuei, pintou uma série memorável de cenas de inspiração fantasmagórica. O curioso é que alguns dos seres do outro mundo pintados por Hokuei há quase 200 anos se parecem muito com as imagens modernas de fantasmas: são seres que flutuam no ar como balões se desinflando. Os estudiosos do fenômeno estranham especialmente o fato de essas crendices terem tantos adeptos numa sociedade que valoriza como poucas a matemática, a ciência e a alta tecnologia. "O exorcismo se tornou uma indústria multibilionária no Japão", diz uma reportagem do jornal americano Los Angeles Times. As pessoas que se anunciam com poderes para exorcizar fantasmas prestam serviços para empresas de porte e são famosas como os jogadores de futebol e artistas de televisão. Eles cobram de 400 dólares a 160.000 dólares para espantar os maus espíritos.

Já existe até a exploração turística do fenômeno. Há uma "alta estação" para quem quer ver fantasmas. Ela ocorre em agosto, quando se acredita que os espíritos dos ancestrais voltem à terra para sua visita anual. Para aplacarem a ira das almas mais atormentadas, os japoneses fazem oferendas de alimentos, objetos e até mesmo dinheiro. A Sociedade de Preservação da Memória de Taira-no-Masakado, um samurai que morreu há mais de 1.000 anos, depois de uma batalha sangrenta pelo poder, abriu uma conta bancária para depositar as dádivas. O saldo chegava na semana passada a quase 200.000 dólares.

   
 
   
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