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Como era há
2 000 anos
Arqueólogos
usam realidade virtual
para reconstruir monumentos
históricos em ruínas
Natasha
Madov
Fotos Courtesy Cultural Virtual Reality
Lab/UCLA
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COMO
FICOU O COLISEU
A
reconstrução revelou corredores estreitos e escuros.
As ruínas atuais
foram a base do modelo virtual
(fotos) |
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Veja também |
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O Coliseu,
anfiteatro construído em Roma há dois milênios, é
uma maravilha arquitetônica. Nos dias de jogos, acomodava em suas
arquibancadas 50.000 espectadores, o mesmo
que um moderno estádio de futebol. Os historiadores sempre acreditaram
que toda essa gente podia deixar a construção em apenas
dez minutos, tal a engenhosidade dos arquitetos romanos. Ou não
poderia? A recriação do Coliseu no laboratório de
realidade virtual da Universidade da Califórnia (Ucla), em Los
Angeles, demonstrou que o projeto arquitetônico não tinha
a eficiência de uma moderna estação de metrô,
como se imaginava. No térreo, que dava acesso aos melhores lugares
do anfiteatro, os vestíbulos eram espaçosos e bem iluminados.
Nos andares superiores, ao contrário, a plebe tinha de se espremer
em corredores estreitos e escuros para chegar às arquibancadas.
No fim dos espetáculos, a saída do público na certa
era tumultuada e lenta.
O modelo
em três dimensões do Coliseu, que possibilita uma caminhada
virtual por suas galerias e pelos subterrâneos, é parte de
um megaprojeto que está recriando em computador os principais monumentos
romanos. Esse tipo de reconstrução é uma revolução
na arqueologia, pois permite tirar dúvidas sobre verdades estabelecidas,
mas jamais comprovadas. Para as recriações, arqueólogos,
arquitetos e técnicos de computação trabalham com
plantas e desenhos antigos, fotografias e registros históricos,
além de visitar os locais para fazer medições. O
programa 3D também leva em conta o material utilizado e as leis
da física. Foi assim que se descobriu que os três andares
superiores do Coliseu eram mais estreitos que o térreo. A arena
oval, onde se realizavam combates de gladiadores, foi construída
entre os anos 70 e 80 pelos imperadores Vespasiano e Tito. Terremotos
e depredações (os mármores de seu revestimento foram
reaproveitados nas igrejas do Vaticano) destruíram a maior parte
do prédio. Mas um bom pedaço da fachada sobreviveu.
A reconstrução
do Fórum, centro da vida política no Império Romano,
também trouxe revelações surpreendentes. No edifício
do Senado, que faz parte do conjunto, foram pronunciadas peças
de retórica até hoje estudadas nas universidades. A realidade
virtual sugere que o salão em que se reuniam os senadores era escuro,
abafado e com péssima acústica. "Tudo isso poderia ter sido
questionado antes", diz Bernard Frischer, diretor do Laboratório
de Realidade Virtual Cultural da Ucla. "Mas só após colocar
os monumentos em realidade virtual e passear por eles é que foi
possível perceber esse tipo de detalhe." O laboratório também
já recriou a Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, à
época de sua construção, em 440, e atualmente trabalha
no projeto original da Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha,
que é de 1078.
A reconstrução
de sítios arqueológicos no computador só se tornou
possível nos últimos cinco anos, com o barateamento de tecnologias
de processamento de imagens. As possibilidades são espetaculares.
Os pesquisadores podem recriar palácios e monumentos dos quais
só restam amontoados de pedras. "Fragmentos não contam muitas
histórias", diz o americano Donald Sanders, presidente da Learning
Sites, empresa especializada em reconstruções virtuais de
sítios arqueológicos. "Os arqueólogos não
conseguem, a partir deles, compreender completamente o espaço e
como as pessoas viviam ali. Com a construção virtual, é
possível entender melhor o cotidiano delas." As recriações
virtuais da Learning Sites vão de casas na Grécia antiga
a templos egípcios. Mas seu carro-chefe é a reconstrução
do palácio de Assurnasirpal II, em Nimrud, na Mesopotâmia,
atualmente território do Iraque. O rei, que governou os assírios
há 2.800 anos, construiu um palácio
de quase 6.000 metros quadrados, descoberto
pelo arqueólogo inglês Austen Layard, em 1847.
Suas paredes
eram decoradas com baixos-relevos, que foram desmembrados e distribuídos
por vários museus e coleções particulares ao redor
do mundo. O arqueólogo americano Samuel Paley, da Universidade
de Buffalo, dedicou boa parte de sua carreira à análise
desses pedaços separadamente. Em 1998, associou-se a Sanders e
começou a reconstrução virtual. Só assim é
possível reunir todas as peças e visualizar como era o palácio
em seu esplendor. Já foram recriados o pátio principal,
a sala do trono e dois ambientes adjacentes. O Coliseu virtual custou
até 25.000 dólares (apenas a
primeira fase de um total de três está pronta), e para todo
o Fórum Romano, um complexo de 35 edifícios e monumentos
que inclui o Senado, serão 300.000 dólares.
Os quatro ambientes do palácio assírio consumiram, até
agora, 50.000 dólares seriam
necessários mais 300.000 para refazer
todo o complexo no computador. Os projetos têm sido possíveis
graças à ajuda de grandes patrocinadores. A Intel, o maior
fabricante mundial de microprocessadores, doou 150.000
dólares à Ucla para que ela criasse o laboratório
de reconstrução virtual. Em troca, utilizou as imagens da
Santa Maria Maior virtual para testar a capacidade de processamento de
imagens de seu produto mais novo, o Pentium 4. A Microsoft pagou para
usar o Coliseu em sua enciclopédia em CD-ROM. "É um toma-lá-dá-cá",
define Frischer. "Nós fazemos o que nos interessa; eles usam do
jeito que querem."
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