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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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Como era há 2 000 anos

Arqueólogos usam realidade virtual
para reconstruir monumentos
históricos em ruínas

Natasha Madov

 
Fotos Courtesy Cultural Virtual Reality Lab/UCLA
COMO FICOU O COLISEU
A reconstrução revelou corredores estreitos e escuros. As ruínas atuais foram a base do modelo virtual (fotos)


Veja também
Uma galeria de imagens que mostra a reconstrução em 3D de monumentos famosos
Da internet
Site do Laboratório de Realidade Virtual da Ucla

O Coliseu, anfiteatro construído em Roma há dois milênios, é uma maravilha arquitetônica. Nos dias de jogos, acomodava em suas arquibancadas 50.000 espectadores, o mesmo que um moderno estádio de futebol. Os historiadores sempre acreditaram que toda essa gente podia deixar a construção em apenas dez minutos, tal a engenhosidade dos arquitetos romanos. Ou não poderia? A recriação do Coliseu no laboratório de realidade virtual da Universidade da Califórnia (Ucla), em Los Angeles, demonstrou que o projeto arquitetônico não tinha a eficiência de uma moderna estação de metrô, como se imaginava. No térreo, que dava acesso aos melhores lugares do anfiteatro, os vestíbulos eram espaçosos e bem iluminados. Nos andares superiores, ao contrário, a plebe tinha de se espremer em corredores estreitos e escuros para chegar às arquibancadas. No fim dos espetáculos, a saída do público na certa era tumultuada e lenta.

O modelo em três dimensões do Coliseu, que possibilita uma caminhada virtual por suas galerias e pelos subterrâneos, é parte de um megaprojeto que está recriando em computador os principais monumentos romanos. Esse tipo de reconstrução é uma revolução na arqueologia, pois permite tirar dúvidas sobre verdades estabelecidas, mas jamais comprovadas. Para as recriações, arqueólogos, arquitetos e técnicos de computação trabalham com plantas e desenhos antigos, fotografias e registros históricos, além de visitar os locais para fazer medições. O programa 3D também leva em conta o material utilizado e as leis da física. Foi assim que se descobriu que os três andares superiores do Coliseu eram mais estreitos que o térreo. A arena oval, onde se realizavam combates de gladiadores, foi construída entre os anos 70 e 80 pelos imperadores Vespasiano e Tito. Terremotos e depredações (os mármores de seu revestimento foram reaproveitados nas igrejas do Vaticano) destruíram a maior parte do prédio. Mas um bom pedaço da fachada sobreviveu.

 
Valdemir Cunha

O RENASCIMENTO DO FÓRUM ROMANO
O Senado romano (acima, à esq.) era escuro, abafado e tinha péssima acústica. O prédio fazia parte do Fórum (acima), do qual só restam umas poucas colunas (ao lado)

A reconstrução do Fórum, centro da vida política no Império Romano, também trouxe revelações surpreendentes. No edifício do Senado, que faz parte do conjunto, foram pronunciadas peças de retórica até hoje estudadas nas universidades. A realidade virtual sugere que o salão em que se reuniam os senadores era escuro, abafado e com péssima acústica. "Tudo isso poderia ter sido questionado antes", diz Bernard Frischer, diretor do Laboratório de Realidade Virtual Cultural da Ucla. "Mas só após colocar os monumentos em realidade virtual e passear por eles é que foi possível perceber esse tipo de detalhe." O laboratório também já recriou a Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, à época de sua construção, em 440, e atualmente trabalha no projeto original da Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha, que é de 1078.

A reconstrução de sítios arqueológicos no computador só se tornou possível nos últimos cinco anos, com o barateamento de tecnologias de processamento de imagens. As possibilidades são espetaculares. Os pesquisadores podem recriar palácios e monumentos dos quais só restam amontoados de pedras. "Fragmentos não contam muitas histórias", diz o americano Donald Sanders, presidente da Learning Sites, empresa especializada em reconstruções virtuais de sítios arqueológicos. "Os arqueólogos não conseguem, a partir deles, compreender completamente o espaço e como as pessoas viviam ali. Com a construção virtual, é possível entender melhor o cotidiano delas." As recriações virtuais da Learning Sites vão de casas na Grécia antiga a templos egípcios. Mas seu carro-chefe é a reconstrução do palácio de Assurnasirpal II, em Nimrud, na Mesopotâmia, atualmente território do Iraque. O rei, que governou os assírios há 2.800 anos, construiu um palácio de quase 6.000 metros quadrados, descoberto pelo arqueólogo inglês Austen Layard, em 1847.

Suas paredes eram decoradas com baixos-relevos, que foram desmembrados e distribuídos por vários museus e coleções particulares ao redor do mundo. O arqueólogo americano Samuel Paley, da Universidade de Buffalo, dedicou boa parte de sua carreira à análise desses pedaços separadamente. Em 1998, associou-se a Sanders e começou a reconstrução virtual. Só assim é possível reunir todas as peças e visualizar como era o palácio em seu esplendor. Já foram recriados o pátio principal, a sala do trono e dois ambientes adjacentes. O Coliseu virtual custou até 25.000 dólares (apenas a primeira fase de um total de três está pronta), e para todo o Fórum Romano, um complexo de 35 edifícios e monumentos que inclui o Senado, serão 300.000 dólares. Os quatro ambientes do palácio assírio consumiram, até agora, 50.000 dólares – seriam necessários mais 300.000 para refazer todo o complexo no computador. Os projetos têm sido possíveis graças à ajuda de grandes patrocinadores. A Intel, o maior fabricante mundial de microprocessadores, doou 150.000 dólares à Ucla para que ela criasse o laboratório de reconstrução virtual. Em troca, utilizou as imagens da Santa Maria Maior virtual para testar a capacidade de processamento de imagens de seu produto mais novo, o Pentium 4. A Microsoft pagou para usar o Coliseu em sua enciclopédia em CD-ROM. "É um toma-lá-dá-cá", define Frischer. "Nós fazemos o que nos interessa; eles usam do jeito que querem."

 

   
 
   
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