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Edição 1 751 - 15 de maio de 2002
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Banqueiro tem razão

"Vou abrir conta nos bancos estrangeiros que recomendaram a seus clientes que diminuíssem os investimentos no Brasil. Quero que eles cuidem do meu dinheiro. Quero que me deixem rico"

Vou abrir uma conta no ABN Amro. Ou no Santander. Ou num dos outros bancos estrangeiros que, diante do crescimento de Lula nas pesquisas eleitorais, apostaram contra o Brasil, recomendando a seus clientes que diminuíssem os investimentos no país. Quero que eles cuidem do meu dinheiro. Quero que me deixem rico. Quem ouviu seus conselhos só se deu bem nos últimos tempos. De fato, logo depois que eles lançaram o alerta sobre o Brasil, apareceu a notícia envolvendo as estripulias financeiras do ex-arrecadador de fundos de José Serra, e o resultado foi exatamente o que haviam previsto: a bolsa de valores caiu, o real se desvalorizou, o C-Bond foi para o espaço e o risco-país encostou no do Equador.

Até aquele momento, os bancos estrangeiros tinham sofrido verdadeiro massacre, com ataques provenientes de todos os lados. Lula os acusou de dar início a uma "onda de terrorismo". ACM disse que se tratava de uma "grande bobagem". Malan os definiu "precipitados". Serra falou em "equívoco". Um diretor da Cepal afirmou que eles eram "primários". Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central na época da ditadura, julgou-os "despreparados", acrescentando que "a capacidade de cometer erros desses bancos é ilimitada". Vendo as coisas agora, depois de tudo o que aconteceu durante a semana, quem se mostrou primário e despreparado foram os que esnobaram os bancos estrangeiros e mantiveram os investimentos no Brasil.

Dizem que a classe média tem medo de Lula porque ele é ignorante. Seria ótimo se fosse verdade. Mas o fato é que os investidores nunca se importaram com os conhecimentos gramaticais dos candidatos. Os Estados Unidos, por exemplo, elegeram um presidente reconhecidamente ignorante. O primeiro-ministro da Itália também é ignorante, apesar de ser um dos homens mais ricos do mundo. Ninguém liga para isso, porque o que os investidores querem é lucro. Nada de pessoal. Na mesma semana em que os bancos estrangeiros desaconselharam os investimentos no Brasil, o J.P. Morgan alertou contra a indústria americana de semicondutores e todos os bancos europeus sugeriram fugir dos títulos da Fiat.

Existe um problema político, porém. Os bancos estrangeiros desconfiam de FHC, Malan, Fraga e Serra, tanto que nos cobram juros de agiota. Mas desconfiam ainda mais do PT. Para entender o motivo dessa desconfiança, basta ouvir o assessor econômico de Lula, Guido Mantega. Ao comentar as advertências dos analistas estrangeiros contra um eventual governo petista, ele reclamou que esses bancos "não se importam se o povo está passando fome ou está desempregado. O que interessa é que o Brasil pague os juros". Por que o Morgan Stanley ou o Merryll Lynch deveriam preocupar-se com a fome e o desemprego? Não é o papel deles. Sua função é ajudar os clientes a investir corretamente e a lucrar com isso. Eu jamais compraria títulos da Lituânia se soubesse que o país criaria dificuldades na hora de pagar os juros. Você também não. Mantega também não.

Eu, como escritor, ficaria feliz e esperançoso se as pessoas tivessem medo de Lula por causa de seus erros gramaticais. Não é assim. Infelizmente, a gramática não conta nada. O PT só dá medo porque acha que banco não precisa ganhar dinheiro.

 
 
   
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