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"A concorrência resistiu e baixou seus preços para nos tirar do mercado. Baixamos os nossos mais ainda" |
A indústria de aviação é um negócio cheio de problemas em todo o mundo. Nos Estados Unidos, só no ano passado, o setor perdeu 7,2 bilhões de dólares, estacionou 10% de suas naves e demitiu dezenas de milhares de funcionários. O céu parece estar azul para pouquíssimas empresas, entre elas a JetBlue Airways, com sede no aeroporto JFK, em Nova York, que decolou seu primeiro avião em fevereiro de 2000. Hoje a companhia tem 27 jatos Airbus A320, todos idênticos, e um lema: cobrar sempre a metade do que cobram as concorrentes. Uma passagem de ida de Nova York a Los Angeles custa 194 dólares na JetBlue. Uma busca no site Expedia, o mais utilizado pelos viajantes aéreos nos Estados Unidos, revelou que o preço cobrado por outras companhias pelo mesmo trecho variava de 269 a 605 dólares. No mês passado, a JetBlue deu um passo formidável e em geral arriscado. Ela abriu o capital na Bolsa de Valores de Nova York. Foi um sucesso. As ações galoparam 67% logo no primeiro dia, um recorde em Wall Street desde o estouro da bolha de internet em 2000. Os méritos foram todos para David Neeleman, 42 anos, fundador e principal executivo da JetBlue. Filho de missionários mórmons, Neeleman nasceu no Brasil, onde viveu até os 5 anos. Seguindo os passos do pai, voltou ao país aos 19 anos, para ser missionário no Nordeste, onde viveu mais dois anos. Ainda fala um bom português. Casado, é pai de nove filhos. De seu escritório em Nova York, Neeleman falou a VEJA.
Veja Por que as empresas aéreas geram tantas queixas?
Neeleman
Os
passageiros querem ser tratados como clientes e não como carga.
É um princípio que parece simples, mas tem sido bastante
esquecido pelo setor de aviação. Obviamente, clientes esperam
que os vôos decolem na hora. Quando isso não acontece, eles
desejam saber a verdadeira razão do atraso. Não querem ser
tratados como se não pudessem saber a verdade. As queixas derivam
dessa situação de abandono em que as companhias costumam
deixar os passageiros. Na JetBlue essa atitude é considerada uma
falta gravíssima.
Veja A indústria aérea fala em crise desde
o fim da II Guerra Mundial. Afinal, esse negócio é viável?
Neeleman
O setor opera há cinqüenta anos de uma determinada forma.
As empresas querem ser um pouco de tudo. Tentam servir a todos e vencer
em qualquer segmento de mercado. Querem operar em todas as rotas. Por
isso, são obrigadas a possuir e manter diferentes tipos de avião.
Ora, é isso que as torna ineficientes. A conseqüência
imediata é que elas são obrigadas a cobrar mais pelas passagens
aéreas. Como nem todo mundo aceita pagar preços altos para
voar elas perdem passageiros. Ou fazem diferenciações absurdas
de tarifas. Há uma enorme disparidade entre a passagem mais cara
e a mais barata. Isso gera indignação. Os passageiros sentem
que estão pagando mais do que deveriam.
Veja A JetBlue foi obrigada a adiar a abertura de capital
na bolsa, marcada para o segundo semestre do ano passado, por causa dos
ataques de 11 de setembro. Desde então, como a empresa lida com
o medo de voar que tomou conta de grande parte dos passageiros?
Neeleman
Segurança passou a ser assunto do presidente da empresa. Nossa
primeira preocupação foi impedir que uma pessoa qualquer
conseguisse entrar na cabine do piloto. Fomos a primeira companhia aérea
americana a instalar portas blindadas à prova de bala. Fizemos
uma ampla divulgação dessa iniciativa, avisamos que seríamos
muito rigorosos nas revistas e na identificação dos passageiros.
Foi uma forma de desincentivar pessoas com más intenções
de embarcar em nossos aviões. Instalamos câmaras nas cabines
de passageiros. Elas projetam imagens numa tela dentro da cabine de controle
e, dessa forma, os pilotos podem monitorar todo o avião. Pelo movimento
nas nossas aeronaves, ficou claro que as pessoas gostaram da nossa reação
rápida.
Veja O senhor imagina que de agora em diante toda companhia
aérea vai ter de se igualar à israelense El Al, dona do
melhor esquema de segurança aérea do mundo?
Neeleman
Não totalmente. Mas, com certeza, temos de copiar muitos de seus
hábitos de segurança. Obviamente a El Al enfrenta desafios
mais difíceis que os nossos, mas a tendência é que
todas as companhias nunca mais rebaixem a prioridade da segurança
em suas operações.
Veja Não é um exagero quando se pede para senhoras
idosas que vão passar as férias na Flórida, ou até
para tripulantes, que tirem os sapatos e tenham sua bagagem de mão
inspecionada como condição para embarcar?
Neeleman
Sem dúvida, ainda há ineficiência no sistema de segurança.
Estamos examinando pessoas que não precisam ser examinadas e incomodando
muita gente. Mas há uma série de medidas a ser implementadas
no longo prazo. Uma delas seria, por exemplo, um "cartão de confiança"
para cada passageiro ou um banco de dados no aeroporto com nomes de indivíduos
suspeitos.
Veja Um dos pontos fracos das companhias aéreas é
a flutuação do setor de petróleo. Como lidar com
isso?
Neeleman
No nosso caso fazemos operações financeiras que nos compensam
quando o preço do combustível sobe. São operações
com os chamados derivativos. O que a JetBlue faz mais que qualquer outra
companhia é ter as aeronaves mais eficientes em termos de combustível
no ano passado, apenas 14% dos nossos gastos foram em combustível,
um consumo baixíssimo em comparação com a média
do setor. Assim, o aumento no preço do combustível nos afeta
proporcionalmente menos que a qualquer outra empresa. Além disso,
usamos mais tecnologia e fazemos com que nossos aviões voem mais
horas por dia. Dessa forma, oferecemos mais por menos. Em vez de servir
todas as cidades, todas as pessoas, com todos os tipos de avião,
somos mais eficientes e podemos baixar os preços, porque nossos
custos são menores. E podemos ganhar mais dinheiro que eles, cobrando
menos por passagem. Isso pode parecer estranho, mas é possível
quando se tem 40% a menos de custo.
Veja Será que essa fórmula é aplicável
ao Brasil, onde combustível, impostos e manutenção
são muito mais caros?
Neeleman
Sim, é possível fazer isso no Brasil e é importante
que se faça, para que a aviação seja aberta para
todo o país, em vez de servir apenas à elite. A mão-de-obra
no Brasil é bem mais barata que a daqui. Acho que a companhia Gol,
apesar de ser nova, tem feito um bom trabalho em seguir um modelo de eficiência,
além de ter um bom capital por trás, por pertencer a uma
companhia de ônibus.
Veja Quando a recessão econômica apertou o
bolso dos executivos, eles passaram a preferir ainda mais sua empresa.
Agora que a economia voltou a crescer, eles a abandonaram?
Neeleman
Não. Nós cuidamos bem deles. Decolamos na hora, somos a
única companhia aérea que oferece uma televisão para
cada passageiro, o espaço para as pernas é acima da média
e, principalmente, oferecemos uma freqüência maior de vôos.
Executivos gostam de ter vários vôos disponíveis.
Veja A JetBlue fez talvez a mais bem-sucedida abertura de
capital da história recente dos Estados Unidos. O que isso sinaliza?
Neeleman
O mercado está dizendo que concorda com nosso modelo de oferecer
o melhor serviço de classe econômica pelo melhor preço.
Sinaliza também que o mercado acha difícil que outras empresas
possam copiar nossa maneira de voar. Elas têm um custo alto, são
ineficientes, têm diferentes tipos de avião e, por isso,
não podem oferecer preços convidativos.
Veja As companhias aéreas americanas gigantescas e
tradicionais permitiram que a JetBlue decolasse sem nenhuma resistência?
Neeleman
Não. Elas tentaram baixar os preços e nos tirar do mercado.
Veja E como vocês resistiram?
Neeleman
Baixando mais. Estamos conseguindo manter o preço das nossas passagens
na metade do cobrado pela concorrência. Isso mantendo nosso produto
sempre melhor que o delas. Quando você tem a oferecer serviço
e preço é difícil perder a clientela. Nosso segredo
é ganhar dinheiro cobrando preços baixos.
Veja Como o senhor explica que a britânica Virgin Atlantic
faça tanto sucesso com um modelo totalmente oposto ao seu?
Neeleman
Na verdade, pegamos algumas idéias da Virgin, como colocar entretenimento
em cada poltrona do avião. A companhia britânica tem feito
um grande negócio na rota transatlântica. Muita gente diz
que a JetBlue é um cruzamento entre a Southwest Airlines, que é
lucrativa e voa com baixos custos, e a Virgin. Essa é uma definição
que me agrada muito. Nossas aeromoças usam o uniforme mais elegante
possível. Nossos pilotos são afáveis e cordiais.
Enfim, nada na JetBlue lembra uma companhia que oferece tantos descontos.
Veja O modelo da JetBlue funcionaria numa companhia maior?
Em outras palavras, se vocês crescerem, a mágica continuará
dando certo?
Neeleman
Acho que sim. Teremos 34 aviões no fim deste ano e 48 no fim do
ano que vem. Estamos comprando, em média, um avião por mês.
Isso é uma grande expansão, mas temos certeza de que manteremos
nossa atuação apenas no mercado doméstico.
Veja O senhor é um dos mais famosos portadores da
SDA, a "Síndrome de Déficit de Atenção", do
país. Como lidar com essa condição que o acompanha
desde a infância?
Neeleman
É
algo com que aprendi a conviver. Faz com que eu seja criativo. Acho que
até gosto. A SDA não é propriamente ruim. Ela faz
com que você tenha bastante dificuldade de se concentrar em algo
que não lhe interesse. Alguém pode estar falando com você
sobre um assunto e você estar pensando em outro. Mais uma característica
dos portadores de SDA é que, depois de obter muito sucesso numa
atividade qualquer, continuamos insatisfeitos, com constante sensação
de dever não cumprido. Quando essa coisa se degenera, a pessoa
pode recorrer ao álcool ou às drogas numa proporção
maior do que as pessoas normais. Nem refrigerante eu bebo. O lado positivo
da SDA é que, uma vez que encontramos algo que nos interessa, temos
a habilidade de hiperconcentração quando isso acontece,
tudo em volta se torna insignificante.
Veja A sua religião ainda teve ou tem alguma influência
na sua vida e no seu trabalho?
Neeleman
Muita. Quando estive no Brasil como missionário, aprendi belos
princípios. Trabalhei em favelas com gente simples e maravilhosa
que mudou minha vida. Acreditamos que as relações que temos
com a família, amigos e empregados são importantes, pois
elas continuarão depois desta vida. Então devemos aprender
a focar nas relações com as pessoas que nos cercam, em vez
de pensar apenas em ganhar dinheiro.
Veja Como foi sua experiência como missionário
mórmon no Brasil?
Neeleman
O Brasil é um país excelente para um missionário.
Estive em Recife, João Pessoa e Campina Grande. Quando ensinamos
religião, não são os ricos que nos escutam. São
as pessoas simples e carentes. Trabalhei numa favela onde todos eram muito
receptivos, pois lhes passávamos mensagens de esperança.
Lá, uma pequena casa abrigava nossa igreja os freqüentadores
eram mulheres e crianças que mal tinham o que vestir e calçar.
Quando voltei lá uma geração mais tarde, muitas crianças
tinham se transformado em missionários. No lugar da pequena casa,
foi construído um templo de 3 ou 4 milhões de dólares.
Boa parte do dinheiro veio dos Estados Unidos. A igreja empresta dinheiro
para pagar os estudos dos fiéis. É incrível como
tudo mudou numa única geração. Calculo que a comunidade
brasileira de mórmons seja de uns 200.000 ou 250.000 fiéis.
E o que impressiona é que metade dos missionários no Brasil
são brasileiros.
Veja O senhor ainda tem ligações fortes com
o Brasil?
Neeleman
Sim.
Falo português em todas as oportunidades que aparecem (em português).
Não tenho vocabulário para falar sobre aviões, mas
posso falar sobre religião e conversar. Nasci lá, sou brasileiro.
Saí de lá aos 5 anos e voltei aos 19. Quando eu contava
aos amigos brasileiros que o nome da minha namorada, hoje minha mulher,
era Vicky, brincavam que ela era a Vicky-Vaporub. O Brasil é muito
bom. Agora ando muito ocupado, mas vou visitar o país novamente.
Ainda tenho muitos amigos lá e quase comprei uma casa de um deles
em Parati. Mas ele acabou vendendo antes de saber que eu queria. O objetivo
era ir uma vez por ano com a família.
Veja Família no seu caso significa uma ninhada de
nove, que vai de 3 a 20 anos de idade. Como é a sua rotina com
essa criançada em casa? Algum plano de expansão nessa área
também?
Neeleman
Ainda não. Mas a minha esposa quer mais um bebê. Entre a
minha família, a minha igreja, as horas em que leio a Bíblia
em casa e o meu trabalho, não sobra tempo para nada. Vou à
igreja todos os domingos e passo todos os fins de semana com a família.
Nada de trabalho. Desfruto os dois dias com a minha família.
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