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Sérgio
Abranches
Renda
esquiva
"Está
aí um bom projeto para os
candidatos. Dar recursos ao IBGE
para descobrir os caminhos de
nossa renda perdida"
Ilustração Ale Setti
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Todo censo traz notícias boas e más. O que importa é
o saldo. Nosso censo mostra um resultado muito positivo. Já escrevi
aqui sobre mudanças que esses dados evidenciam e que já
se haviam revelado nas tabulações preliminares dos próprios
autores do levantamento, bem como em outros trabalhos. As mais importantes
foram observadas na saúde e na educação. Quando se
fala nelas, surge sempre alguma dose de rejeição. Para certos
setores da sociedade brasileira, parece proibido falar que alguma coisa
vai bem no país. Mas, independentemente do volume ainda inaceitavelmente
elevado de pobreza, deve-se comemorar a queda da mortalidade infantil.
Ela indica melhoras nas condições gerais de vida. Para que
caia, é necessário que melhorem as condições
de salubridade, nutrição e higidez da população
mais pobre. Também são alvissareiras a generalização
do acesso ao ensino e a redução do analfabetismo, ainda
que haja muitas deficiências e desequilíbrios de qualidade.
Há o que melhorar? Há, muito. Mas é certo que avançamos
muito também.
A questão da desigualdade provoca reações igualmente
nervosas. Quando chamo a atenção para o fato de ela ser
durável, isso não tem a ver com política econômica
nem com política social stricto sensu. Tem a ver com a discriminação
racial, que impõe barreiras à ascensão dos negros
e perpetua a distância entre eles e os brancos. Uma parte menor
do fenômeno é explicada pela discriminação
de gênero, que mantém diferenças significativas de
renda entre homens e mulheres. A justaposição das duas,
de etnia e gênero, produz o maior viés negativo na renda,
colocando na ponta inferior da distribuição uma maioria
de mulheres negras e, por isso, muito pobres. Há setores da sociedade
brasileira que se recusam a aceitar esse componente não-econômico
na determinação das desigualdades econômicas.
Agora, o presidente Fernando Henrique levantou outra polêmica. Não
importa se com o intuito de salvar a imagem das mudanças ocorridas
em sua administração. Disse haver inconsistência entre
os dados de renda do país revelados pelo censo e o crescimento
do consumo e a elevação de componentes do bem-estar, historicamente
associados à melhoria da renda. E há mesmo. Ele falou como
presidente, com argumentos de sociólogo. Política à
parte, chamou a atenção, corretamente, para algo evidente
para muitos observadores isentos da cena socioeconômica brasileira.
Há pouca renda declarada no Brasil para a magnitude de nosso mercado
de consumo, ainda se admitindo que os mais ricos consumam em excesso e
os mais pobres em volume ainda insuficiente a maioria dos bens e serviços.
Não é falha do censo nem sinal de ineficiência do
IBGE, muito menos um problema exclusivamente brasileiro. Em muitos países,
é difícil mesmo captar com precisão a renda dos mais
ricos que não recebem salário e a dos mais
pobres a maioria na informalidade. Sobretudo, a renda dos pobres
se forma de maneira às vezes tão esquiva aos instrumentos
convencionais que para apreendê-la pode ser necessária pesquisa
detalhada e específica, que transcende o objetivo censitário.
Só dessa forma seria possível flagrar a renda real auferida
pelas pessoas e famílias no Brasil, por todos os meios, e fazer
a consistência entre o consumo efetivo de bens e serviços,
determinado por sua posse ou usufruto de fato, e o poder de compra, determinado
pela renda total per capita e por domicílio.
Foi o que a Inglaterra fez nos anos 70. O governo encomendou a um grupo
de sociólogos extensa e completa investigação sobre
os padrões de vida no Reino Unido, para definir, com mais precisão,
a linha de pobreza, destinada a orientar as políticas sociais.
O monumental trabalho, liderado pelo sociólogo Peter Townsend,
foi um divisor de águas não apenas nas visões sobre
a pobreza naquele país, mas também sobre as formas de obtenção
de renda nos estratos mais baixos da sociedade e as maneiras mais adequadas
de medir renda, acesso ao mercado de consumo e padrões de vida.
Controvérsias, dúvidas e polêmicas sobre questões
tão vitais não se resolvem com bate-boca, menos ainda com
preconceitos ideológicos ou politizando o tema. O único
caminho para resolvê-las é adquirir mais conhecimento e gerar
mais dados e informações disponíveis, para serem
analisados com objetividade, definindo um patamar superior de entendimento
dessas questões. Está aí um bom projeto para os candidatos
a presidente pensarem para seu futuro governo. Dar recursos ao IBGE para,
com o auxílio da comunidade científica brasileira, descobrir
os reais caminhos de nossa renda perdida.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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