Sonho de gatinha

Testes de seleção para novas Chiquititas
atraem multidões de crianças pelo país

Ricardo Valladares

Foto: Liane Neves Foto: Claudio Rossi
Fila de candidatas na porta dos estúdios do SBT, em São Paulo e os últimos retoques na maquiagem para enfrentar as câmeras: as meninas escolhidas podem mudar-se para Buenos Aires, com direito a moradia, mordomias diversas e salário de 5.000 reais por mês. As inscrições passam de 5.000 nomes

Que Barbie, que nada. Atualmente, o sonho das meninas brasileiras na faixa dos 6 aos 12 anos é ser uma Chiquitita. Para muitas delas, esse sonho está prestes a se tornar realidade. Desde a semana passada, o SBT vem selecionando crianças para o elenco de Chiquititas, o programa infantil de maior sucesso na TV (6 milhões de espectadores em todo o país, de segunda a sábado, em pleno horário do Jornal Nacional). O número de inscrições é espantoso. Até a próxima sexta-feira, 1.080 crianças terão passado por testes nos estúdios do SBT, em São Paulo. Outros 4.000 testes já foram enviados em vídeo por agências de modelos e de elenco de todo o país. Só de Porto Alegre vieram 900. Segundo a Telefé, emissora argentina que produz a novela em Buenos Aires — com crianças brasileiras — e o vende ao SBT por 60.000 reais o capítulo, a intenção é formar um banco de reservas. As crianças selecionadas serão usadas em futuros personagens ou substituirão aquelas que atualmente fazem parte do elenco.

Uma vez recrutada para a ativa, a criança passa a residir em Buenos Aires, com direito a moradia, mordomias e salário de 5.000 reais por mês. Os meninos também se têm candidatado para os personagens masculinos da novela. Mais de 80% das inscrições, porém, são de meninas. Há gente que viaja muitas horas e não se importa em madrugar numa fila, na porta do SBT, para conseguir sua inscrição. A comerciante Graziela Gariba percorreu 320 quilômetros, saindo de Ribeirão Preto, com esse objetivo. Sua filha Pink, de 8 anos, já gravou dois CDs domésticos de música dance. "Ela até já tem nome artístico", acha Graziela. A operadora de computadores Flor Tesch tomou um ônibus em Curitiba na semana passada para inscrever sua filha nos testes. Pensou que levar suas fotografias seria suficiente. Informada de que a menina deveria comparecer ao vivo, retornou a Curitiba, pegou a menina, dirigiu-se novamente à rodoviária e às 2 da madrugada estava de volta ao SBT. De manhã, quando as portas da emissora se abriram, era a segunda candidata na fila.

O teste realizado pelo SBT é gratuito e leva de dois a quatro minutos. A criança é entrevistada por um diretor de TV, sem script previamente combinado. "Como ela não sabe o que lhe será pedido, não perde a espontaneidade nem carrega os vícios impostos pelas mães", diz Roberto Monteiro, produtor de Chiquititas. As perguntas são sempre relacionadas ao universo infantil. Se a criança diz saber cantar, dançar ou fazer alguma atividade específica, é requisitada a mostrar essas habilidades. Ao final, recebe uma nota: A, B ou C. Com nota A, a candidata tem boas possibilidades de chegar ao banco de reservas. Com B, poderá ter uma chance, principalmente se tiver algum talento especial, como tocar um instrumento. "A criança pode não ter ido muito bem no teste, mas, se ela souber cantar samba e no roteiro da trama aparecer um pagodeiro, será aproveitada", afirma Monteiro. Nos testes feitos para o elenco inicial de Chiquititas, no primeiro semestre do ano passado, inscreveram-se 1.700 crianças. Dessas, 162 tiraram nota A. Os produtores argentinos, que dão a última palavra na escolha dos candidatos, reduziram a turma a 66 finalistas, dos quais saíram os atores que hoje estão no ar.

Amparada no conceito de que as crianças gostam de se enxergar no vídeo da forma como são na vida real, a novela Chiquititas é um sucesso que já dura oito meses. Como era de esperar, vem invadindo também o quarto de brinquedos e o guarda-roupa, através do licenciamento da marca. O segundo CD das garotas vendeu 800.000 cópias em apenas vinte dias, um estouro que não se via desde os Mamonas Assassinas. Muitas lojas infantis também já exibem na vitrine vestidos iguais aos das Chiquititas — nenhum deles, porém, é licenciado pelos donos da marca. Entre os itens "oficiais", a boneca Mili, com o rosto da personagem vivida na história por Fernanda Souza, é um dos mais cobiçados: vendeu 51.000 peças em apenas um mês (veja quadro abaixo). Para ter uma idéia do que isso significa, a boneca da Angélica, produzida pelo mesmo fabricante, a Baby Brink, deverá vender neste ano 40.000 peças. "Esperamos vender 1 milhão de Mili em dois anos", declara o diretor comercial da empresa, Aldir Queixas. Na Argentina, onde a versão local do seriado já está em seu quarto ano, há mais de uma dezena de objetos com o nome ou a estampa do grupo. Pelo visto, também no Brasil a febre Chiquititas promete durar um bom tempo.

Feito pão quente

No rastro do programa de TV, os brinquedos, discos e bugigangas com a imagem das Chiquititas se tornaram mania entre a garotada. Além do sucesso da boneca com a cara da personagem Mili, os dois CDs com músicas da série são um fenômeno — já venderam até agora, em conjunto, 2,1 milhões de cópias. A revista da turma e o álbum de figurinhas têm, cada um, tiragem de 120.000 exemplares. Os pais que preparem seus bolsos: outros produtos vêm por aí.




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