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Edição 2108

15 de abril de 2009
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Cultura
LOUCOS PELO APOCALIPSE

Filmes como Presságio vão bem por uma razão
simples: a humanidade nunca se cansa de assistir
ao espetáculo da própria destruição


Isabela Boscov

O INÍCIO DO FIM Cage testemunha um acidente profetizado: é da natureza humana gostar de ler "sinais" que os outros não sabem enxergar


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Presságio (Knowing, Estados Unidos, 2009), desde sexta-feira em cartaz no país, narra uma história repleta de elementos familiares. Durante um transe, uma menina recebe uma espécie de comunicação, na forma de uma longa sequência de números. Muitos anos mais tarde, por caminhos misteriosos, a folha de papel com os números cai nas mãos de um sábio – no caso, um astrofísico, interpretado por Nicolas Cage –, que entende a sequência como uma profecia, atesta sua veracidade e procura então alterar seu curso. Em vão: os acontecimentos vaticinados pela criança estão muito além do alcance da intervenção humana (sem querer contar demais, eles envolvem fogo, muito fogo). Mas estão em alguma medida sujeitos à interferência de criaturas que, embora tenham forma humana, claramente não são humanas. Poderiam por exemplo ser chamadas de anjos, e sua missão é, até onde se depreende, identificar alguns eleitos que deverão sobreviver à calamidade. Presságio tem feito ótima bilheteria nos Estados Unidos, em parte porque é um suspense eficaz (veja crítica) e de outra parte, pode-se especular, porque há alguns milhares de anos seu enredo nunca deixa de ao mesmo tempo aterrorizar e fascinar a humanidade: o enredo de sua própria aniquilação.

Todas as quatro grandes religiões monoteístas nascidas no Oriente Médio – o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e o zoroastrismo – contêm narrativas, por assim dizer, acerca do fim dos tempos. Não é de admirar, então, que o mito do fim dos dias esteja tão enraizado na imaginação de uma parte significativa da humanidade, e em particular na que está sob influência do cristianismo: Jesus foi o que se chama de um profeta escatológico – ou seja, que anunciava o fim dos tempos –, e a ideia de que haverá um dia de acerto de contas, em que os que pertencem a Deus serão recompensados e os maus, punidos, está na base da religião por ele iniciada. Mais: de todas as religiões, antigas e novas, que imaginam esse fim, nenhuma o relata com tanto detalhe e especificidade quanto o cristianismo, por meio do Apocalipse de João, o chamado livro das Revelações.

Fotos Divulgação
UMA HISTÓRIA QUE NÃO SAI DE MODA O Dilúvio, tela de 1840 do irlandês Francis Danby, e, no detalhe, Nova York à mercê de uma onda gigante em Impacto Profundo: da Bíblia ao cinema, um enredo que está em toda parte

O dado curioso é o prazer que o espetáculo da própria destruição é capaz de proporcionar aos homens e mulheres comuns, tenham eles alguma fé ou não. O cinema é pródigo na exploração desse prazer. Presságio, por exemplo, tem ótimas cenas de destruição em média escala (os "sinais" de que trata a profecia) e mais ainda na sua apoteose. Os arrepios que essas imagens provocam, contudo, são velhos conhecidos dos espectadores: eles os vêm sentindo com frequência desde que a ficção científica deu uma guinada para a paranoia, durante a Guerra Fria, e mais ainda desde que a evolução dos efeitos especiais propiciou a encenação realista de cenários apocalípticos – por bombardeios nucleares, como em O Dia Seguinte, por corpos celestes em rota de colisão com a Terra, como em Impacto Profundo, por invasores espaciais, como em Guerra dos Mundos, ou por água e gelo, como em O Dia Depois de Amanhã. Na esteira da mania recente pelo calendário maia, que se supõe predizer o fim do mundo para daqui a três anos, já está para ser lançado também 2012, que promete empolgantes cenas de cataclismos.

"É possível que nenhum outro século tenha sido tão obcecado pelo apocalipse quanto este nosso", diz o teólogo e colunista da Folha de S.Paulo Luiz Felipe Pondé. Não só porque o mito faz parte da cultura (até a doutrina marxista da ditadura do proletariado poderia ser interpretada como um apocalipse secular, brinca Pondé, já que da mesma forma que os apocalipses místicos ela promete a destruição de um mundo falho e o renascimento de um mundo melhor em seu lugar), mas porque nunca se produziram nem se divulgaram tantas cenas de horror apocalíptico quanto nos séculos XX e XXI. As montanhas de cadáveres nos campos de extermínio nazistas, o holocausto nuclear em Hiroshima e Nagasaki, os milhões de corpos mutilados em Ruanda, o massacre de crianças por terroristas chechenos em Beslan, o fogo e o desabamento das torres gêmeas, a chuva de bombas sobre famílias palestinas em Gaza – todas essas imagens tétricas, e outras como elas, são vistas, revistas e retrabalhadas em contextos diversos todo o tempo, de modo que é quase inevitável ter a sensação não só de que o fim do mundo já está em curso, como de certa forma fazemos por merecê-lo. Para Pondé, a ideia do apocalipse traz prazer porque, primeiro, implica o conhecimento dos seus sinais – "e é da natureza humana gostar de saber mais do que os outros", diz o teólogo, que vê na cobertura paranoica do aquecimento global indícios claros desse aspecto da obsessão apocalíptica. Depois, ele seduz por prometer a punição do mal – que agrada a todos que se acreditam do lado do bem. E, finalmente, porque traz dentro de si o anúncio de um recomeço mais puro.

Com tudo que a cultura atual se dedica a conjurar o apocalipse, entretanto, apenas uma obra de ficção contemporânea se interessou em imaginar como seria de fato esse recomeço. Na extraordinária série de ficção científica Battlestar Galactica (a nova, não a original fajutinha de 1978), todos os doze planetas em que vive a humanidade são pulverizados por bombas nucleares disparadas por seus inimigos – as máquinas que ela criou. Cerca de 50 000 pessoas sobrevivem em naves que estavam no espaço no momento da detonação. Essa é a nova humanidade; e, como a antiga, ela se engajará em limpezas étnicas, em governança ditatorial, em exploração da fé, em guerras civis, na sanção da vingança. No desfecho da série, exibido há poucas semanas nos Estados Unidos, compreende-se que a humanidade já atravessou vários reinícios – e em todos eles terminou rumando para sua quase extinção. Ou seja: o inferno talvez sejam os outros. Mas o apocalipse somos nós.

 

A CIÊNCIA DA FÉ

Divulgação
ASSIM ESTAVA ESCRITO Lara Robinson, como a pequena autora das profecias de Presságio: o diretor, surpresa, leu os Evangelhos

Durante uma aula na escola primária, em 1959, os alunos são convidados a desenhar suas visões do futuro e então guardá-las numa "cápsula do tempo", a ser reaberta cinquenta anos depois. Uma das meninas, em vez de desenhar robôs ou carros voadores, cobre uma folha de papel, frente e verso, com números aleatórios. Em 2009, quando o papel cai nas mãos do astrofísico John Koestler (Nicolas Cage), ele por acaso repara num trecho que não poderia deixar de intrigá-lo – 91101, ou 11 de setembro de 2001. O grupo seguinte de numerais também faz sentido: é 2996, o número de vítimas dos atentados daquele dia. A partir daí, Presságio, já em cartaz no país, embarca na febre do protagonista de descobrir que eventos estão expressos na sequência. São desastres aéreos, terremotos e atentados – e quase todos ocorreram nas décadas em que a profecia esteve sob a terra, exceto pelos três últimos, "marcados" para os próximos dias. Ora, que utilidade poderia ter uma previsão do passado? Presságio, que é menos bobo do que parece, sabe que, como está bem estabelecido por exemplo na interpretação dos Evangelhos, a função de um milagre não é chamar atenção para si: ele serve para revelar o divino e instigar a crença nele, de forma a que se atente para as coisas que serão ditas ou mostradas a seguir. À parte um entrecho tolo, que muito prejudica sua meia hora final, a trama é conduzida com pulso firme e encenação imaginativa pelo diretor Alex Proyas, de Eu, Robô. E, como curiosidade, o filme é talvez o mais versado dos exemplos recentes (e cada vez mais frequentes) do inusitado casamento que o cinema vem promovendo entre religião e ficção científica.

 


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