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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
A onda antiintelectual
"Deixar de lado os intelectuais não
é a solução.
Exigir que sejam mais realistas
e menos
dogmáticos é uma forma mais acertada
de resgatar a verdadeira função
deles"
Por que o PT odeia tanto o PSDB,
se ambos têm o mesmo ideário e adotam basicamente os
mesmos programas? Por que Lula rompeu com a ala intelectual de sociólogos,
filósofos, antropólogos, historiadores e economistas
de seu partido que lhe deram apoio total?
Quando Lula critica as elites,
ele se refere à elite intelectual, não à elite
empreendedora que ele admira. Quanto mais o PSDB batia na tecla
de que Lula não tinha diploma, mais ele subia nas pesquisas
eleitorais.
Tudo isso são sintomas
de um perigoso antiintelectualismo que cresce na América
Latina. A eleição de Hugo Chávez e Evo Morales
mostra o mesmo fenômeno. O povo latino-americano se cansou
do silêncio, da soberba e da incompetência de sua elite
intelectual, que pouco cria e só copia teorias como Inflation
Targeting, por exemplo.
Ilustração Ale Setti
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Essa onda antiintelectual não é resultado do obscurantismo
nem do populismo, como acham alguns. É resultado dos mirabolantes
planos elaborados às pressas por professores de fala difícil
que nunca pisaram num chão de fábrica (ao contrário
de Lula), que nunca ouvem ninguém e tanto sofrimento e confusão
trouxeram à nação. A classe média, normalmente
responsável pelo crescimento de uma nação,
foi alijada do poder por intelectuais de gabinete, e por isso ela
vota maciçamente no PT.
Na China, os intelectuais foram
ativamente perseguidos durante a famosa Revolução
Cultural. As universidades permaneceram fechadas por praticamente
dez anos, para o desespero deles. Hoje, o povo chinês acredita
que foi justamente isso que colocou o país no eixo. "Os intelectuais
foram obrigados a fazer algo que nunca fizeram, a trabalhar no campo
como nós", disse-me um porteiro de hotel em Beijing. "Os
líderes de hoje são justamente aqueles que por dez
anos não foram educados por intelectuais", comentou nosso
taxista em Xangai. A história do mundo está repleta
de "revoltas das massas", queimando livros e intelectuais.
Nos Estados Unidos, a intelligentsia
é malvista, como gente que somente usa o intelecto e nada
mais, que só critica e nada produz de prático ou pragmático.
Definir-se como "intelectual",
como muitos fazem, é visto como uma atitude elitista e arrogante.
Afinal, todo ser humano, por mais humilde que seja, tem de usar
o intelecto para desempenhar sua função, desde o porteiro
do prédio até o motorista do ônibus escolar
de seu filho.
Essa é a verdadeira questão
por trás da atual crise do PSDB. Desde 2004, há uma
divisão declarada no partido entre "os que trabalham e os
que escrevem artigos de jornal", como disse em público um
de seus mais destacados membros do baixo clero.
Quais as conseqüências
práticas de tudo isso?
Em primeiro lugar, a América
Latina não está dando uma guinada para a esquerda,
como acreditam alguns, mas uma perigosa guinada contra a intelligentsia
nacional, ou seja, justamente o contrário. É o feitiço
virando contra o feiticeiro, o que tantas vezes ocorre na história,
a começar pela Revolução Francesa.
Em segundo, os investidores internacionais
percebem que não correm perigo na América Latina,
tanto que o risco Brasil nunca esteve tão baixo, justamente
porque eles acreditam que Lula não fará loucuras em
seu segundo mandato presidencial, se for reeleito. Eles têm
certeza de que ele não usará teorias heterodoxas nunca
antes testadas, e sim o bom senso, na medida do possível.
O antiintelectualismo é
perigoso porque poderá facilmente se transformar num movimento
contra a classe média, contra os "com-diploma", começando
com jornalistas e aqueles "que escrevem artigos em jornais". Seria
o fim da imprensa como a conhecemos.
Deixar de lado os intelectuais,
como muitos países fazem, obviamente não é
a solução. Exigir que sejam mais pragmáticos,
mais realistas, menos dogmáticos é uma forma mais
acertada de resgatar a verdadeira função deles.
Toda nação precisa
de centenas de milhares de pessoas que analisem seus problemas corretamente
e apresentem não dogmas do passado, mas soluções
para o futuro. Mas, se essa onda sair do controle, quem irá
defender nossos intelectuais contra um movimento que muitos deles
ajudaram a iniciar?
Stephen Kanitz é administrador
por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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