Edição 1 640 - 15/3/2000

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Um dia de cão

"O liberalismo econômico moldado para atrair
os estimados empresários contrastava com o
rigorismo sanitário que pesa sobre os bichos
de estimação. Aboliu-se, então, a lei insensível aos
miados e latidos estrangeiros"

Ilustração Ale Setti
Frodo Baggins entrou livre e lampeiro na Inglaterra em 28 de fevereiro. O evento foi estampado há duas semanas em jornais influentes da Europa e dos Estados Unidos. Repare-se que Frodo pertence tão-somente à raça canina. Mas esse cachorro, com sobrenome e tudo, virou notícia porque é o primeiro animal doméstico estrangeiro a pisar em solo inglês sem passar por uma quarentena de seis meses. Até então obrigatória, essa medida preventiva foi instaurada em 1901 para proteger a bicharada dos lares britânicos das doenças alienígenas. Com o afluxo de executivos estrangeiros a Londres, o bloqueio aos cachorros e gatos de família começou a criar encrencas. O liberalismo econômico moldado para atrair os estimados empresários contrastava com o rigorismo sanitário que pesa sobre os bichos de estimação. Aboliu-se, então, a lei insensível aos miados e latidos estrangeiros. Lady Hayman, a ministra da Agricultura da Inglaterra, deu as boas-vindas a Frodo Baggins, chegado da França, e não deixou por menos, declarando: "É um dia histórico".

As migrações de gente e bichos qualificados para a Inglaterra e outros países europeus irão acentuar-se nos próximos anos. Especialistas do mercado de trabalho europeu já detectaram o problema. As transformações econômicas em curso reduzem a demanda de trabalhadores de pouca habilidade e aumentam a procura de profissionais bem qualificados. Por razões ligadas ao perfil demográfico dos europeus e à defasagem de formação específica em algumas áreas, haverá, a partir dos anos 2005-2006, uma penúria de mão-de-obra especializada na Europa. De fato, além do declínio da natalidade e de suas conseqüências sobre a oferta de empregos, há novas profissões cujos contornos escapam ao ensino das universidades e das escolas técnicas. Assim, um webmaster (criador e gerenciador de sites na internet) tem de possuir uma formação em informática, mas deverá dispor também de boa cultura geral em ciências humanas e ciências exatas.

De todo modo, o tema da imigração para o Velho Mundo se revestirá de novo alcance. Muito provavelmente vai ocorrer uma transferência considerável de especialistas dos países em desenvolvimento para a Europa. Não existe um mapa das regiões que serão afetadas por essas migrações. Mas, para ficar só na América Latina, é razoável prever que nações como a Argentina, o Brasil, o Uruguai e o Chile, onde há um mercado de trabalho diversificado e ao mesmo tempo instável, podem ser atingidas pelo fenômeno. Para os governos desses países, o objetivo de conservar a mão-de-obra qualificada deverá ir de par com o de formar tais especialistas.

Resta que a globalização tem impacto na mente e na alma de indivíduos de todo tipo de competência. Ao lado das transferências de executivos, médicos, engenheiros eletrônicos, biólogos e cães de família, continuarão ocorrendo migrações de gente desesperada pela miséria. Gente disposta a tudo para escapar da má sina de ter nascido em pátrias madrastas.

Na mesma semana, quando Frodo Baggins encostava pela primeira vez a perna num poste britânico, uma senhora de Nova York ficou traumatizada com esse último gênero de migração. Sucede que o cachorro dessa dama, passeando com ela num belo dia de sol, topou com uma massa informe e sanguinolenta no meio do calçadão de Long Beach. Susto, correria e estridência das radiopatrulhas. A polícia concluiu que o corpo achatado no chão nova-iorquino era o de um imigrante clandestino caído de um avião que se preparava para pousar no Aeroporto Kennedy. Ao abrir-se o trem de aterrissagem onde o infeliz estava escondido, seu corpo despencou no céu americano. Não deu para saber quem ele era. Mas de uma coisa já se tem certeza: não se tratava de um trabalhador qualificado.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)