Um dia de cão
"O liberalismo econômico
moldado para atrair
os estimados empresários contrastava com o
rigorismo sanitário que pesa sobre os bichos
de estimação. Aboliu-se, então,
a lei insensível aos
miados e latidos estrangeiros"
Ilustração Ale Setti
Frodo
Baggins entrou livre e lampeiro na Inglaterra em 28 de fevereiro.
O evento foi estampado há duas semanas em jornais
influentes da Europa e dos Estados Unidos. Repare-se que
Frodo pertence tão-somente à raça canina.
Mas esse cachorro, com sobrenome e tudo, virou notícia
porque é o primeiro animal doméstico estrangeiro
a pisar em solo inglês sem passar por uma quarentena
de seis meses. Até então obrigatória,
essa medida preventiva foi instaurada em 1901 para proteger
a bicharada dos lares britânicos das doenças
alienígenas. Com o afluxo de executivos estrangeiros
a Londres, o bloqueio aos cachorros e gatos de família
começou a criar encrencas. O liberalismo econômico
moldado para atrair os estimados empresários contrastava
com o rigorismo sanitário que pesa sobre os bichos
de estimação. Aboliu-se, então, a lei
insensível aos miados e latidos estrangeiros. Lady
Hayman, a ministra da Agricultura da Inglaterra, deu as
boas-vindas a Frodo Baggins, chegado da França, e
não deixou por menos, declarando: "É um dia
histórico".
As migrações de gente e bichos qualificados
para a Inglaterra e outros países europeus irão
acentuar-se nos próximos anos. Especialistas do mercado
de trabalho europeu já detectaram o problema. As
transformações econômicas em curso reduzem
a demanda de trabalhadores de pouca habilidade e aumentam
a procura de profissionais bem qualificados. Por razões
ligadas ao perfil demográfico dos europeus e à
defasagem de formação específica em
algumas áreas, haverá, a partir dos anos 2005-2006,
uma penúria de mão-de-obra especializada na
Europa. De fato, além do declínio da natalidade
e de suas conseqüências sobre a oferta de empregos,
há novas profissões cujos contornos escapam
ao ensino das universidades e das escolas técnicas.
Assim, um webmaster (criador e gerenciador de sites na internet)
tem de possuir uma formação em informática,
mas deverá dispor também de boa cultura geral
em ciências humanas e ciências exatas.
De todo modo, o tema da imigração para o
Velho Mundo se revestirá de novo alcance. Muito provavelmente
vai ocorrer uma transferência considerável
de especialistas dos países em desenvolvimento para
a Europa. Não existe um mapa das regiões que
serão afetadas por essas migrações.
Mas, para ficar só na América Latina, é
razoável prever que nações como a Argentina,
o Brasil, o Uruguai e o Chile, onde há um mercado
de trabalho diversificado e ao mesmo tempo instável,
podem ser atingidas pelo fenômeno. Para os governos
desses países, o objetivo de conservar a mão-de-obra
qualificada deverá ir de par com o de formar tais
especialistas.
Resta que a globalização tem impacto na
mente e na alma de indivíduos de todo tipo de competência.
Ao lado das transferências de executivos, médicos,
engenheiros eletrônicos, biólogos e cães
de família, continuarão ocorrendo migrações
de gente desesperada pela miséria. Gente disposta
a tudo para escapar da má sina de ter nascido em
pátrias madrastas.
Na mesma semana, quando Frodo Baggins encostava
pela primeira vez a perna num poste britânico, uma
senhora de Nova York ficou traumatizada com esse último
gênero de migração. Sucede que o cachorro
dessa dama, passeando com ela num belo dia de sol, topou
com uma massa informe e sanguinolenta no meio do calçadão
de Long Beach. Susto, correria e estridência das radiopatrulhas.
A polícia concluiu que o corpo achatado no chão
nova-iorquino era o de um imigrante clandestino caído
de um avião que se preparava para pousar no Aeroporto
Kennedy. Ao abrir-se o trem de aterrissagem onde o infeliz
estava escondido, seu corpo despencou no céu americano.
Não deu para saber quem ele era. Mas de uma coisa
já se tem certeza: não se tratava de um trabalhador
qualificado.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador (lfa@workmail.com)