Edição 1 640 -15/3/2000

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Anchieta e Nóbrega na
reunião da CNBB

O projetado pedido de perdão da Igreja pelo
modo como catequizou os índios diz muito
de um mal-estar que é de hoje

Suponha-se que os padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega comparecessem à reunião que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil realizará em abril. A reunião, aproveitando o quinto centenário do Descobrimento, debaterá um pedido de perdão pelos erros cometidos pela Igreja no processo de colonização do Brasil, em especial com relação aos índios e aos negros. "Estão de acordo em que houve erros?", seria perguntado aos célebres jesuítas.

"Mas certamente muito pouco fruto se teria colhido se a força e o braço secular não tivessem acudido para domá-los (os índios) e submetê-los ao jugo da obediência", objetaria Anchieta. Constrangimento. Sussurros na sala. Anchieta volta à carga: "Para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro". Exclamações de "oh", protestos. O padre Nóbrega sai em socorro do pupilo: "Era uma espécie de gente de condição mais de feras bravias que de gente racional".

Diante de tamanho desatino, só mudando de assunto. Um dos presentes tem a idéia de perguntar a Nóbrega o que se poderia fazer para melhorar a situação no colégio que fundara na Bahia. O padre faz uma pausa, depois responde: "A melhor coisa que se podia dar a este colégio seria duas dúzias de escravos da Guiné, machos e fêmeas, para fazerem mantimentos em abastança para a casa, enquanto outros andariam em um barco pescando".

Era o que faltava. Escândalo. O primeiro provincial dos jesuítas no Brasil, plantador de cidades, protagonista na fundação de São Paulo e coadjuvante nas de Salvador e Rio de Janeiro, é convidado a retirar-se. Anchieta acompanha-o. À guisa de consolo, vai lembrando quão ignorantes são esses interlocutores de cinco séculos adiante. Não sabem nada. Não sabem, por exemplo, que "os índios têm por sumo deleite comer-se uns aos outros". Anchieta revolta-se. "O sereníssimo Rei de Portugal", murmura, "saberá mandar para aqui uma força armada e numerosos exércitos, que dêem cabo de todos os malvados que resistem à pregação do Evangelho."

A reunião é inventada, mas as citações de Nóbrega e Anchieta são reais. Foram extraídas da copiosa correspondência deixada por eles e transcritas apenas com ligeiras adaptações. Ou melhor: inventada é a participação dos dois jesuítas na reunião da CNBB, pois a reunião ocorrerá mesmo. Nela, ao fazer uma "retrospectiva sobre esses cinco séculos de atuação evangelizadora", a CNBB "deverá pedir perdão por atitudes ambíguas e pecaminosas de pessoas ou grupos dentro da Igreja, por vezes decorrentes de conivências com os colonizadores, no processo de evangelização" (artigo de dom Cláudio Hummes no jornal O Estado de S. Paulo, 8/3/2000). Tudo muito agradável às platéias atuais, muito politicamente correto, até generoso – mas um tanto surrealista e parcial.

Surrealista porque, um pouco à moda dos diálogos inventados acima, só que a sério, arma-se uma salada de tempos históricos diversos. Usam-se a mentalidade e a ética de hoje para julgar os procedimentos de homens de outra mentalidade e outra ética. Condená-los hoje, pelos critérios atuais, por pensar o que pensavam e fazer o que faziam, é como condená-los por insistirem em viajar em caravelas em vez de tomar logo um avião. Parcial porque, no limite, toda evangelização viola de alguma forma a pessoa humana, e não apenas a efetuada segundo os métodos dos séculos XVI ou XVII. Evangelizar, ou catequizar, é querer impor sua verdade ao outro. É convidar o outro, ao adotar todo um novo sistema de crenças e valores, a destruir aquele no qual se formou, com os resultados desestabilizadores que se conhecem em sua estrutura emocional e na vida social. Se é o caso de questionar a evangelização, por que só a do período colonial?

O projetado pedido de perdão da CNBB fala mais do mal-estar atual que dos erros de outrora. Uma religião em princípio considera-se detentora da única verdade. As igrejas mais ainda. A Igreja Católica julga-se até infalível. Ora, os tempos atuais recomendam respeito ao próximo e tolerância. Isso significa aceitar que o outro tem suas razões. Vale dizer, outra verdade. Mas como fica a minha verdade, única e indivisa, se aceito a verdade do outro? Eis o impasse, que conduz ao mal-estar. O perdão da CNBB revela uma tolerância própria da mentalidade atual – mas, se a verdade é única, como permitir que índios e negros continuassem apartados dela? E, se era para trazê-los a seu seio, como fazê-lo fora dos quadros mentais e comportamentais então em vigor?

"Perdão por quê, cara pálida?", perguntaria Nóbrega, não tivesse sido bruscamente calado na reunião descrita acima. "Não fôssemos nós, quem estaria com reunião marcada, 500 anos depois, seria outra entidade. Não a conferência dos bispos, mas a dos pajés. E, se também eles fossem atacados por algum tipo de mal-estar, aproveitariam para pedir perdão por terem feito churrasco daqueles padres intrometidos que chegavam com a intenção de destronar seus deuses."