Anchieta e Nóbrega na
reunião da CNBB
O projetado pedido
de perdão da Igreja pelo
modo como catequizou os índios diz muito
de um mal-estar que é de hoje
Suponha-se que os padres José de Anchieta e Manuel
da Nóbrega comparecessem à reunião
que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil realizará
em abril. A reunião, aproveitando o quinto centenário
do Descobrimento, debaterá um pedido de perdão
pelos erros cometidos pela Igreja no processo de colonização
do Brasil, em especial com relação aos índios
e aos negros. "Estão de acordo em que houve erros?",
seria perguntado aos célebres jesuítas.
"Mas certamente muito pouco fruto se teria colhido se
a força e o braço secular não tivessem
acudido para domá-los (os índios) e submetê-los
ao jugo da obediência", objetaria Anchieta. Constrangimento.
Sussurros na sala. Anchieta volta à carga: "Para
este gênero de gente não há melhor pregação
do que espada e vara de ferro". Exclamações
de "oh", protestos. O padre Nóbrega sai em socorro
do pupilo: "Era uma espécie de gente de condição
mais de feras bravias que de gente racional".
Diante de tamanho desatino, só mudando de assunto.
Um dos presentes tem a idéia de perguntar a Nóbrega
o que se poderia fazer para melhorar a situação
no colégio que fundara na Bahia. O padre faz uma
pausa, depois responde: "A melhor coisa que se podia dar
a este colégio seria duas dúzias de escravos
da Guiné, machos e fêmeas, para fazerem mantimentos
em abastança para a casa, enquanto outros andariam
em um barco pescando".
Era o que faltava. Escândalo. O primeiro provincial
dos jesuítas no Brasil, plantador de cidades, protagonista
na fundação de São Paulo e coadjuvante
nas de Salvador e Rio de Janeiro, é convidado a retirar-se.
Anchieta acompanha-o. À guisa de consolo, vai lembrando
quão ignorantes são esses interlocutores de
cinco séculos adiante. Não sabem nada. Não
sabem, por exemplo, que "os índios têm por
sumo deleite comer-se uns aos outros". Anchieta revolta-se.
"O sereníssimo Rei de Portugal", murmura, "saberá
mandar para aqui uma força armada e numerosos exércitos,
que dêem cabo de todos os malvados que resistem à
pregação do Evangelho."
A reunião é inventada, mas as citações
de Nóbrega e Anchieta são reais. Foram extraídas
da copiosa correspondência deixada por eles e transcritas
apenas com ligeiras adaptações. Ou melhor:
inventada é a participação dos dois
jesuítas na reunião da CNBB, pois a reunião
ocorrerá mesmo. Nela, ao fazer uma "retrospectiva
sobre esses cinco séculos de atuação
evangelizadora", a CNBB "deverá pedir perdão
por atitudes ambíguas e pecaminosas de pessoas ou
grupos dentro da Igreja, por vezes decorrentes de conivências
com os colonizadores, no processo de evangelização"
(artigo de dom Cláudio Hummes no jornal O Estado
de S. Paulo, 8/3/2000). Tudo muito agradável
às platéias atuais, muito politicamente correto,
até generoso mas um tanto surrealista e parcial.
Surrealista porque, um pouco à moda dos diálogos
inventados acima, só que a sério, arma-se
uma salada de tempos históricos diversos. Usam-se
a mentalidade e a ética de hoje para julgar os procedimentos
de homens de outra mentalidade e outra ética. Condená-los
hoje, pelos critérios atuais, por pensar o que pensavam
e fazer o que faziam, é como condená-los por
insistirem em viajar em caravelas em vez de tomar logo um
avião. Parcial porque, no limite, toda evangelização
viola de alguma forma a pessoa humana, e não apenas
a efetuada segundo os métodos dos séculos
XVI ou XVII. Evangelizar, ou catequizar, é querer
impor sua verdade ao outro. É convidar o outro, ao
adotar todo um novo sistema de crenças e valores,
a destruir aquele no qual se formou, com os resultados desestabilizadores
que se conhecem em sua estrutura emocional e na vida social.
Se é o caso de questionar a evangelização,
por que só a do período colonial?
O projetado pedido de perdão da CNBB fala mais
do mal-estar atual que dos erros de outrora. Uma religião
em princípio considera-se detentora da única
verdade. As igrejas mais ainda. A Igreja Católica
julga-se até infalível. Ora, os tempos atuais
recomendam respeito ao próximo e tolerância.
Isso significa aceitar que o outro tem suas razões.
Vale dizer, outra verdade. Mas como fica a minha verdade,
única e indivisa, se aceito a verdade do outro? Eis
o impasse, que conduz ao mal-estar. O perdão da CNBB
revela uma tolerância própria da mentalidade
atual mas, se a verdade é única, como permitir
que índios e negros continuassem apartados dela?
E, se era para trazê-los a seu seio, como fazê-lo
fora dos quadros mentais e comportamentais então
em vigor?
"Perdão por quê, cara pálida?", perguntaria
Nóbrega, não tivesse sido bruscamente calado
na reunião descrita acima. "Não fôssemos
nós, quem estaria com reunião marcada, 500
anos depois, seria outra entidade. Não a conferência
dos bispos, mas a dos pajés. E, se também
eles fossem atacados por algum tipo de mal-estar, aproveitariam
para pedir perdão por terem feito churrasco daqueles
padres intrometidos que chegavam com a intenção
de destronar seus deuses."