O peso pesado
Denzel Washington mostra por que é
sempre o
primeiro da lista quando o papel exige respeito
Isabela Boscov
Há
uma cena em O Furacão (The Hurricane,
Estados Unidos, 1999) em que, ao sair depois de semanas
de uma cela solitária, o presidiário Rubin
Carter apruma-se, alisa o terno imundo e ajeita a gravata,
ou o que restou dela. O gesto é um clichê do
cinema serve para sugerir rebeldia, fleuma ou arrogância.
Protagonizado por Denzel Washington, adquire outra dimensão.
É a tentativa desesperada de um homem de agarrar-se
aos destroços de sua honra e sanidade. A cena se
torna, assim, uma boa síntese do filme, que estréia
nesta sexta-feira no país. Enquanto o diretor Norman
Jewison trafega no território do lugar-comum e do
triunfalismo, Washington é capaz de sutilezas que
alçam a fita a um outro patamar, muito mais digno
e complexo.
UIP
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O astro na pele do sul-africano
Steve Biko: discrição fora das telas
e recusa em fazer papéis de negros estereotipados
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Essa discrepância não é incomum na
carreira do astro. Aos 45 anos, Washington já trabalhou
em grandes filmes, como Tempo de Glória, Um Grito
de Liberdade e Malcolm X. Mais freqüentemente,
porém, aparece em produções eficientes
mas sem ambições artísticas, como O
Colecionador de Ossos ou Coragem sob Fogo. O
que Washington ganha trabalhando nesse tipo de filme? Faz
papéis que foram escritos para atores brancos, o
que é um feito e tanto em Hollywood. Em geral, negros
só conseguem interpretar personagens com características
étnicas bem marcadas. Os produtores, por sua vez,
conferem uma aura de seriedade às suas fitas com
a presença grave e magnética do astro, que
tem o dom de parecer estar falando sempre a verdade, em
qualquer circunstância.
Esse dom vem a calhar em O Furacão, que
virou alvo de ataques graças ao retrato um tanto
enfeitado da vida de Rubin Carter, um campeão de
boxe que foi condenado por vários assassinatos em
1967 e passou os dezoito anos seguintes atrás das
grades. Carter, cujo apelido no ringue era "Furacão",
se tornou uma causa célebre da época. Virou
canção de protesto de Bob Dylan a conhecidíssima
Hurricane e mobilizou militantes, que viam em
sua prisão um ato premeditado de racismo. O filme
baseado em sua trajetória, contudo, está longe
de ser uma unanimidade. As famílias das vítimas
insistem ser Carter o verdadeiro culpado e queixam-se de
sua glorificação no cinema. Um boxeador branco
que lutou com ele em 1964 reclama que a fita descreve sua
vitória como uma armação racista, enquanto
o próprio Carter, que hoje vive em Toronto, admite
que o adversário ganhou honestamente. Também
não falta quem critique a maneira resumida com que
sua extensa ficha policial é apresentada em O
Furacão.
Sem cantar rap Para além dessas polêmicas
resta o magnífico desempenho de Washington
não à toa, indicado para o Oscar. A exemplo
de outros negros célebres que ele já interpretou
(o sul-africano Steve Biko de Um Grito de Liberdade
e o americano Malcolm X do filme dirigido por Spike Lee),
seu Hurricane é um homem que ganha estatura moral
à medida que aprende a domar a revolta e a amargura,
canalizando essa energia para sua causa. Não deixa
de ter algo em comum com o próprio Washington. Filho
de um pastor pentecostal, religião que ainda segue
e na qual educa os quatro filhos, ele é um ator aplicado.
Para O Furacão, perdeu 20 quilos e treinou
como um boxeador profissional. Mas nem passa perto de papéis
que usem a raça como trampolim para caracterizações
jocosas ou estereotipadas. Fora das telas, também
não é visto por aí falando com sotaque
de cantor de rap. Poucos atores negros, contudo, trazem
em seu currículo tantos personagens envolvidos com
questões raciais. Na prática, essas atitudes
fazem de Washington um híbrido curioso: o mais branco
e o mais negro dos astros afro-americanos, e um engajado
que só manifesta suas convicções no
cinema. Sinal de que, além de muito talentoso, é
também sensato para um ator, não há
mesmo melhor tribuna do que a tela.