Edição 1 640 - 15/3/2000

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O peso pesado

Denzel Washington mostra por que é sempre o
primeiro da lista quando o papel exige respeito

Isabela Boscov

Há uma cena em O Furacão (The Hurricane, Estados Unidos, 1999) em que, ao sair depois de semanas de uma cela solitária, o presidiário Rubin Carter apruma-se, alisa o terno imundo e ajeita a gravata, ou o que restou dela. O gesto é um clichê do cinema – serve para sugerir rebeldia, fleuma ou arrogância. Protagonizado por Denzel Washington, adquire outra dimensão. É a tentativa desesperada de um homem de agarrar-se aos destroços de sua honra e sanidade. A cena se torna, assim, uma boa síntese do filme, que estréia nesta sexta-feira no país. Enquanto o diretor Norman Jewison trafega no território do lugar-comum e do triunfalismo, Washington é capaz de sutilezas que alçam a fita a um outro patamar, muito mais digno e complexo.

 
UIP

O astro na pele do sul-africano Steve Biko: discrição fora das telas e recusa em fazer papéis de negros estereotipados

Essa discrepância não é incomum na carreira do astro. Aos 45 anos, Washington já trabalhou em grandes filmes, como Tempo de Glória, Um Grito de Liberdade e Malcolm X. Mais freqüentemente, porém, aparece em produções eficientes mas sem ambições artísticas, como O Colecionador de Ossos ou Coragem sob Fogo. O que Washington ganha trabalhando nesse tipo de filme? Faz papéis que foram escritos para atores brancos, o que é um feito e tanto em Hollywood. Em geral, negros só conseguem interpretar personagens com características étnicas bem marcadas. Os produtores, por sua vez, conferem uma aura de seriedade às suas fitas com a presença grave e magnética do astro, que tem o dom de parecer estar falando sempre a verdade, em qualquer circunstância.

Esse dom vem a calhar em O Furacão, que virou alvo de ataques graças ao retrato um tanto enfeitado da vida de Rubin Carter, um campeão de boxe que foi condenado por vários assassinatos em 1967 e passou os dezoito anos seguintes atrás das grades. Carter, cujo apelido no ringue era "Furacão", se tornou uma causa célebre da época. Virou canção de protesto de Bob Dylan – a conhecidíssima Hurricane – e mobilizou militantes, que viam em sua prisão um ato premeditado de racismo. O filme baseado em sua trajetória, contudo, está longe de ser uma unanimidade. As famílias das vítimas insistem ser Carter o verdadeiro culpado e queixam-se de sua glorificação no cinema. Um boxeador branco que lutou com ele em 1964 reclama que a fita descreve sua vitória como uma armação racista, enquanto o próprio Carter, que hoje vive em Toronto, admite que o adversário ganhou honestamente. Também não falta quem critique a maneira resumida com que sua extensa ficha policial é apresentada em O Furacão.

Sem cantar rap – Para além dessas polêmicas resta o magnífico desempenho de Washington – não à toa, indicado para o Oscar. A exemplo de outros negros célebres que ele já interpretou (o sul-africano Steve Biko de Um Grito de Liberdade e o americano Malcolm X do filme dirigido por Spike Lee), seu Hurricane é um homem que ganha estatura moral à medida que aprende a domar a revolta e a amargura, canalizando essa energia para sua causa. Não deixa de ter algo em comum com o próprio Washington. Filho de um pastor pentecostal, religião que ainda segue e na qual educa os quatro filhos, ele é um ator aplicado. Para O Furacão, perdeu 20 quilos e treinou como um boxeador profissional. Mas nem passa perto de papéis que usem a raça como trampolim para caracterizações jocosas ou estereotipadas. Fora das telas, também não é visto por aí falando com sotaque de cantor de rap. Poucos atores negros, contudo, trazem em seu currículo tantos personagens envolvidos com questões raciais. Na prática, essas atitudes fazem de Washington um híbrido curioso: o mais branco e o mais negro dos astros afro-americanos, e um engajado que só manifesta suas convicções no cinema. Sinal de que, além de muito talentoso, é também sensato – para um ator, não há mesmo melhor tribuna do que a tela.