Edição 1 640 - 15/3/2000

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O estupro é "natural"?

Pasme: há quem afirme que se trata de algo
explicável do ponto de vista da biologia

Mario Sabino

 

O rapto das sabinas: os autores passam
longe desse caso

Um livro a ser lançado em abril, nos Estados Unidos, já está causando rebuliço entre as aguerridas feministas americanas. Seu título: Uma História Natural do Estupro: Bases Biológicas da Coerção Sexual. Os autores são um biólogo, Randy Thornhill, e um antropólogo, Craig T. Palmer, ambos darwinistas de carteirinha. A tese central do livro foi adiantada em um artigo publicado na revista The Sciences, no início deste ano. De acordo com Thornhill e Palmer, o estupro, longe de ser fruto da prepotência dos machos humanos em relação a suas fêmeas, é um fenômeno que integra o comportamento sexual masculino desde tempos imemoriais. Sua origem está na natureza, e não na estrutura patriarcal das sociedades. Um estuprador, portanto, não seria um energúmeno que levou o machismo às últimas conseqüências, como rezam as cartilhas feministas. Seria tão-somente um sujeito que, estimulado por determinadas circunstâncias, não conseguiu reprimir um fato da biologia. Como se vê, nada mais politicamente incorreto.

Do ponto de vista do evolucionismo, dizem os autores, todo e qualquer tipo de animal – inclusive eu, você, Bill e Hillary Clinton – tem como impulso básico gerar filhos sadios, que vivam o suficiente para passar adiante a herança genética de seus pais. Para tanto, procuram parceiros que atendam a essa exigência da melhor maneira possível. Ainda hoje, quando homens e mulheres não partem para o jogo da sedução com fins lá muito reprodutivos, eles mantêm um padrão definido ancestralmente. Homens continuam a preferir mulheres novas, tal como seus antepassados das cavernas, porque ao longo do processo de seleção natural elas se demonstraram mais adequadas do que as maduronas no que se refere à perpetuação da espécie. Mulheres preferem homens vigorosos e bem-sucedidos, porque seus genes lhes foram transmitidos por vovós longínquas que escolheram maridões aptos a defender e suprir a contento a sua prole.

É aí que entra o estupro, segundo Thornhill e Palmer. Se um homem não se mostrava atraente o bastante para conseguir a mulher desejada, o que lhe restava era pegá-la à força. Assim, dessa perspectiva evolucionista, o estupro é o Plano B do macho rejeitado, dono de genes enlouquecidos pela hipótese de não serem transmitidos a uma futura geração. E, nos tempos modernos, ele ressurgiria como um atavismo biológico, dadas certas condições de temperatura e pressão. Os autores, é claro, são enfáticos ao afirmar que essa visão não significa uma atenuante para o crime bárbaro do estupro. Acreditam mesmo que, ao retirar essa violência do campo das afecções sociológicas, onde foi colocado há mais de vinte anos pelas feministas, os programas de educação pública dos Estados Unidos ficariam livres para tomar medidas que diminuíssem os riscos de uma mulher ser estuprada, principalmente entre as camadas mais jovens.

Quais seriam essas medidas? Bem, como todos os homens, de acordo com Thornhill e Palmer, são potenciais estupradores, eles deveriam passar na adolescência por cursos de formação que lhes explicassem que a seleção darwiniana não só formatou o corpo humano como moldou a sua psique. É, enfim, o motivo de o marmanjo ter uma ereção ao olhar a foto de uma bela mulher nua, ou a razão que o leva a interpretar mal um comentário amigável de uma garota. A rapaziada também deveria ser informada em detalhes sobre as penas impostas aos protagonistas de crimes sexuais. Por último, Thornhill e Palmer são de opinião que moças e moços não deveriam ficar sozinhos, sem a vigilância de adultos, e que elas deveriam vestir-se e portar-se de maneira menos provocante. Saias curtas ou modos demasiadamente extrovertidos, se não justificam um estupro, comprometeriam, sim, a segurança da mulher. Imagine o que pensa a respeito a modelo violentada por Mike Tyson. Em seu artigo, os autores não fazem menção ao estupro como forma de dominação e humilhação de um povo, caso do rapto das sabinas pelos romanos, na Antiguidade, e das mulheres bósnias defloradas pelos sérvios, há poucos anos. É de deixar qualquer feminista doida.