O estupro é "natural"?
Pasme: há quem afirme que se trata
de algo
explicável do ponto de vista da biologia
Mario Sabino
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O rapto das sabinas:
os autores passam
longe desse caso
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Um livro a ser lançado em abril, nos Estados Unidos,
já está causando rebuliço entre as
aguerridas feministas americanas. Seu título: Uma
História Natural do Estupro: Bases Biológicas
da Coerção Sexual. Os autores são
um biólogo, Randy Thornhill, e um antropólogo,
Craig T. Palmer, ambos darwinistas de carteirinha. A tese
central do livro foi adiantada em um artigo publicado na
revista The Sciences, no início deste ano.
De acordo com Thornhill e Palmer, o estupro, longe de
ser fruto da prepotência dos machos humanos em relação
a suas fêmeas, é um fenômeno que integra
o comportamento sexual masculino desde tempos imemoriais.
Sua origem está na natureza, e não na estrutura
patriarcal das sociedades. Um estuprador, portanto, não
seria um energúmeno que levou o machismo às
últimas conseqüências, como rezam as cartilhas
feministas. Seria tão-somente um sujeito que, estimulado
por determinadas circunstâncias, não conseguiu
reprimir um fato da biologia. Como se vê, nada mais
politicamente incorreto.
Do ponto de vista do evolucionismo, dizem os autores,
todo e qualquer tipo de animal inclusive eu, você,
Bill e Hillary Clinton tem como impulso básico
gerar filhos sadios, que vivam o suficiente para passar
adiante a herança genética de seus pais. Para
tanto, procuram parceiros que atendam a essa exigência
da melhor maneira possível. Ainda hoje, quando homens
e mulheres não partem para o jogo da sedução
com fins lá muito reprodutivos, eles mantêm
um padrão definido ancestralmente. Homens continuam
a preferir mulheres novas, tal como seus antepassados das
cavernas, porque ao longo do processo de seleção
natural elas se demonstraram mais adequadas do que as maduronas
no que se refere à perpetuação da espécie.
Mulheres preferem homens vigorosos e bem-sucedidos, porque
seus genes lhes foram transmitidos por vovós longínquas
que escolheram maridões aptos a defender e suprir
a contento a sua prole.
É aí que entra o estupro, segundo Thornhill
e Palmer. Se um homem não se mostrava atraente o
bastante para conseguir a mulher desejada, o que lhe restava
era pegá-la à força. Assim, dessa perspectiva
evolucionista, o estupro é o Plano B do macho rejeitado,
dono de genes enlouquecidos pela hipótese de não
serem transmitidos a uma futura geração. E,
nos tempos modernos, ele ressurgiria como um atavismo biológico,
dadas certas condições de temperatura e pressão.
Os autores, é claro, são enfáticos
ao afirmar que essa visão não significa uma
atenuante para o crime bárbaro do estupro. Acreditam
mesmo que, ao retirar essa violência do campo das
afecções sociológicas, onde foi colocado
há mais de vinte anos pelas feministas, os programas
de educação pública dos Estados Unidos
ficariam livres para tomar medidas que diminuíssem
os riscos de uma mulher ser estuprada, principalmente entre
as camadas mais jovens.
Quais seriam essas medidas? Bem, como todos os homens,
de acordo com Thornhill e Palmer, são potenciais
estupradores, eles deveriam passar na adolescência
por cursos de formação que lhes explicassem
que a seleção darwiniana não só
formatou o corpo humano como moldou a sua psique. É,
enfim, o motivo de o marmanjo ter uma ereção
ao olhar a foto de uma bela mulher nua, ou a razão
que o leva a interpretar mal um comentário amigável
de uma garota. A rapaziada também deveria ser informada
em detalhes sobre as penas impostas aos protagonistas de
crimes sexuais. Por último, Thornhill e Palmer são
de opinião que moças e moços não
deveriam ficar sozinhos, sem a vigilância de adultos,
e que elas deveriam vestir-se e portar-se de maneira menos
provocante. Saias curtas ou modos demasiadamente extrovertidos,
se não justificam um estupro, comprometeriam, sim,
a segurança da mulher. Imagine o que pensa a respeito
a modelo violentada por Mike Tyson. Em seu artigo, os autores
não fazem menção ao estupro como forma
de dominação e humilhação de
um povo, caso do rapto das sabinas pelos romanos, na Antiguidade,
e das mulheres bósnias defloradas pelos sérvios,
há poucos anos. É de deixar qualquer feminista
doida.