Edição 1 640 - 15/3/2000

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Relações Exteriores

Rumo ao mar aberto

Em visita a Portugal, Fernando Henrique fala
de História e defende o livre comércio

Eliana Simonetti

 

Sergio Lima/Folha Imagem
O presidente português Jorge Sampaio e FHC no lançamento da réplica da caravela de Cabral, no rio Tejo: identidade cultural e interesses econômicos comuns

A razão da visita do presidente Fernando Henrique Cardoso a Portugal, na semana passada, foi diplomática. Ele quis presenciar a saída, do Rio Tejo, da cópia de uma das caravelas que compunham a frota de Pedro Álvares Cabral, 500 anos atrás. O festejo foi parte das comemorações de meio século de descobrimento do Brasil e ofereceu a oportunidade para que o presidente falasse, na Europa, aos europeus. Fernando Henrique fez cinco discursos. Falou de História, da cultura que os brasileiros herdaram dos portugueses, de música e literatura. Aproveitou para tocar em questões econômicas – algumas delas polêmicas. Convidou os portugueses a investir mais no Brasil, disse que está empenhado em acertar um tratado de livre comércio entre a União Européia e o Mercosul, e ainda reclamou contra o protecionismo europeu e americano. "As barreiras ao comércio e os surtos especulativos são prejudiciais ao enriquecimento dos países", disse. "Nosso principal desafio é perseguir uma globalização mais equânime, menos hostil aos interesses da maioria."

No que diz respeito aos dólares portugueses, não há qualquer tormenta à vista. Empresas portuguesas andam muito estimuladas a investir no Brasil. Até 1995, tinham apenas 350 milhões de dólares aplicados no país. Agora são cerca de 7 bilhões de dólares – um crescimento da ordem de 2 000% em apenas cinco anos. Portugal é um dos cinco maiores investidores externos no Brasil e o terceiro mais agressivo no processo de privatização. Mais de quarenta empresas portuguesas se instalaram no país nos últimos tempos. O mar começa a se encapelar quando o tema é comércio. "Portugal responde por menos de 0,5% do comércio exterior brasileiro, não figurando entre nossos vinte maiores parceiros. É chegada a hora de alterar esse quadro, de fazer com que também no comércio sejamos exemplos para os vizinhos europeus e sul-americanos", disse o presidente Fernando Henrique durante um almoço com políticos e empresários, na quinta-feira passada.

 
Reuters
Réplica da Boa Esperança: para comemorar os 500 anos de descobrimento do Brasil

Portugal importa 41 bilhões de dólares por ano em serviços e mercadorias. Exporta 31 bilhões de dólares. É uma economia pequena e não pode ser acusada de ser trancada às importações. Mas faz parte da União Européia, que mantém uma infinidade de entraves à entrada de produtos estrangeiros no seu quintal. Os europeus protegem seus agricultores e criadores com dezenas de exigências e especificações que desanimam qualquer produtor internacional que pense em vender carnes, frutas e legumes em seu território. Abrem as asas sobre sua indústria de aviões, a Airbus, com subsídios estatais. Estabelecem limites numéricos para o ingresso de carros produzidos no exterior. E, na semana passada, acredite quem puder, decidiram elevar o imposto cobrado sobre conexões de ferro fundido maleável alienígena, sob o argumento de que China, República Checa, Japão, Coréia, Tailândia e Brasil estão vendendo o produto a preço de custo na Europa, para quebrar os fabricantes de lá. A única empresa que fabrica as tais conexões na América Latina é a Fundição Tupy, que fica em Santa Catarina e não entendeu como se envolveu numa disputa tão poderosa.

As negociações comerciais entre países nunca foram muito fáceis. Antes mesmo do fim da II Guerra Mundial, em 1944, para estabelecer um ambiente de maior cooperação e entendimento na economia internacional, pensou-se na criação de um organismo para mediar as conversações e policiar o bom comportamento dos países em matéria de comércio. Pois bem, esse organismo, chamado Organização Internacional do Comércio, nunca chegou a existir, porque os americanos simplesmente se recusaram a aceitar restrições à sua soberania nesta área. Nos últimos 55 anos as coisas evoluíram, é claro. Foram assinados acordos tarifários e fixadas regras para o comércio internacional. Impostos de importação foram reduzidos e os mercados se tornaram muito mais abertos. Mas o protecionismo persiste, especialmente nos países desenvolvidos. E nos últimos tempos a tensão tem atingido níveis recordes. Brigando por bananas e aviões, americanos e europeus chegaram a desobedecer recomendações feitas pela Organização Mundial do Comércio, coisa que nunca havia acontecido.

Ocorre que este é um momento especialmente delicado. Existem produtos demais no mundo e pouca gente quer ou pode comprá-los. Os preços estão em queda. A competição por mercados é uma briga selvagem. "O Brasil precisa produzir mais, produtos melhores e mais baratos, e trabalhar para aumentar sua clientela, como todos estão fazendo", diz o recém-empossado secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior Roberto Giannetti da Fonseca. Segundo seus cálculos, se de repente todas as barreiras comerciais fossem abolidas e o planeta se transformasse numa grande aldeia, não haveria tantas alterações instantâneas no cenário mundial. Hoje, o Brasil exporta cerca de 58 bilhões de dólares por ano em mercadorias e serviços. Num ambiente livre, o volume poderia crescer, de imediato, 10%. "Mas trabalhando direito, num prazo médio de quatro anos o país poderia exportar 20 bilhões de dólares a mais", diz Giannetti da Fonseca.

Moral da história? Bem, já se sabe que o intercâmbio de mercadorias propicia o enriquecimento, a melhoria da qualidade de vida e o progresso tecnológico. Mas enquanto a abertura irrestrita não vem resta aos países em desenvolvimento, como o Brasil, a tática da pressão. É a estratégia adotada por Fernando Henrique Cardoso. Disse ele, numa de suas falas: "Aguardamos com expectativa a contrapartida européia e americana ao extraordinário esforço de liberalização comercial desenvolvido na América do Sul". Agora, é esperar.