Relações
Exteriores
Rumo ao mar aberto
Em visita a Portugal, Fernando Henrique
fala
de História e defende o livre comércio
Eliana Simonetti
Sergio Lima/Folha Imagem
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| O presidente português Jorge
Sampaio e FHC no lançamento da réplica
da caravela de Cabral, no rio Tejo: identidade cultural
e interesses econômicos comuns |
A razão da visita do presidente Fernando
Henrique Cardoso a Portugal, na semana passada, foi diplomática.
Ele quis presenciar a saída, do Rio Tejo, da cópia
de uma das caravelas que compunham a frota de Pedro Álvares
Cabral, 500 anos atrás. O festejo foi parte das comemorações
de meio século de descobrimento do Brasil e ofereceu
a oportunidade para que o presidente falasse, na Europa,
aos europeus. Fernando Henrique fez cinco discursos. Falou
de História, da cultura que os brasileiros herdaram
dos portugueses, de música e literatura. Aproveitou
para tocar em questões econômicas algumas
delas polêmicas. Convidou os portugueses a investir
mais no Brasil, disse que está empenhado em acertar
um tratado de livre comércio entre a União
Européia e o Mercosul, e ainda reclamou contra o
protecionismo europeu e americano. "As barreiras ao comércio
e os surtos especulativos são prejudiciais ao enriquecimento
dos países", disse. "Nosso principal desafio é
perseguir uma globalização mais equânime,
menos hostil aos interesses da maioria."
No que diz respeito aos dólares portugueses,
não há qualquer tormenta à vista. Empresas
portuguesas andam muito estimuladas a investir no Brasil.
Até 1995, tinham apenas 350 milhões de dólares
aplicados no país. Agora são cerca de 7 bilhões
de dólares um crescimento da ordem de 2 000%
em apenas cinco anos. Portugal é um dos cinco maiores
investidores externos no Brasil e o terceiro mais agressivo
no processo de privatização. Mais de quarenta
empresas portuguesas se instalaram no país nos últimos
tempos. O mar começa a se encapelar quando o tema
é comércio. "Portugal responde por menos de
0,5% do comércio exterior brasileiro, não
figurando entre nossos vinte maiores parceiros. É
chegada a hora de alterar esse quadro, de fazer com que
também no comércio sejamos exemplos para os
vizinhos europeus e sul-americanos", disse o presidente
Fernando Henrique durante um almoço com políticos
e empresários, na quinta-feira passada.
Reuters
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| Réplica da Boa Esperança:
para comemorar os 500 anos de descobrimento do Brasil
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Portugal importa 41 bilhões de dólares
por ano em serviços e mercadorias. Exporta 31 bilhões
de dólares. É uma economia pequena e não
pode ser acusada de ser trancada às importações.
Mas faz parte da União Européia, que mantém
uma infinidade de entraves à entrada de produtos
estrangeiros no seu quintal. Os europeus protegem seus agricultores
e criadores com dezenas de exigências e especificações
que desanimam qualquer produtor internacional que pense
em vender carnes, frutas e legumes em seu território.
Abrem as asas sobre sua indústria de aviões,
a Airbus, com subsídios estatais. Estabelecem limites
numéricos para o ingresso de carros produzidos no
exterior. E, na semana passada, acredite quem puder, decidiram
elevar o imposto cobrado sobre conexões de ferro
fundido maleável alienígena, sob o argumento
de que China, República Checa, Japão, Coréia,
Tailândia e Brasil estão vendendo o produto
a preço de custo na Europa, para quebrar os fabricantes
de lá. A única empresa que fabrica as tais
conexões na América Latina é a Fundição
Tupy, que fica em Santa Catarina e não entendeu como
se envolveu numa disputa tão poderosa.
As negociações comerciais entre
países nunca foram muito fáceis. Antes mesmo
do fim da II Guerra Mundial, em 1944, para estabelecer um
ambiente de maior cooperação e entendimento
na economia internacional, pensou-se na criação
de um organismo para mediar as conversações
e policiar o bom comportamento dos países em matéria
de comércio. Pois bem, esse organismo, chamado Organização
Internacional do Comércio, nunca chegou a existir,
porque os americanos simplesmente se recusaram a aceitar
restrições à sua soberania nesta área.
Nos últimos 55 anos as coisas evoluíram, é
claro. Foram assinados acordos tarifários e fixadas
regras para o comércio internacional. Impostos de
importação foram reduzidos e os mercados se
tornaram muito mais abertos. Mas o protecionismo persiste,
especialmente nos países desenvolvidos. E nos últimos
tempos a tensão tem atingido níveis recordes.
Brigando por bananas e aviões, americanos e europeus
chegaram a desobedecer recomendações feitas
pela Organização Mundial do Comércio,
coisa que nunca havia acontecido.
Ocorre que este é um momento especialmente
delicado. Existem produtos demais no mundo e pouca gente
quer ou pode comprá-los. Os preços estão
em queda. A competição por mercados é
uma briga selvagem. "O Brasil precisa produzir mais, produtos
melhores e mais baratos, e trabalhar para aumentar sua clientela,
como todos estão fazendo", diz o recém-empossado
secretário executivo da Câmara de Comércio
Exterior Roberto Giannetti da Fonseca. Segundo seus cálculos,
se de repente todas as barreiras comerciais fossem abolidas
e o planeta se transformasse numa grande aldeia, não
haveria tantas alterações instantâneas
no cenário mundial. Hoje, o Brasil exporta cerca
de 58 bilhões de dólares por ano em mercadorias
e serviços. Num ambiente livre, o volume poderia
crescer, de imediato, 10%. "Mas trabalhando direito, num
prazo médio de quatro anos o país poderia
exportar 20 bilhões de dólares a mais", diz
Giannetti da Fonseca.
Moral da história? Bem, já
se sabe que o intercâmbio de mercadorias propicia
o enriquecimento, a melhoria da qualidade de vida e o progresso
tecnológico. Mas enquanto a abertura irrestrita não
vem resta aos países em desenvolvimento, como o Brasil,
a tática da pressão. É a estratégia
adotada por Fernando Henrique Cardoso. Disse ele, numa de
suas falas: "Aguardamos com expectativa a contrapartida
européia e americana ao extraordinário esforço
de liberalização comercial desenvolvido na
América do Sul". Agora, é esperar.