Edição 1 640 - 15/3/2000

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Entrevista

"Tem de dar lucro"

O criador do site mais visitado do mundo
diz que é muito mais fácil fracassar do
que ficar rico com a internet

Marcelo Camacho

No dia e hora marcados, o próprio Jerry Yang pegou o telefone e ligou para a sucursal de VEJA no Rio de Janeiro. Ele havia combinado uma entrevista sobre sua visita ao Brasil, programada para esta terça-feira. Em quarenta minutos de conversa, Yang fez o que mais gosta: falar do futuro do Yahoo!

Veja – Dois anos atrás, o Yahoo! era uma companhia que valia 5 bilhões de dólares. Hoje seu valor de mercado é de quase 100 bilhões. Um crescimento num ritmo acelerado como esse não é uma espécie de miragem insustentável?
Yang – Se olharmos para o Yahoo! hoje, a maior parte de nosso faturamento vem dos Estados Unidos, mas nossas áreas de crescimento estão fora daqui, na Ásia e na América Latina. Quando esses novos mercados começarem a amadurecer, estaremos ainda mais bem posicionados. Quem pensa no Yahoo! hoje não deve olhar só para o que está vendo agora, porque isso tudo pode duplicar ou triplicar a cada ano.

Veja – Muita gente tem a idéia de que para ganhar dinheiro com a internet basta criar um site genial e esperar algum tempo até que ele valha centenas de milhões de dólares. Ainda há oportunidade de negócios assim na internet?
Yang – Sim. A internet criou uma nova era de empresários. São pessoas que querem iniciar sozinhas seu próprio negócio. Isso é formidável. O lado ruim é que tem gente pensando só no dinheiro. As pessoas que estão na rede apenas por isso estão pelo motivo errado. Ter uma grande idéia, fazer dela algo real, enfim, criar um bom negócio é uma tarefa que requer muito trabalho duro e suor. Costuma-se subestimar a freqüência com que se falha ao se começar uma nova empresa. Há mais gente fracassando do que ficando rica por aí.

Veja – O senhor não sente um frio na espinha ao lidar com um négócio que é virtual, em que não há nenhum produto palpável para vender?
Yang – Acho isso ótimo. Tudo o que fazemos é eletrônico, e por isso acredito que temos um grande modelo de negócio nas mãos. Não precisamos inventar produto algum nem nos preocupar com questões de logística física. Somos limitados apenas pelo que podemos criar. Essa é a melhor forma de trabalhar. Pode até acontecer de os usuários em algum momento preferirem outros sites de busca. Mas é assim em qualquer tipo de negócio. Se ninguém comprar os carros que você vende, seu negócio também vai acabar. Não tenho medo por causa disso. Essas são as regras desse mercado, temos de viver de acordo com elas.

Veja – A maioria das empresas da internet não sabe até hoje o que é lucro. Trabalham no vermelho com a aposta de que em alguns anos reverterão esse quadro. Isso não é perigoso?
Yang – Sim, especialmente nos diferentes lugares ao redor do mundo onde a internet está ficando muito quente agora. Na Ásia, na América Latina e especialmente no Brasil, onde todo mundo está na febre da internet, é bom que se faça a seguinte pergunta: essas pessoas estão ingressando na rede por acreditar que ela é um negócio real ou estão apenas sendo levadas por uma onda de euforia? Porque a internet funciona dentro da economia de mercado, sim, e precisa ser lucrativa como indústria.

Veja – Mas, mesmo nos Estados Unidos, gigantes da internet, como a Amazon, ainda continuam sem dar lucro...
Yang – Claro que algumas empresas da internet nos Estados Unidos nunca vão ganhar dinheiro, e isso não é bom. Atualmente, mesmo em mercados maduros como o americano, nós continuamos investindo, construindo infra-estrutura. Ainda é muito importante investir e pensar a longo prazo. Não se está em fase de colheita. Fazendo isso, algumas empresas conseguirão ganhar dinheiro, porque estão no caminho certo. Nós começamos a dar lucro há três anos. E somos uma empresa lucrativa desde então. Nos últimos três meses de 1999 tivemos faturamento de 200 milhões de dólares e lucro de 80 milhões. É uma marca muito boa para a internet. O Yahoo! tem sido um exemplo de que se pode crescer muito rapidamente como uma empresa na internet e apresentar possibilidades ainda melhores de crescimento.

Veja – Jovens empresas da internet estão abocanhando megacompanhias da área de mídia e entretenimento, em transações milionárias, virando a economia tradicional de cabeça para baixo. Quando haverá sossego nesse mercado?
Yang – É difícil dizer. Haverá ainda muita movimentação nos próximos anos. A internet continuará sendo o grande motor da economia. Nem sei se isso vai parar um dia. É só pensar como as tecnologias e os modelos de negócio estão mudando rápido. Quanta gente ainda não está fazendo comércio eletrônico? Quantos até o momento estão sem usar telefonia celular? Ainda existem tantas oportunidades! Nós temos de olhar todo o mundo, não só para a incorporação da Time Warner pela America Online, por exemplo. Quase todas as companhias que queiram ter futuro hoje em dia precisam estar na internet de alguma maneira. Pelo menos nos Estados Unidos não se pensa mais que a internet é coisa para gente jovem ou para divertimento. Não. Aqui é um negócio realmente sério.

Veja – Especula-se que o Yahoo! estaria para fechar uma aliança com a News Corporation, um dos maiores conglomerados globais de mídia, pertencente ao empresário Rupert Murdoch. Em que estágio estão essas negociações?
Yang – Não comento rumores. Nós estamos conversando com várias pessoas, mas não posso falar sobre nenhuma dessas conversas especificamente.

Veja – Ao se fundir com o grupo Time Warner, a America Online, que era apenas um provedor de acesso à internet, demonstrou claro desejo de ter algo mais a oferecer a seus usuários. Queria disponibilizar também entretenimento e conteúdo. Serão esses dois pólos os que mais seduzirão as pessoas que navegarão pela rede no futuro?
Yang – Vejo essa questão por três aspectos. Em primeiro lugar está o conteúdo, com notícias, esportes, entretenimento. Mas só o conteúdo não é suficiente. Nós também nos preocupamos com a comunicação, coisas como e-mail, salas de bate-papo, mensagens instantâneas e todos os serviços por meio dos quais as pessoas possam se comunicar. O terceiro item, é claro, é o comércio, porque as pessoas querem comprar ou vender coisas. É preciso haver esses três fatores no mundo virtual. É assim que ele se manterá.

Veja – É compreensível que, por uma questão de comodidade, uma pessoa faça compras na internet, sem ter de sair de casa, estacionar o carro, preencher um cheque. Mas na hora de buscar entretenimento, ela não vai preferir ir ao cinema ou a um parque de diversões?
Yang – A definição de entretenimento está mudando, e vai continuar se transformando enquanto eu e você vivermos. As pessoas costumam pensar que entretenimento é ir a um show, ver um filme ou ouvir música. Mas, se você prestar atenção nos jogos on-line, nos leilões on-line e até nas salas de bate-papo, verá que tudo isso também é entretenimento. Isso é o que excita a mim e às pessoas na internet: a possibilidade de redefinir o que é entretenimento. E amanhã pode surgir na rede alguma coisa que ninguém nunca pensou antes...

Veja – Três grandes indústrias automobilísticas – a Ford, a General Motors e a DaimlerChrysler – acabam de se juntar para vender peças de automóveis pela internet. Não é estranho que empresas concorrentes trabalhem juntas na rede? Elas estariam com medo de pisar sozinhas nesse novo terreno que é o mundo virtual?
Yang – Em algumas indústrias, na intenção de abranger o maior número de consumidores, algumas empresas precisam trabalhar em conjunto, sim, mesmo sendo de grupos concorrentes. Porque a infra-estrutura a ser montada, como no caso da indústria automobilística, exige muita cautela, especialmente aqui nos Estados Unidos, onde temos regras muito complicadas de revenda. Então, não acredito que eles estejam fazendo isso por medo, mas por acreditarem que essa é a melhor maneira de fazer tudo funcionar na internet. Por outro lado, isso acontece também porque a web está mudando as regras de competição entre as empresas. É que agora o consumidor está no comando. E quando isso acontece ele pode escolher, pesquisar preços, selecionar as melhores ofertas. Com a internet, ele tem o poder nas mãos na hora de comprar qualquer coisa.

Veja – Qual será a próxima onda da internet?
Yang – O acesso à rede pelo telefone celular. A rede é ainda apenas uma fração do que pode ser. No ano passado, trabalhamos muito procurando uma maneira de estar na internet não apenas através dos computadores pessoais, mas também através de outros aparelhos, como o telefone celular, a televisão e por aí vai. Boa parte dos 600 milhões de usuários que a rede terá daqui a quatro anos estará conectada à rede por algum utensílio que não o computador. O computador exige que as pessoas conheçam alguma coisa de tecnologia, e também, como se sabe, em muitos países pelo mundo, como na Ásia, o teclado não é uma coisa simples, por causa dos diferentes alfabetos que existem. Isso é um problema. Por essa razão, queremos usar aparelhos que não exijam muita tecnologia. Assim, poderemos tornar o acesso à internet ainda mais fácil. No futuro, com o celular na mão, seremos capazes de saber onde estamos numa cidade. Se você estiver andando por São Paulo e informar onde você está, o seu telefone, através da internet, poderá lhe dizer, por exemplo, onde, nos próximos 500 metros, tem uma lanchonete do McDonald's.

Veja – A internet mudou o comportamento de muita gente. Ganha-se tempo fazendo coisas na rede, como as compras do supermercado, mas será que as pessoas sabem o que fazer com o tempo livre que vai sobrar depois disso? Ou elas vão usar esse tempo para navegar ainda mais na rede?
Yang – Isso é um pouco filosófico, mas eu acho que os seres humanos são "animais sociais". Nós gostamos de estar perto de outros seres humanos. Realmente penso que a internet facilita a vida das pessoas. Então, elas podem passar mais tempo junto com a família, com os amigos, se divertindo. A maioria das pessoas acha que a internet é conveniente, as faz ganhar tempo e as ajuda a realizar coisas que, sem ela, seriam mais difíceis de ser feitas.

Veja – Há milhares de páginas circulando pela internet. Como decidir aquelas que constarão do cadastro do Yahoo!? Quais são os assuntos indesejados?
Yang – Nós não controlamos a internet; as pessoas têm o direito de publicar o que desejarem. Como um portal, temos a responsabilidade e a obrigação de checar se o conteúdo das páginas que oferecemos é bom. Usamos algumas regras básicas. A primeira é de que o conteúdo de um site tem de ser legal no nosso país. É claro que as leis são diferentes ao redor do mundo, mas, em geral, pedofilia não é legal; em alguns países pornografia não é legal; em outros, jogos de azar não são legais. Não fazemos nada que seja ilegal. A questão difícil é: aceitamos um site sobre um assunto que não é ilegal mas que é questionável, com temas como racismo, aborto, religião ou coisas assim? Sim, porque preferimos que as pessoas tenham um lugar onde possam expressar suas opiniões. Se excluímos as pessoas, não criamos diálogo. Nosso papel não é o de ser a polícia que vigia o conteúdo de um site. Queremos é criar um espaço onde as pessoas possam participar de debates inteligentes. Mesmo sobre assuntos controversos.

Veja – O senhor ficou milionário antes dos 30 anos de idade. Como isso mudou a sua vida?
Yang – Posso dizer que é muito bom ter dinheiro, mas esse não foi o motivo pelo qual nós começamos esta empresa. E, certamente, não é esse o motivo pelo qual eu continuo trabalhando. É claro que, com dinheiro, muitas coisas mudam, mas ter me casado e ter minha família perto de mim é muito mais importante, mesmo se eu não tivesse dinheiro. Cresci sem ter dinheiro e era muito feliz.