Entrevista

"Tem de dar lucro"
O criador do site mais visitado do mundo
diz que é muito mais fácil fracassar do
que ficar rico com a internet
Marcelo Camacho
No dia e hora marcados, o próprio Jerry Yang pegou o telefone
e ligou para a sucursal de VEJA no Rio de Janeiro. Ele havia
combinado uma entrevista sobre sua visita ao Brasil, programada
para esta terça-feira. Em quarenta minutos de conversa,
Yang fez o que mais gosta: falar do futuro do Yahoo!
Veja Dois anos atrás, o Yahoo! era uma companhia
que valia 5 bilhões de dólares. Hoje seu valor de mercado
é de quase 100 bilhões. Um crescimento num ritmo acelerado
como esse não é uma espécie de miragem insustentável?
Yang Se olharmos para o Yahoo! hoje, a maior parte
de nosso faturamento vem dos Estados Unidos, mas nossas
áreas de crescimento estão fora daqui, na Ásia e na América
Latina. Quando esses novos mercados começarem a amadurecer,
estaremos ainda mais bem posicionados. Quem pensa no Yahoo!
hoje não deve olhar só para o que está vendo agora, porque
isso tudo pode duplicar ou triplicar a cada ano.
Veja Muita gente tem a idéia de que para ganhar
dinheiro com a internet basta criar um site genial e esperar
algum tempo até que ele valha centenas de milhões de dólares.
Ainda há oportunidade de negócios assim na internet?
Yang Sim. A internet criou uma nova era
de empresários. São pessoas que querem iniciar sozinhas
seu próprio negócio. Isso é formidável. O lado ruim é que
tem gente pensando só no dinheiro. As pessoas que estão
na rede apenas por isso estão pelo motivo errado. Ter uma
grande idéia, fazer dela algo real, enfim, criar um bom
negócio é uma tarefa que requer muito trabalho duro e suor.
Costuma-se subestimar a freqüência com que se falha ao se
começar uma nova empresa. Há mais gente fracassando do que
ficando rica por aí.
Veja O senhor não sente um frio na espinha ao
lidar com um négócio que é virtual, em que não há nenhum
produto palpável para vender?
Yang Acho isso ótimo. Tudo o que fazemos
é eletrônico, e por isso acredito que temos um grande modelo
de negócio nas mãos. Não precisamos inventar produto algum
nem nos preocupar com questões de logística física. Somos
limitados apenas pelo que podemos criar. Essa é a melhor
forma de trabalhar. Pode até acontecer de os usuários em
algum momento preferirem outros sites de busca. Mas é assim
em qualquer tipo de negócio. Se ninguém comprar os carros
que você vende, seu negócio também vai acabar. Não tenho
medo por causa disso. Essas são as regras desse mercado,
temos de viver de acordo com elas.
Veja A maioria das empresas da internet não sabe
até hoje o que é lucro. Trabalham no vermelho com a aposta
de que em alguns anos reverterão esse quadro. Isso não é
perigoso?
Yang Sim, especialmente nos diferentes lugares
ao redor do mundo onde a internet está ficando muito quente
agora. Na Ásia, na América Latina e especialmente no Brasil,
onde todo mundo está na febre da internet, é bom que se
faça a seguinte pergunta: essas pessoas estão ingressando
na rede por acreditar que ela é um negócio real ou estão
apenas sendo levadas por uma onda de euforia? Porque a internet
funciona dentro da economia de mercado, sim, e precisa ser
lucrativa como indústria.
Veja Mas, mesmo nos Estados Unidos, gigantes
da internet, como a Amazon, ainda continuam sem dar lucro...
Yang Claro que algumas empresas da internet
nos Estados Unidos nunca vão ganhar dinheiro, e isso não
é bom. Atualmente, mesmo em mercados maduros como o americano,
nós continuamos investindo, construindo infra-estrutura.
Ainda é muito importante investir e pensar a longo prazo.
Não se está em fase de colheita. Fazendo isso, algumas empresas
conseguirão ganhar dinheiro, porque estão no caminho certo.
Nós começamos a dar lucro há três anos. E somos uma empresa
lucrativa desde então. Nos últimos três meses de 1999 tivemos
faturamento de 200 milhões de dólares e lucro de 80 milhões.
É uma marca muito boa para a internet. O Yahoo! tem sido
um exemplo de que se pode crescer muito rapidamente como
uma empresa na internet e apresentar possibilidades ainda
melhores de crescimento.
Veja Jovens empresas da internet estão abocanhando
megacompanhias da área de mídia e entretenimento, em transações
milionárias, virando a economia tradicional de cabeça para
baixo. Quando haverá sossego nesse mercado?
Yang É difícil dizer. Haverá ainda muita
movimentação nos próximos anos. A internet continuará sendo
o grande motor da economia. Nem sei se isso vai parar um
dia. É só pensar como as tecnologias e os modelos de negócio
estão mudando rápido. Quanta gente ainda não está fazendo
comércio eletrônico? Quantos até o momento estão sem usar
telefonia celular? Ainda existem tantas oportunidades! Nós
temos de olhar todo o mundo, não só para a incorporação
da Time Warner pela America Online, por exemplo. Quase todas
as companhias que queiram ter futuro hoje em dia precisam
estar na internet de alguma maneira. Pelo menos nos Estados
Unidos não se pensa mais que a internet é coisa para gente
jovem ou para divertimento. Não. Aqui é um negócio realmente
sério.
Veja Especula-se que o Yahoo! estaria para fechar
uma aliança com a News Corporation, um dos maiores conglomerados
globais de mídia, pertencente ao empresário Rupert Murdoch.
Em que estágio estão essas negociações?
Yang Não comento rumores. Nós estamos conversando
com várias pessoas, mas não posso falar sobre nenhuma dessas
conversas especificamente.
Veja Ao se fundir com o grupo Time Warner, a
America Online, que era apenas um provedor de acesso à internet,
demonstrou claro desejo de ter algo mais a oferecer a seus
usuários. Queria disponibilizar também entretenimento e
conteúdo. Serão esses dois pólos os que mais seduzirão as
pessoas que navegarão pela rede no futuro?
Yang Vejo essa questão por três aspectos.
Em primeiro lugar está o conteúdo, com notícias, esportes,
entretenimento. Mas só o conteúdo não é suficiente. Nós
também nos preocupamos com a comunicação, coisas como e-mail,
salas de bate-papo, mensagens instantâneas e todos os serviços
por meio dos quais as pessoas possam se comunicar. O terceiro
item, é claro, é o comércio, porque as pessoas querem comprar
ou vender coisas. É preciso haver esses três fatores no
mundo virtual. É assim que ele se manterá.
Veja É compreensível que, por uma questão de
comodidade, uma pessoa faça compras na internet, sem ter
de sair de casa, estacionar o carro, preencher um cheque.
Mas na hora de buscar entretenimento, ela não vai preferir
ir ao cinema ou a um parque de diversões?
Yang A definição de entretenimento está
mudando, e vai continuar se transformando enquanto eu e
você vivermos. As pessoas costumam pensar que entretenimento
é ir a um show, ver um filme ou ouvir música. Mas, se você
prestar atenção nos jogos on-line, nos leilões on-line e
até nas salas de bate-papo, verá que tudo isso também é
entretenimento. Isso é o que excita a mim e às pessoas na
internet: a possibilidade de redefinir o que é entretenimento.
E amanhã pode surgir na rede alguma coisa que ninguém nunca
pensou antes...
Veja Três grandes indústrias automobilísticas
a Ford, a General Motors e a DaimlerChrysler
acabam de se juntar para vender peças de automóveis pela
internet. Não é estranho que empresas concorrentes trabalhem
juntas na rede? Elas estariam com medo de pisar sozinhas
nesse novo terreno que é o mundo virtual?
Yang Em algumas indústrias, na intenção de
abranger o maior número de consumidores, algumas empresas
precisam trabalhar em conjunto, sim, mesmo sendo de grupos
concorrentes. Porque a infra-estrutura a ser montada, como
no caso da indústria automobilística, exige muita cautela,
especialmente aqui nos Estados Unidos, onde temos regras
muito complicadas de revenda. Então, não acredito que eles
estejam fazendo isso por medo, mas por acreditarem que essa
é a melhor maneira de fazer tudo funcionar na internet.
Por outro lado, isso acontece também porque a web está mudando
as regras de competição entre as empresas. É que agora o
consumidor está no comando. E quando isso acontece ele pode
escolher, pesquisar preços, selecionar as melhores ofertas.
Com a internet, ele tem o poder nas mãos na hora de comprar
qualquer coisa.
Veja Qual será a próxima onda da internet?
Yang O acesso à rede pelo telefone celular.
A rede é ainda apenas uma fração do que pode ser. No ano
passado, trabalhamos muito procurando uma maneira de estar
na internet não apenas através dos computadores pessoais,
mas também através de outros aparelhos, como o telefone
celular, a televisão e por aí vai. Boa parte dos 600 milhões
de usuários que a rede terá daqui a quatro anos estará conectada
à rede por algum utensílio que não o computador. O computador
exige que as pessoas conheçam alguma coisa de tecnologia,
e também, como se sabe, em muitos países pelo mundo, como
na Ásia, o teclado não é uma coisa simples, por causa dos
diferentes alfabetos que existem. Isso é um problema. Por
essa razão, queremos usar aparelhos que não exijam muita
tecnologia. Assim, poderemos tornar o acesso à internet
ainda mais fácil. No futuro, com o celular na mão, seremos
capazes de saber onde estamos numa cidade. Se você estiver
andando por São Paulo e informar onde você está, o seu telefone,
através da internet, poderá lhe dizer, por exemplo, onde,
nos próximos 500 metros, tem uma lanchonete do McDonald's.
Veja A internet mudou o comportamento de muita
gente. Ganha-se tempo fazendo coisas na rede, como as compras
do supermercado, mas será que as pessoas sabem o que fazer
com o tempo livre que vai sobrar depois disso? Ou elas vão
usar esse tempo para navegar ainda mais na rede?
Yang Isso é um pouco filosófico, mas eu acho
que os seres humanos são "animais sociais". Nós
gostamos de estar perto de outros seres humanos. Realmente
penso que a internet facilita a vida das pessoas. Então,
elas podem passar mais tempo junto com a família, com os
amigos, se divertindo. A maioria das pessoas acha que a
internet é conveniente, as faz ganhar tempo e as ajuda a
realizar coisas que, sem ela, seriam mais difíceis de ser
feitas.
Veja Há milhares de páginas circulando pela internet.
Como decidir aquelas que constarão do cadastro do Yahoo!?
Quais são os assuntos indesejados?
Yang Nós não controlamos a internet; as pessoas
têm o direito de publicar o que desejarem. Como um portal,
temos a responsabilidade e a obrigação de checar se o conteúdo
das páginas que oferecemos é bom. Usamos algumas regras
básicas. A primeira é de que o conteúdo de um site tem de
ser legal no nosso país. É claro que as leis são diferentes
ao redor do mundo, mas, em geral, pedofilia não é legal;
em alguns países pornografia não é legal; em outros, jogos
de azar não são legais. Não fazemos nada que seja ilegal.
A questão difícil é: aceitamos um site sobre um assunto
que não é ilegal mas que é questionável, com temas como
racismo, aborto, religião ou coisas assim? Sim, porque preferimos
que as pessoas tenham um lugar onde possam expressar suas
opiniões. Se excluímos as pessoas, não criamos diálogo.
Nosso papel não é o de ser a polícia que vigia o conteúdo
de um site. Queremos é criar um espaço onde as pessoas possam
participar de debates inteligentes. Mesmo sobre assuntos
controversos.
Veja O senhor ficou milionário antes dos 30 anos
de idade. Como isso mudou a sua vida?
Yang Posso dizer que é muito bom ter dinheiro,
mas esse não foi o motivo pelo qual nós começamos esta empresa.
E, certamente, não é esse o motivo pelo qual eu continuo
trabalhando. É claro que, com dinheiro, muitas coisas mudam,
mas ter me casado e ter minha família perto de mim é muito
mais importante, mesmo se eu não tivesse dinheiro. Cresci
sem ter dinheiro e era muito feliz.