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Chega ao Brasil o criador do site mais visitado
da rede e um dos
empresários-símbolo do século XXI
Ricardo Galuppo e Manoel Fernandes
O empresário Jerry Yang chega nesta
quarta-feira ao Brasil com o prestígio de quem, aos 31 anos,
já conquistou um lugar na história do século XXI. Mais do
que uma empresa de sucesso na internet, a Yahoo!, criada
por Yang e por seu sócio David Filo, tornou-se uma espécie
de rito de passagem para a nova economia. Há mais ou menos
cinco anos, os dois tiveram a idéia de lançar na rede um
guia on-line para as pessoas localizarem páginas na internet.
A idéia hoje é banal. Há cinco anos era revolucionária.
Ampliando a concepção original, a dupla conquistou na nascente
economia da internet um peso equivalente ao de Henry Ford
na indústria automobilística ou ao de Bill Gates no mundo
dos computadores pessoais. Ford não inventou o automóvel
mas o popularizou descobrindo uma maneira rápida e eficiente
de fabricá-lo. Gates desenvolveu o Windows, o sistema operacional
que tirou o computador do laboratório e das empresas e o
levou às casas. Yang e o sócio Filo pegaram o bonde da internet
andando. Enquanto a internet se transformava num trem- bala,
eles fizeram do Yahoo! parada obrigatória diária para mais
de 3 milhões de internautas em todo o mundo.
Há nos Estados Unidos dezenas de
companhias de internet que saíram do zero e passaram a valer
bilhões em poucos anos algumas em questão de meses. A
Priceline, um serviço de venda de passagens e pacotes turísticos,
tocada por apenas 190 funcionários, é um desses fenômenos.
Suas ações foram lançadas na bolsa há apenas um ano. Ela
vale hoje quase 14 bilhões de dólares. É um assombro quando
se compara a Priceline, por exemplo, com a Delta Airlines,
a companhia aérea americana maior do mundo em movimento
de passageiros, fundada em 1929 e com uma frota portentosa
de 780 jatos. Pois bem, a Delta vale "apenas"
6 bilhões de dólares. A companhia aérea que transporta milhões
de pessoas pelos quatro cantos do mundo vale, portanto,
menos da metade da recém-nascida Priceline e seus computadores
ligados na internet. Outro exemplo que já se tornou um clássico
da nova economia é o da livraria virtual Amazon. Aberta
há cinco anos, vale 21 bilhões de dólares. A Amazon é dezessete
vezes mais valiosa do que a Barnes & Noble, veneranda
rede de livrarias americana fundada em 1873. Pois bem, nesse
território de pioneiros bilionários da internet a Yahoo!
é a primeira da fila dourada. Nenhuma das concorrentes vale
tanto quanto ela: cerca de 100 bilhões de dólares. Depois
que a America Online se associou ao grupo Time Warner num
negócio de 180 bilhões de dólares, uma das maiores transações
comerciais da história, o mercado olha para o Yahoo! com
nervosismo.
A
empresa de Jerry Yang era maior do que a AOL nos meses que
antecederam a fusão. Yahoo! valia cerca de 95 bilhões de
dólares contra quase 90 bilhões da AOL. Agora Yahoo! está
sendo assediado por gigantes como a Ford, a General Motors
e o bilionário australiano da imprensa Rupert Murdoch. O
mercado dá como iminente um movimento espetacular do Yahoo!.
Especula-se que a empresa de Filo e Yang poderá comprar
a Disney ou mesmo se fundir com a Microsoft. "Não falo
sobre especulações", desconversa Yang.
O jovem empresário vem ao Brasil
dar uma palestra a estudantes universitários na sede da
Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e conversar com empresários.
É sua primeira visita ao país. Difícil acreditar que esse
garoto de ascendência asiática, míope, quase sempre metido
num par de jeans e camisa quadriculada, seja o epicentro
de uma revolução tecnológica e comercial tão profunda quanto
a internet. Falante como um bom vendedor e convicto como
um evangelista, Yang não se lembra de ter usado uma gravata
na vida. "Quando senti necessidade disso sugeri a David
Filo que era hora de contratarmos um presidente executivo
para a companhia", diz. Nascido em Taiwan, ele se mudou
ainda de calças curtas para a Califórnia com a mãe, um irmão
mais novo e a avó. O pai morreu quando ele tinha apenas
2 anos. Nos Estados Unidos, entrou na rotina de sacrifícios
e disciplina que marca a vida dos imigrantes asiáticos.
Naturalizou-se americano, mudou o nome Chia-Yuan para Jerry
e começou a trabalhar e estudar. Aluno brilhante, não teve
problemas para entrar no curso de engenharia elétrica da
Universidade Stanford, uma das cinco melhores dos Estados
Unidos. Jerry conheceu Filo na universidade, mas só se aproximou
dele em 1992, quando os dois passaram seis meses no Japão,
num programa de intercâmbio. Foi no Japão que Yang aprofundou
o gosto pelo sumô, seu esporte predileto, e conheceu Akiko,
sua mulher, descendente de japoneses criada na Costa Rica,
que também estudava em Stanford.
Henry Ford descobriu que o automóvel
só se popularizaria se fosse barato o bastante para que
o operário que o fabricava pudesse comprá-lo. Bill Gates
construiu sua fortuna inventando um sistema gráfico, o Windows,
que transformaria o computador num aparelho de uso doméstico.
Jerry Yang descobriu desde cedo que a internet só saltaria
com fúria das fronteiras da universidade se pudesse ser
organizada, indexada e pesquisada com facilidade. Ele acabou
fazendo com o conteúdo das páginas da internet o que a Enciclopédia
Britânica fizera séculos antes com o conhecimento acadêmico.
Colocou o internauta no controle. Essa é sua contribuição
básica. "O sistema de indexação e busca do Yahoo! permitiu
ao mais despreparado dos internautas navegar pela rede como
se tivesse um mapa nas mãos", diz Mike Moritz, o capitalista
que deu ao Yahoo! seu primeiro milhão de dólares.
Yang
descobriu a web no final de 1993, ainda na pré-história
da internet, quando se podiam visitar todas as suas páginas
em algumas horas de navegação. A idéia original e que se
tornaria bilionária nasceu exatamente nessa época, quando
era possível estocar a totalidade das páginas da rede num
único computador pessoal. Ele criou um serviço chamado O
Guia de Jerry para a World Wide Web, que ficava à disposição
dos alunos de Stanford no computador da escola. Quando o
guia virou uma febre entre os estudantes, ele e Filo deram-lhe
o nome com que se tornou uma marca mundial tão conhecida
na rede quanto a Coca-Cola no mundo real. Yahoo! é um termo
tirado da obra-prima Viagens de Gulliver, do genial
irlandês Jonathan Swift, que o utiliza como sinônimo de
pessoa rude, bruta, sem cultura. No oeste dos Estados Unidos
é uma interjeição usada pelos vaqueiros para demonstrar
excitação. Jerry e Filo gostam de dizer que Yahoo é uma
sigla para "yet another hierarchical officious oracle".
Numa tradução livre significa "mais um oráculo hierárquico
não oficial". Enfim, um nome pomposo para índice.
O primeiro ímpeto de Yang foi organizar
o caos. É exatamente o que o Yahoo! vem fazendo desde o
começo: pôr ordem na bagunça da internet, fazer um índice
dinâmico da rede, colocar toda a tonelagem de informação
ao alcance de um clique do mouse. Ele dividiu a internet
em cerca de 20.000 categorias e passou a indexar a rede
no ritmo de 150 novas páginas por dia. O Yahoo! cataloga
atualmente quase 20.000 páginas por semana. O resultado
é que todos os meses 100 milhões de usuários um em cada
três de todos os internautas do planeta fazem pelo menos
um "pit stop" no Yahoo! Não é por outra razão
que a empresa de Jerry Yang e David Filo é vista pelas megaempresas
da economia tradicional como uma espécie de portal de entrada
para a economia do futuro.
Ed Kashi
 |
| Vista aérea de San Jose,
no Vale do Silício: casas pelo dobro do preço
das de outras regiões americanas |
Jerry e Filo têm, cada um, cerca de 3% das ações do Yahoo!,
o que os diferencia de outras bilionárias companhias de
alta tecnologia e de internet cujos fundadores costumam
ser donos de mais da metade das ações. Isso foi imposição
de Moritz, o capitalista de risco, que achou melhor pulverizar
as ações do Yahoo! para o público de modo a tornar a companhia
mais atraente para os investidores. Com o Yahoo! cotado
a quase 100 bilhões de dólares, Jerry e Filo têm perto de
3 bilhões de dólares de fortuna pessoal cada um. É uma cifra
que impressiona pouco no mundo da alta tecnologia, em que
os vencedores contam suas fortunas em dezenas de bilhões,
mas já coloca ambos entre os dez bilionários americanos
com menos de 40 anos. A juventude é uma característica dos
empresários do Vale do Silício, na Califórnia. Nas companhias
de internet da região, os executivos comparecem ao trabalho
usando camisetas e vivem em casas que custam o dobro da
média de preço dos imóveis americanos.
Sem o tipo de orientação pioneira
proporcionada pelo Yahoo!, cuja presença no Brasil é ainda
pouco significativa, a internet seria um labirinto impenetrável.
Seria também inútil como ferramenta de comércio. Em cinco
anos, a empresa, que nasceu num trailer estacionado no pátio
da Universidade Stanford, na Califórnia, transformou-se
num colosso. Desde seu lançamento em bolsas as ações do
Yahoo! valorizaram-se mais de 6.000%. A história de sucesso
do Yahoo! é a chave para entender a transformação pela qual
está passando a economia mundial neste começo de milênio,
com a migração desordenada e em massa dos negócios para
a internet.
O Yahoo! parece ser nos Estados Unidos
o mais sólido ponto de encontro entre o velho e o novo mundo.
Na década passada, cerca de 250 ações ancoravam os índices
de valorização da Bolsa de Nova York. Eram ações de fábricas
de automóveis, de grandes redes de varejo, de companhias
de petróleo, de indústrias químicas, de bancos e de todas
as empresas convencionais, que ocupam prédios com placas
na porta e produzem ou vendem mercadorias que se podem tocar
com a mão. Para a cotação do mercado de ações subir ou cair
de forma significativa naquela época era preciso que houvesse
um movimento brusco e na mesma direção com os preços de
dezenas de papéis ao mesmo tempo. Hoje em dia, a direção
do índice da maior bolsa de valores do mundo depende de
apenas uma dúzia de ações, todas elas de empresas de alta
tecnologia. A queda ou a alta acentuada de duas ou três
delas é suficiente para determinar o fechamento em alta
ou em baixa.
"De certa forma a prosperidade
americana e, em boa parte, a economia mundial dependem hoje
do desempenho de meia dúzia de ações de empresas recém-nascidas
como o Yahoo!", diz Edward Chancellor, autor do livro
Devil Take the Hindmost (O Diabo Pega o Último da
Fila), um formidável relato das especulações financeiras
ao longo da História. O preço inflado das ações de empresas
de internet que nunca deram lucro, na perspectiva histórica
levantada por Chancellor, pode muito bem ser um episódio
de euforia ou de "exuberância irracional",
como descreveu Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco
central americano. Nessas situações, as pessoas compram
ações a um preço que sabem ser muito alto na certeza de
que vão encontrar dentro de algum tempo "um tolo ainda
mais tolo" pronto a pagar um preço mais elevado ainda
pelos mesmos papéis. Na história mundial das euforias as
crises ocorrem justamente quando esse "grande tolo"
não aparece e aí, sim, o diabo pega o último da fila. Quando
se discute agora se o mundo vive com a euforia das ações
de internet na bolsa americana uma bolha prestes a estourar,
o Yahoo! surge como um efeito tranqüilizador.
O que tornou o Yahoo! uma referência
é justamente o apego da companhia aos fundamentos da velha
e boa economia. "As empresas de internet não reinventaram
a economia. Elas têm de obedecer às mesmas leis de mercado",
disse Jerry Yang numa entrevista que concedeu a Marcelo
Camacho, de VEJA, publicada em quatro páginas no final desta
reportagem. O que mais chama a atenção no pensamento de
Jerry Yang é que, para ele, as empresas de internet não
pertencem a um mercado à parte daquele com o qual as pessoas
estão habituadas. Portanto, elas têm de dar lucro.
Ed Kashi
 |
| Escritório da
Netscape: ambiente de trabalho descontraído |
N
o mundo da economia formal, o valor
de mercado de uma montadora de automóveis ou de uma siderúrgica
pode ser medido por sua capacidade de gerar lucro. A lógica
no mundo virtual parece ser outra. Entre sua criação, em 1995,
e o ano passado, a livraria virtual Amazon acumulou 381 milhões
de dólares em prejuízos. Mesmo assim, ela vale mais de 20
bilhões de dólares. Ou seja, a Amazon vale quase 55 vezes
seu prejuízo. Há casos de empresas de internet que chegam
a valer trezentas vezes o prejuízo anual que geram. Num ambiente
assim, a empresa de Jerry Yang é uma ilha de solidez. Ela
dá lucro há três anos consecutivos. No último trimestre de
1999, teve uma receita de 200 milhões de dólares e lucro de
80 milhões. Isso representa uma margem espetacular de 40%,
que seria sucesso em qualquer economia tanto na do tijolo
e do átomo quanto na dos chips e bits. No Brasil, o Universo
Online, UOL, uma associação dos grupos Folha da Manhã e Abril,
que edita VEJA, persegue a mesma filosofia. Concentrando quase
a metade de todo o tráfego da internet brasileira, o UOL é
um dos raros empreendimentos lucrativos nessa área no país.
Talvez a certeza de encontrar no
Yahoo! gente capaz de compreender sua linguagem é que levou
capitalistas tradicionais a eleger a empresa de Jerry Yang
como uma espécie de guru sempre que têm algum assunto importante
a discutir no mundo digital. O presidente mundial da Ford,
Jacques Nasser, se apressou em firmar com o Yahoo! uma associação
para vender carros via web. Jack Welch, da General Electric,
considerado um dos maiores administradores de todos os tempos,
buscou aproximação com Filo e Yang como forma de "injetar
idéias novas na GE". A mais recente e insistente dessas
investidas está partindo de um dos maiores empresários de
comunicações do mundo, o australiano naturalizado americano
Rupert Murdoch. Dono de uma cadeia que inclui os diários
londrinos The Times e The Sun, emissoras de
TV e uma rede de satélites, Murdoch vem-se mostrando interessado
em encurtar seu caminho em direção à internet por intermédio
de uma associação com o Yahoo!. A aposta mais clara de investidores
como Murdoch é a possibilidade de expansão da rede que deve
ser aberta pela internet sem fio. Essa tecnologia, que vem
sendo apontada principalmente na Finlândia, é vista como
a grande oportunidade de crescimento acelerado da web em
países como o Brasil.
S
ão cada vez mais claros os sinais de
que o Brasil finalmente entrou na rota dos megainvestidores
da internet. O banco espanhol Santander anunciou na semana
passada a compra do Patagon, um site que presta informações
e serviços financeiros a internautas do Brasil, da Argentina,
de outros países da América Latina e da colônia hispânica
nos Estados Unidos. O mais surpreendente de tudo foi o valor
da transação. O próprio Santander avaliou o Patagon em 705
milhões de dólares e desembolsou 585 milhões pela maioria
das ações. Cerca de 25% permanecem em mãos dos sócios fundadores.
Há três meses, o mercado estimava o valor do serviço em 106
milhões de dólares.
O Softbank, do empresário japonês
Masayoshi Son, o maior investidor de risco em empresas de
internet do mundo, montou sua operação latino-americana
há apenas quarenta dias. Com 350 milhões de dólares em caixa
para investimento imediato e possibilidades enormes de triplicar
esses recursos caso seja necessário, o Softbank está operando
a todo o vapor. Neste momento, ele procura se entender com
oitenta empresas brasileiras que podem receber financiamento
caso provem ser viáveis. "Nossa principal meta para
a América Latina é ter uma participação expressiva no mercado
brasileiro", diz Yan Boyer, presidente da filial latino-americana
do Softbank.
Nunca antes a economia brasileira
havia contado com pessoas interessadas em colocar dinheiro
num negócio, a custo zero para quem pega a bolada, em troca
apenas de participação na sociedade. O que esse investidor
de risco ganha com isso? Bem, mais uma vez, é bom recorrer
ao exemplo do Yahoo!. Em 1995, esse mesmo Softbank que está
chegando agora ao Brasil investiu 350 milhões de dólares
em troca de uma participação de 30% no Yahoo!. Hoje, esses
30% valem 35 bilhões de dólares! O ganho foi de 10.000%
em cinco anos. É essa a lógica do mercado. Quem entra com
o dinheiro sabe que pode perder tudo. Mas também sabe que,
se ganhar, sairá com um lucro quase impossível de se obter
legalmente em outro tipo de investimento.
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