Edição 1 640 - 15/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Ruínas de Pompéia revelam hábitos sexuais dos romanos
Fumódromos viram ponto de encontro nas empresas
Spa gaúcho é considerado um dos dez melhores do mundo
Por que é tão difícil prever se vai chover amanhã
Aumentam as denúncias contra pais que espancam filhos
Jerry Yang, o mago da internet
filhos
Entrevista com Jerry Yang
Vem aí uma nova crise?
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Click de Midas

Leia também
Entrevista com Jerry Yang

Chega ao Brasil o criador do site mais visitado da rede e um dos
empresários-símbolo do século XXI

Ricardo Galuppo e Manoel Fernandes

O empresário Jerry Yang chega nesta quarta-feira ao Brasil com o prestígio de quem, aos 31 anos, já conquistou um lugar na história do século XXI. Mais do que uma empresa de sucesso na internet, a Yahoo!, criada por Yang e por seu sócio David Filo, tornou-se uma espécie de rito de passagem para a nova economia. Há mais ou menos cinco anos, os dois tiveram a idéia de lançar na rede um guia on-line para as pessoas localizarem páginas na internet. A idéia hoje é banal. Há cinco anos era revolucionária. Ampliando a concepção original, a dupla conquistou na nascente economia da internet um peso equivalente ao de Henry Ford na indústria automobilística ou ao de Bill Gates no mundo dos computadores pessoais. Ford não inventou o automóvel mas o popularizou descobrindo uma maneira rápida e eficiente de fabricá-lo. Gates desenvolveu o Windows, o sistema operacional que tirou o computador do laboratório e das empresas e o levou às casas. Yang e o sócio Filo pegaram o bonde da internet andando. Enquanto a internet se transformava num trem- bala, eles fizeram do Yahoo! parada obrigatória diária para mais de 3 milhões de internautas em todo o mundo.

Há nos Estados Unidos dezenas de companhias de internet que saíram do zero e passaram a valer bilhões em poucos anos – algumas em questão de meses. A Priceline, um serviço de venda de passagens e pacotes turísticos, tocada por apenas 190 funcionários, é um desses fenômenos. Suas ações foram lançadas na bolsa há apenas um ano. Ela vale hoje quase 14 bilhões de dólares. É um assombro quando se compara a Priceline, por exemplo, com a Delta Airlines, a companhia aérea americana maior do mundo em movimento de passageiros, fundada em 1929 e com uma frota portentosa de 780 jatos. Pois bem, a Delta vale "apenas" 6 bilhões de dólares. A companhia aérea que transporta milhões de pessoas pelos quatro cantos do mundo vale, portanto, menos da metade da recém-nascida Priceline e seus computadores ligados na internet. Outro exemplo que já se tornou um clássico da nova economia é o da livraria virtual Amazon. Aberta há cinco anos, vale 21 bilhões de dólares. A Amazon é dezessete vezes mais valiosa do que a Barnes & Noble, veneranda rede de livrarias americana fundada em 1873. Pois bem, nesse território de pioneiros bilionários da internet a Yahoo! é a primeira da fila dourada. Nenhuma das concorrentes vale tanto quanto ela: cerca de 100 bilhões de dólares. Depois que a America Online se associou ao grupo Time Warner num negócio de 180 bilhões de dólares, uma das maiores transações comerciais da história, o mercado olha para o Yahoo! com nervosismo.

A empresa de Jerry Yang era maior do que a AOL nos meses que antecederam a fusão. Yahoo! valia cerca de 95 bilhões de dólares contra quase 90 bilhões da AOL. Agora Yahoo! está sendo assediado por gigantes como a Ford, a General Motors e o bilionário australiano da imprensa Rupert Murdoch. O mercado dá como iminente um movimento espetacular do Yahoo!. Especula-se que a empresa de Filo e Yang poderá comprar a Disney ou mesmo se fundir com a Microsoft. "Não falo sobre especulações", desconversa Yang.

O jovem empresário vem ao Brasil dar uma palestra a estudantes universitários na sede da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e conversar com empresários. É sua primeira visita ao país. Difícil acreditar que esse garoto de ascendência asiática, míope, quase sempre metido num par de jeans e camisa quadriculada, seja o epicentro de uma revolução tecnológica e comercial tão profunda quanto a internet. Falante como um bom vendedor e convicto como um evangelista, Yang não se lembra de ter usado uma gravata na vida. "Quando senti necessidade disso sugeri a David Filo que era hora de contratarmos um presidente executivo para a companhia", diz. Nascido em Taiwan, ele se mudou ainda de calças curtas para a Califórnia com a mãe, um irmão mais novo e a avó. O pai morreu quando ele tinha apenas 2 anos. Nos Estados Unidos, entrou na rotina de sacrifícios e disciplina que marca a vida dos imigrantes asiáticos. Naturalizou-se americano, mudou o nome Chia-Yuan para Jerry e começou a trabalhar e estudar. Aluno brilhante, não teve problemas para entrar no curso de engenharia elétrica da Universidade Stanford, uma das cinco melhores dos Estados Unidos. Jerry conheceu Filo na universidade, mas só se aproximou dele em 1992, quando os dois passaram seis meses no Japão, num programa de intercâmbio. Foi no Japão que Yang aprofundou o gosto pelo sumô, seu esporte predileto, e conheceu Akiko, sua mulher, descendente de japoneses criada na Costa Rica, que também estudava em Stanford.

Henry Ford descobriu que o automóvel só se popularizaria se fosse barato o bastante para que o operário que o fabricava pudesse comprá-lo. Bill Gates construiu sua fortuna inventando um sistema gráfico, o Windows, que transformaria o computador num aparelho de uso doméstico. Jerry Yang descobriu desde cedo que a internet só saltaria com fúria das fronteiras da universidade se pudesse ser organizada, indexada e pesquisada com facilidade. Ele acabou fazendo com o conteúdo das páginas da internet o que a Enciclopédia Britânica fizera séculos antes com o conhecimento acadêmico. Colocou o internauta no controle. Essa é sua contribuição básica. "O sistema de indexação e busca do Yahoo! permitiu ao mais despreparado dos internautas navegar pela rede como se tivesse um mapa nas mãos", diz Mike Moritz, o capitalista que deu ao Yahoo! seu primeiro milhão de dólares.

Yang descobriu a web no final de 1993, ainda na pré-história da internet, quando se podiam visitar todas as suas páginas em algumas horas de navegação. A idéia original e que se tornaria bilionária nasceu exatamente nessa época, quando era possível estocar a totalidade das páginas da rede num único computador pessoal. Ele criou um serviço chamado O Guia de Jerry para a World Wide Web, que ficava à disposição dos alunos de Stanford no computador da escola. Quando o guia virou uma febre entre os estudantes, ele e Filo deram-lhe o nome com que se tornou uma marca mundial tão conhecida na rede quanto a Coca-Cola no mundo real. Yahoo! é um termo tirado da obra-prima Viagens de Gulliver, do genial irlandês Jonathan Swift, que o utiliza como sinônimo de pessoa rude, bruta, sem cultura. No oeste dos Estados Unidos é uma interjeição usada pelos vaqueiros para demonstrar excitação. Jerry e Filo gostam de dizer que Yahoo é uma sigla para "yet another hierarchical officious oracle". Numa tradução livre significa "mais um oráculo hierárquico não oficial". Enfim, um nome pomposo para índice.

O primeiro ímpeto de Yang foi organizar o caos. É exatamente o que o Yahoo! vem fazendo desde o começo: pôr ordem na bagunça da internet, fazer um índice dinâmico da rede, colocar toda a tonelagem de informação ao alcance de um clique do mouse. Ele dividiu a internet em cerca de 20.000 categorias e passou a indexar a rede no ritmo de 150 novas páginas por dia. O Yahoo! cataloga atualmente quase 20.000 páginas por semana. O resultado é que todos os meses 100 milhões de usuários – um em cada três de todos os internautas do planeta – fazem pelo menos um "pit stop" no Yahoo! Não é por outra razão que a empresa de Jerry Yang e David Filo é vista pelas megaempresas da economia tradicional como uma espécie de portal de entrada para a economia do futuro.

Ed Kashi
Vista aérea de San Jose, no Vale do Silício: casas pelo dobro do preço das de outras regiões americanas


Jerry e Filo têm, cada um, cerca de 3% das ações do Yahoo!, o que os diferencia de outras bilionárias companhias de alta tecnologia e de internet cujos fundadores costumam ser donos de mais da metade das ações. Isso foi imposição de Moritz, o capitalista de risco, que achou melhor pulverizar as ações do Yahoo! para o público de modo a tornar a companhia mais atraente para os investidores. Com o Yahoo! cotado a quase 100 bilhões de dólares, Jerry e Filo têm perto de 3 bilhões de dólares de fortuna pessoal cada um. É uma cifra que impressiona pouco no mundo da alta tecnologia, em que os vencedores contam suas fortunas em dezenas de bilhões, mas já coloca ambos entre os dez bilionários americanos com menos de 40 anos. A juventude é uma característica dos empresários do Vale do Silício, na Califórnia. Nas companhias de internet da região, os executivos comparecem ao trabalho usando camisetas e vivem em casas que custam o dobro da média de preço dos imóveis americanos.

Sem o tipo de orientação pioneira proporcionada pelo Yahoo!, cuja presença no Brasil é ainda pouco significativa, a internet seria um labirinto impenetrável. Seria também inútil como ferramenta de comércio. Em cinco anos, a empresa, que nasceu num trailer estacionado no pátio da Universidade Stanford, na Califórnia, transformou-se num colosso. Desde seu lançamento em bolsas as ações do Yahoo! valorizaram-se mais de 6.000%. A história de sucesso do Yahoo! é a chave para entender a transformação pela qual está passando a economia mundial neste começo de milênio, com a migração desordenada e em massa dos negócios para a internet.

O Yahoo! parece ser nos Estados Unidos o mais sólido ponto de encontro entre o velho e o novo mundo. Na década passada, cerca de 250 ações ancoravam os índices de valorização da Bolsa de Nova York. Eram ações de fábricas de automóveis, de grandes redes de varejo, de companhias de petróleo, de indústrias químicas, de bancos e de todas as empresas convencionais, que ocupam prédios com placas na porta e produzem ou vendem mercadorias que se podem tocar com a mão. Para a cotação do mercado de ações subir ou cair de forma significativa naquela época era preciso que houvesse um movimento brusco e na mesma direção com os preços de dezenas de papéis ao mesmo tempo. Hoje em dia, a direção do índice da maior bolsa de valores do mundo depende de apenas uma dúzia de ações, todas elas de empresas de alta tecnologia. A queda ou a alta acentuada de duas ou três delas é suficiente para determinar o fechamento em alta ou em baixa.

"De certa forma a prosperidade americana e, em boa parte, a economia mundial dependem hoje do desempenho de meia dúzia de ações de empresas recém-nascidas como o Yahoo!", diz Edward Chancellor, autor do livro Devil Take the Hindmost (O Diabo Pega o Último da Fila), um formidável relato das especulações financeiras ao longo da História. O preço inflado das ações de empresas de internet que nunca deram lucro, na perspectiva histórica levantada por Chancellor, pode muito bem ser um episódio de euforia – ou de "exuberância irracional", como descreveu Alan Greenspan, presidente do Fed, o banco central americano. Nessas situações, as pessoas compram ações a um preço que sabem ser muito alto na certeza de que vão encontrar dentro de algum tempo "um tolo ainda mais tolo" pronto a pagar um preço mais elevado ainda pelos mesmos papéis. Na história mundial das euforias as crises ocorrem justamente quando esse "grande tolo" não aparece e aí, sim, o diabo pega o último da fila. Quando se discute agora se o mundo vive com a euforia das ações de internet na bolsa americana uma bolha prestes a estourar, o Yahoo! surge como um efeito tranqüilizador.

O que tornou o Yahoo! uma referência é justamente o apego da companhia aos fundamentos da velha e boa economia. "As empresas de internet não reinventaram a economia. Elas têm de obedecer às mesmas leis de mercado", disse Jerry Yang numa entrevista que concedeu a Marcelo Camacho, de VEJA, publicada em quatro páginas no final desta reportagem. O que mais chama a atenção no pensamento de Jerry Yang é que, para ele, as empresas de internet não pertencem a um mercado à parte daquele com o qual as pessoas estão habituadas. Portanto, elas têm de dar lucro.

Ed Kashi
Escritório da Netscape: ambiente de trabalho descontraído

No mundo da economia formal, o valor de mercado de uma montadora de automóveis ou de uma siderúrgica pode ser medido por sua capacidade de gerar lucro. A lógica no mundo virtual parece ser outra. Entre sua criação, em 1995, e o ano passado, a livraria virtual Amazon acumulou 381 milhões de dólares em prejuízos. Mesmo assim, ela vale mais de 20 bilhões de dólares. Ou seja, a Amazon vale quase 55 vezes seu prejuízo. Há casos de empresas de internet que chegam a valer trezentas vezes o prejuízo anual que geram. Num ambiente assim, a empresa de Jerry Yang é uma ilha de solidez. Ela dá lucro há três anos consecutivos. No último trimestre de 1999, teve uma receita de 200 milhões de dólares e lucro de 80 milhões. Isso representa uma margem espetacular de 40%, que seria sucesso em qualquer economia – tanto na do tijolo e do átomo quanto na dos chips e bits. No Brasil, o Universo Online, UOL, uma associação dos grupos Folha da Manhã e Abril, que edita VEJA, persegue a mesma filosofia. Concentrando quase a metade de todo o tráfego da internet brasileira, o UOL é um dos raros empreendimentos lucrativos nessa área no país.

Talvez a certeza de encontrar no Yahoo! gente capaz de compreender sua linguagem é que levou capitalistas tradicionais a eleger a empresa de Jerry Yang como uma espécie de guru sempre que têm algum assunto importante a discutir no mundo digital. O presidente mundial da Ford, Jacques Nasser, se apressou em firmar com o Yahoo! uma associação para vender carros via web. Jack Welch, da General Electric, considerado um dos maiores administradores de todos os tempos, buscou aproximação com Filo e Yang como forma de "injetar idéias novas na GE". A mais recente e insistente dessas investidas está partindo de um dos maiores empresários de comunicações do mundo, o australiano naturalizado americano Rupert Murdoch. Dono de uma cadeia que inclui os diários londrinos The Times e The Sun, emissoras de TV e uma rede de satélites, Murdoch vem-se mostrando interessado em encurtar seu caminho em direção à internet por intermédio de uma associação com o Yahoo!. A aposta mais clara de investidores como Murdoch é a possibilidade de expansão da rede que deve ser aberta pela internet sem fio. Essa tecnologia, que vem sendo apontada principalmente na Finlândia, é vista como a grande oportunidade de crescimento acelerado da web em países como o Brasil.

São cada vez mais claros os sinais de que o Brasil finalmente entrou na rota dos megainvestidores da internet. O banco espanhol Santander anunciou na semana passada a compra do Patagon, um site que presta informações e serviços financeiros a internautas do Brasil, da Argentina, de outros países da América Latina e da colônia hispânica nos Estados Unidos. O mais surpreendente de tudo foi o valor da transação. O próprio Santander avaliou o Patagon em 705 milhões de dólares e desembolsou 585 milhões pela maioria das ações. Cerca de 25% permanecem em mãos dos sócios fundadores. Há três meses, o mercado estimava o valor do serviço em 106 milhões de dólares.

O Softbank, do empresário japonês Masayoshi Son, o maior investidor de risco em empresas de internet do mundo, montou sua operação latino-americana há apenas quarenta dias. Com 350 milhões de dólares em caixa para investimento imediato e possibilidades enormes de triplicar esses recursos caso seja necessário, o Softbank está operando a todo o vapor. Neste momento, ele procura se entender com oitenta empresas brasileiras que podem receber financiamento caso provem ser viáveis. "Nossa principal meta para a América Latina é ter uma participação expressiva no mercado brasileiro", diz Yan Boyer, presidente da filial latino-americana do Softbank.

Nunca antes a economia brasileira havia contado com pessoas interessadas em colocar dinheiro num negócio, a custo zero para quem pega a bolada, em troca apenas de participação na sociedade. O que esse investidor de risco ganha com isso? Bem, mais uma vez, é bom recorrer ao exemplo do Yahoo!. Em 1995, esse mesmo Softbank que está chegando agora ao Brasil investiu 350 milhões de dólares em troca de uma participação de 30% no Yahoo!. Hoje, esses 30% valem 35 bilhões de dólares! O ganho foi de 10.000% em cinco anos. É essa a lógica do mercado. Quem entra com o dinheiro sabe que pode perder tudo. Mas também sabe que, se ganhar, sairá com um lucro quase impossível de se obter legalmente em outro tipo de investimento.

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  FiqueiRico.com.br
  O mouse que ruge
  Ações pela internet
Da internet
  www.yahoo.com
  www.softbank.com
  www.nasdaq.com

 
Jerry Yang (em pé) e David Filo, os criadores do Yahoo!: 100 milhões de visitantes por mês