Edição 1 640 - 15/3/2000

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Nicéa ataca o ex-marido Celso Pitta
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Bomba atômica

Nicéa, ex-mulher do prefeito de São Paulo,
Celso Pitta, diz na Globo que ele está
mergulhado num mar de corrupção

 
Renata Ursaia
Pitta: compra de vereadores e concorrências públicas com cartas marcadas

Não se via nada assim desde que Pedro Collor denunciou o irmão presidente. Na noite da sexta-feira da semana passada, a Rede Globo levou ao ar uma entrevista bombástica com Nicéa Pitta, a ex-mulher do prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Separado desde o ano passado, o casal passou algum tempo trocando pequenas farpas pela imprensa, ensaiou uma reconciliação, mas a relação dos dois chegou ao fim quando o prefeito iniciou um processo de separação litigioso. Na entrevista à Globo, apresentada no Jornal Nacional e, com mais detalhes, no Globo Repórter, Nicéa faz denúncias espantosas a respeito da administração do ex-marido. Segundo ela, Pitta conseguiu encerrar uma CPI que poderia terminar com um processo de impeachment distribuindo dinheiro aos vereadores que o apoiassem. Nicéa não informou quais foram os vereadores que receberam dinheiro nem disse quanto cada um deles recebeu. Apenas assegura que os valores foram altos. "Eles são muito gananciosos", contou. O intermediário da operação, segundo ela, foi o presidente da Câmara Municipal, Armando Mellão. Ele se entendia com o secretário de governo de Pitta, Carlos Augusto Meinberg. O prefeito não participava diretamente das negociações, mas Nicéa garante: "Ele sabia de tudo".

A CPI que Pitta queria interromper investigava denúncias de fraude nas administrações regionais da prefeitura. As regionais são órgãos públicos que têm a atribuição de conceder alvarás, fiscalizar a execução de obras e cuidar da limpeza e manutenção de prédios e vias públicas. As denúncias contra fiscais corruptos eram recebidas às dezenas pelos vereadores encarregados da investigação. Logo surgiram acusações de que vereadores estariam no comando do esquema de propinas e que cobravam comissões gordas sobre o dinheiro arrancado ilegalmente de comerciantes e camelôs em situação irregular. O Ministério Público entrou na apuração das denúncias e a polícia montou uma força-tarefa para investigar os casos. Dois vereadores acabaram presos, Vicente Viscome e Maria Helena, ambos integrantes da bancada de apoio ao prefeito. Outros dois vereadores responderam a processos de cassação. Dos 55 vereadores, dezessete ainda estão sendo investigados – todos governistas. Vencido o prazo legal de funcionamento, a oposição tentou prorrogar a CPI, mas foi derrotada pelos partidários do prefeito. Com o fim dos trabalhos, muitas das denúncias que falavam do envolvimento de Celso Pitta não foram apuradas. De acordo com Nicéa, durante a negociação com os vereadores para interromper as investigações, Pitta chegou a dizer a frase: "Não há dinheiro que chegue para eles".

Ao fazer sua denúncia à Globo, Nicéa não sugeriu, em momento algum, que nada soubesse sobre as irregularidades envolvendo o marido. Ao contrário. Disse na entrevista, com todas as letras, que estava devidamente informada sobre os rumos das negociações. A diferença entre os dois, contou, é que Pitta concordou calmamente com a corrupção, afirmando que não podia mudar coisas arraigadas que vinham acontecendo muito tempo antes de sua gestão. Já ela pensou numa saída. Sugeriu a Pitta arrumar uma câmara de vídeo e, no apartamento do casal, gravar conversas com os vereadores sobre dinheiro. Quando eles fossem receber o valor combinado, a Polícia Federal estaria lá para prendê-los. Pitta não aceitou a proposta, diz a ex-mulher. Argumentou que nem ele nem ela tinham poder para mudar um sistema que já funcionava na administração do antecessor, Paulo Maluf, e seu secretário de governo, Edevaldo Alves da Silva. E de onde saía o dinheiro para o pagamento dos vereadores? Nicéa conta que da prefeitura não era. Provavelmente de empresas que prestavam serviços para a administração municipal, disse.

 
Eduardo Albarello
Armando Mellão: acusado de ser o intermediário entre os vereadores e a prefeitura

A passagem de Celso Pitta pela vida pública sempre esteve marcada por denúncias. E muitas delas também envolvendo Nicéa. Quando ele era secretário das Finanças de Paulo Maluf, de onde saiu para ser prefeito, certa vez o casal passou duas semanas a bordo de um Tempra alugado. A conta, motorista incluído, foi paga pelo Banco Vetor – justamente a instituição que negociava milhões de reais em títulos precatórios da prefeitura. Como Celso Pitta era o secretário responsável pela emissão dos títulos, o presente foi tido pelos procuradores que investigavam o caso como um indício de crime de corrupção passiva. Nicéa também trabalhou para uma empresa que fornecia frango em pedaços para a prefeitura, A D'Oro. Essa empresa, que é do cunhado do ex-prefeito Paulo Maluf, venceu concorrência pública para fornecer 300 toneladas de frango por mês para o departamento de merenda escolar da prefeitura. Na mesma época, segundo seu próprio relato, Nicéa vendia frangos a restaurantes chiques de São Paulo. Na entrevista, Nicéa não se restringiu à denúncia de compra de vereadores. Ela acusou o secretário da Saúde municipal, Jorge Pagura, de montar um esquema com seu chefe de gabinete e os fornecedores para desviar 25% do dinheiro gasto com a compra de remédios. Também afirmou que, sob a gestão Pagura, um dos hospitais municipais estava trocando cirurgias plásticas por votos.

Quando se lê uma denúncia sobre uma prefeitura qualquer, os valores envolvidos em geral são irrisórios. Com a prefeitura de São Paulo, a história é outra. O orçamento para o ano 2000 prevê gastos superiores a 7 bilhões de reais. É o terceiro maior do país. Só perde para o Orçamento da União e do governo do Estado de São Paulo. Isso significa dizer que ela lida com somas maiores do que todos os outros Estados brasileiros. Além disso, por ser muito rica, a prefeitura paulistana mantém ligações com grandes empresários e políticos de todo o país. Dois alvos dos ataques de Nicéa Pitta são os senadores Gilberto Miranda e Antonio Carlos Magalhães, atual presidente do Senado. A ex-primeira-dama do município de São Paulo não acusa os senadores de corrupção, mas diz que ambos se movimentaram para garantir que a prefeitura pagasse dívidas de uma empreiteira, a OAS, ligada a um genro de ACM. Miranda, afirma Nicéa, funcionava como agente dos interesses de ACM. Na noite de sexta-feira, ACM desmentiu qualquer contato com a prefeitura e, bem ao seu estilo, declarou que jamais manteve contatos com o "prostíbulo" que é a família Pitta.

 
Egberto Nogueira
Paulo Maluf, padrinho político de Celso Pitta: a ex-mulher do prefeito afirma que o esquema já existia na administração anterior

Um capítulo especial da entrevista é dedicado às relações entre Pitta e seu padrinho político, Paulo Maluf, com quem o prefeito está oficialmente brigado. Nicéa garante que a briga é de fachada, pois os dois já se reconciliaram graças à intermediação do investidor Naji Nahas. Segundo Nicéa, numa das conversas entre Nahas e Pitta para tentar a reaproximação, o investidor lhe aconselhou a fazer caixa de campanha. Nicéa diz na entrevista suspeitar de que seu marido começou a administrar a prefeitura honestamente, mas se deixou envolver na corrupção logo depois. E dá um exemplo familiar. O filho do casal, que estava em Nova York, ligou pedindo dinheiro para o pai. Quando recebeu a ordem de pagamento no valor de 5.000 dólares, o rapaz leu o nome do pianista João Carlos Martins como emitente. Para quem não se recorda, Martins foi alvo de uma pesada investigação anos atrás, pois sua empresa, a Pau Brasil, emitia notas frias para empresas que ajudavam a campanha de Paulo Maluf.

Depois de assistir às denúncias, o prefeito de São Paulo divulgou uma nota à imprensa assinada pelo secretário de Comunicação Social, Antenor Braido. "É lamentável que uma pessoa fora de seu estado normal e atravessando um momento muito difícil, pelo qual o prefeito tem todo o respeito, seja usada pelo apresentador de TV Chico Pinheiro em seu delírio de acusações desprovidas de qualquer fundamento, prova ou indício", diz a nota. E encerra: "Na verdade, o depoimento isenta o prefeito. Mas o programa usa o expediente de requentar o noticiário do passado para colocar o nome de Pitta, com todas as letras, que são poucas mas honradas, como se fora praticante de ato ilícito".

 

Sérgio Castro/AE
Vereadores paulistanos: segundo Nicéa, eles receberam propina para colocar um ponto final na CPI que ameaçava Pitta


Oito anos antes de Nicéa Pitta contar as negociatas em que, segundo ela, seu marido está envolvido, outra série de confissões oriunda da intimidade dos protagonistas detonou o processo que resultou no impeachment do presidente Fernando Collor. Em entrevista exclusiva a VEJA, em maio de 1992, Pedro Collor acusou seu irmão, o presidente da República, de manter uma sociedade com Paulo César Farias, o PC, para tomar dinheiro de empresários e vender favores no governo. Administrador da empresa de comunicação da família em Maceió, ele rompeu com o irmão ao saber que PC pretendia criar um jornal concorrente em Alagoas. Pedro vinha recolhendo informações e juntando documentos sobre as atividades de PC desde o final do ano anterior. Muitas denúncias foram feitas desde então e algumas, pesadíssimas, resultaram em cassações e prisões de políticos. Mas nenhum caso se parece mais com o "irmão denuncia irmão" de Pedro Collor do que esta história de Nicéa Pitta, em que a própria ex-mulher diz que o marido está engolfado num mar de corrupção.