Bomba atômica
Nicéa, ex-mulher do prefeito de São
Paulo,
Celso Pitta, diz na Globo que ele está
mergulhado num mar de corrupção
Renata Ursaia
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| Pitta: compra de
vereadores e concorrências públicas com
cartas marcadas |
Não se via nada assim desde que Pedro Collor denunciou
o irmão presidente. Na noite da sexta-feira da semana
passada, a Rede Globo levou ao ar uma entrevista bombástica
com Nicéa Pitta, a ex-mulher do prefeito de São
Paulo, Celso Pitta. Separado desde o ano passado, o casal
passou algum tempo trocando pequenas farpas pela imprensa,
ensaiou uma reconciliação, mas a relação
dos dois chegou ao fim quando o prefeito iniciou um processo
de separação litigioso. Na entrevista à
Globo, apresentada no Jornal Nacional e, com mais
detalhes, no Globo Repórter, Nicéa
faz denúncias espantosas a respeito da administração
do ex-marido. Segundo ela, Pitta conseguiu encerrar uma
CPI que poderia terminar com um processo de impeachment
distribuindo dinheiro aos vereadores que o apoiassem. Nicéa
não informou quais foram os vereadores que receberam
dinheiro nem disse quanto cada um deles recebeu. Apenas
assegura que os valores foram altos. "Eles são muito
gananciosos", contou. O intermediário da operação,
segundo ela, foi o presidente da Câmara Municipal,
Armando Mellão. Ele se entendia com o secretário
de governo de Pitta, Carlos Augusto Meinberg. O prefeito
não participava diretamente das negociações,
mas Nicéa garante: "Ele sabia de tudo".
A CPI que Pitta queria interromper investigava denúncias
de fraude nas administrações regionais da
prefeitura. As regionais são órgãos
públicos que têm a atribuição
de conceder alvarás, fiscalizar a execução
de obras e cuidar da limpeza e manutenção
de prédios e vias públicas. As denúncias
contra fiscais corruptos eram recebidas às dezenas
pelos vereadores encarregados da investigação.
Logo surgiram acusações de que vereadores
estariam no comando do esquema de propinas e que cobravam
comissões gordas sobre o dinheiro arrancado ilegalmente
de comerciantes e camelôs em situação
irregular. O Ministério Público entrou na
apuração das denúncias e a polícia
montou uma força-tarefa para investigar os casos.
Dois vereadores acabaram presos, Vicente Viscome e Maria
Helena, ambos integrantes da bancada de apoio ao prefeito.
Outros dois vereadores responderam a processos de cassação.
Dos 55 vereadores, dezessete ainda estão sendo investigados
todos governistas. Vencido o prazo legal de funcionamento,
a oposição tentou prorrogar a CPI, mas foi
derrotada pelos partidários do prefeito. Com o fim
dos trabalhos, muitas das denúncias que falavam do
envolvimento de Celso Pitta não foram apuradas. De
acordo com Nicéa, durante a negociação
com os vereadores para interromper as investigações,
Pitta chegou a dizer a frase: "Não há dinheiro
que chegue para eles".
Ao fazer sua denúncia à Globo, Nicéa
não sugeriu, em momento algum, que nada soubesse
sobre as irregularidades envolvendo o marido. Ao contrário.
Disse na entrevista, com todas as letras, que estava devidamente
informada sobre os rumos das negociações.
A diferença entre os dois, contou, é que Pitta
concordou calmamente com a corrupção, afirmando
que não podia mudar coisas arraigadas que vinham
acontecendo muito tempo antes de sua gestão. Já
ela pensou numa saída. Sugeriu a Pitta arrumar uma
câmara de vídeo e, no apartamento do casal,
gravar conversas com os vereadores sobre dinheiro. Quando
eles fossem receber o valor combinado, a Polícia
Federal estaria lá para prendê-los. Pitta não
aceitou a proposta, diz a ex-mulher. Argumentou que nem
ele nem ela tinham poder para mudar um sistema que já
funcionava na administração do antecessor,
Paulo Maluf, e seu secretário de governo, Edevaldo
Alves da Silva. E de onde saía o dinheiro para o
pagamento dos vereadores? Nicéa conta que da prefeitura
não era. Provavelmente de empresas que prestavam
serviços para a administração municipal,
disse.
Eduardo Albarello
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| Armando
Mellão: acusado de ser o intermediário
entre os vereadores e a prefeitura
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A passagem de Celso Pitta pela vida pública sempre
esteve marcada por denúncias. E muitas delas também
envolvendo Nicéa. Quando ele era secretário
das Finanças de Paulo Maluf, de onde saiu para ser
prefeito, certa vez o casal passou duas semanas a bordo
de um Tempra alugado. A conta, motorista incluído,
foi paga pelo Banco Vetor justamente a instituição
que negociava milhões de reais em títulos
precatórios da prefeitura. Como Celso Pitta era o
secretário responsável pela emissão
dos títulos, o presente foi tido pelos procuradores
que investigavam o caso como um indício de crime
de corrupção passiva. Nicéa também
trabalhou para uma empresa que fornecia frango em pedaços
para a prefeitura, A D'Oro. Essa empresa, que é do
cunhado do ex-prefeito Paulo Maluf, venceu concorrência
pública para fornecer 300 toneladas de frango por
mês para o departamento de merenda escolar da prefeitura.
Na mesma época, segundo seu próprio relato,
Nicéa vendia frangos a restaurantes chiques de São
Paulo. Na entrevista, Nicéa não se restringiu
à denúncia de compra de vereadores. Ela acusou
o secretário da Saúde municipal, Jorge Pagura,
de montar um esquema com seu chefe de gabinete e os fornecedores
para desviar 25% do dinheiro gasto com a compra de remédios.
Também afirmou que, sob a gestão Pagura, um
dos hospitais municipais estava trocando cirurgias plásticas
por votos.
Quando se lê uma denúncia sobre uma prefeitura
qualquer, os valores envolvidos em geral são irrisórios.
Com a prefeitura de São Paulo, a história
é outra. O orçamento para o ano 2000 prevê
gastos superiores a 7 bilhões de reais. É
o terceiro maior do país. Só perde para o
Orçamento da União e do governo do Estado
de São Paulo. Isso significa dizer que ela lida com
somas maiores do que todos os outros Estados brasileiros.
Além disso, por ser muito rica, a prefeitura paulistana
mantém ligações com grandes empresários
e políticos de todo o país. Dois alvos dos
ataques de Nicéa Pitta são os senadores Gilberto
Miranda e Antonio Carlos Magalhães, atual presidente
do Senado. A ex-primeira-dama do município de São
Paulo não acusa os senadores de corrupção,
mas diz que ambos se movimentaram para garantir que a prefeitura
pagasse dívidas de uma empreiteira, a OAS, ligada
a um genro de ACM. Miranda, afirma Nicéa, funcionava
como agente dos interesses de ACM. Na noite de sexta-feira,
ACM desmentiu qualquer contato com a prefeitura e, bem ao
seu estilo, declarou que jamais manteve contatos com o "prostíbulo"
que é a família Pitta.
Egberto Nogueira
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| Paulo
Maluf, padrinho político de Celso Pitta: a ex-mulher
do prefeito afirma que o esquema já existia na
administração anterior
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Um capítulo especial da entrevista é dedicado
às relações entre Pitta e seu padrinho
político, Paulo Maluf, com quem o prefeito está
oficialmente brigado. Nicéa garante que a briga é
de fachada, pois os dois já se reconciliaram graças
à intermediação do investidor Naji
Nahas. Segundo Nicéa, numa das conversas entre Nahas
e Pitta para tentar a reaproximação, o investidor
lhe aconselhou a fazer caixa de campanha. Nicéa diz
na entrevista suspeitar de que seu marido começou
a administrar a prefeitura honestamente, mas se deixou envolver
na corrupção logo depois. E dá um exemplo
familiar. O filho do casal, que estava em Nova York, ligou
pedindo dinheiro para o pai. Quando recebeu a ordem de pagamento
no valor de 5.000 dólares,
o rapaz leu o nome do pianista João Carlos Martins
como emitente. Para quem não se recorda, Martins
foi alvo de uma pesada investigação anos atrás,
pois sua empresa, a Pau Brasil, emitia notas frias para
empresas que ajudavam a campanha de Paulo Maluf.
Depois de assistir às denúncias, o prefeito
de São Paulo divulgou uma nota à imprensa
assinada pelo secretário de Comunicação
Social, Antenor Braido. "É lamentável que
uma pessoa fora de seu estado normal e atravessando um momento
muito difícil, pelo qual o prefeito tem todo o respeito,
seja usada pelo apresentador de TV Chico Pinheiro em seu
delírio de acusações desprovidas de
qualquer fundamento, prova ou indício", diz a nota.
E encerra: "Na verdade, o depoimento isenta o prefeito.
Mas o programa usa o expediente de requentar o noticiário
do passado para colocar o nome de Pitta, com todas as letras,
que são poucas mas honradas, como se fora praticante
de ato ilícito".
Sérgio Castro/AE
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| Vereadores paulistanos:
segundo Nicéa, eles receberam propina para
colocar um ponto final na CPI que ameaçava
Pitta |
Oito anos antes de Nicéa Pitta contar as negociatas
em que, segundo ela, seu marido está envolvido, outra
série de confissões oriunda da intimidade
dos protagonistas detonou o processo que resultou no impeachment
do presidente Fernando Collor. Em entrevista exclusiva a
VEJA, em maio de 1992, Pedro Collor acusou seu irmão,
o presidente da República, de manter uma sociedade
com Paulo César Farias, o PC, para tomar dinheiro
de empresários e vender favores no governo. Administrador
da empresa de comunicação da família
em Maceió, ele rompeu com o irmão ao saber
que PC pretendia criar um jornal concorrente em Alagoas.
Pedro vinha recolhendo informações e juntando
documentos sobre as atividades de PC desde o final do ano
anterior. Muitas denúncias foram feitas desde então
e algumas, pesadíssimas, resultaram em cassações
e prisões de políticos. Mas nenhum caso se
parece mais com o "irmão denuncia irmão" de
Pedro Collor do que esta história de Nicéa
Pitta, em que a própria ex-mulher diz que o marido
está engolfado num mar de corrupção.