Cheguei atrasado
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Ilustração Mirian Duenhas
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Poucos anos atrás, quando alguém profetizava
que a internet viraria o motor da economia mundial, eu sorria
com um certo desdém e afirmava que aquilo só
servia para trocar recados. Agora, vergonhosamente, reconheci
a minha burrice e tornei-me sócio de um site, com
a certeza de ficar milionário em menos de seis meses.
Vai dar errado, claro. Estou chegando atrasado. Quem tinha
de chegar, já chegou muito antes de mim. Eu sou desses
sujeitos que esnobaram os títulos acionários
da AOL quando valiam uma ninharia e decidiram investir todas
as suas economias depois que o preço se valorizou
umas 800 vezes.
Por sorte, existe gente menos burra do que eu que também
perdeu o bonde informático. A Europa, por exemplo,
só recentemente se deu conta de que era hora de se
mexer. O problema é que faltam técnicos especializados
no setor, e formá-los leva tempo demais. A alternativa
é contratá-los no Terceiro Mundo, sobretudo
na Índia ou na Rússia. Foi isso que o governo
da Alemanha resolveu fazer, concedendo 30.000
vistos de trabalho para técnicos formados em universidades
estrangeiras. Numa Europa em que a xenofobia rende votos,
como demonstrou o caso austríaco, trata-se de uma
medida corajosa, hostilizada tanto pela direita racista
quanto pelos sindicatos de esquerda, que querem proteger
o próprio mercado de trabalho. Pelos cálculos
dos empresários, porém, esses 30.000
imigrantes podem gerar de 200.000
a 300.000 novas vagas para operários
locais.
Na verdade, o que a Alemanha está fazendo agora
é copiar a política dos Estados Unidos, que
pretendem dar, apenas neste ano, 115.000
vistos para técnicos estrangeiros. Com a diferença
que os americanos começaram muito antes, estabelecendo
acordos de financiamento e intercâmbio com as melhores
universidades indianas, principalmente da zona de Bangalore,
onde há catorze faculdades de engenharia e 47 institutos
técnicos. Isso num país com uma taxa de 50%
de analfabetismo. Ou seja, a Alemanha chegou tarde demais,
porque a Índia já tem dono.
Ainda mais atrasada do que a Alemanha, como sempre, é
a Itália. Esse atraso faz com que os italianos se
tornem obsessivos. Todo mundo usa telefone celular com e-mail.
A bolsa de valores só movimenta títulos informáticos.
A imprensa dedica páginas e páginas ao assunto.
É insuportável. Na semana passada, L'Espresso
e Panorama, as duas revistas semanais equivalentes
a VEJA, reservaram mais de 20% de seu espaço à
internet. A primeira tratava da tecnologia UMTS, das farmácias
on-line, do rápido desenvolvimento da internet na
China. A segunda tratava do sexo cibernético, das
regatas virtuais da America's Cup e, na reportagem de capa,
das passagens aéreas baratíssimas compradas
via computador: RomaBarcelona por 150 reais, sete
noites no Mar Vermelho por 900 reais. Chequei os sites que
a revista recomendava, à procura de um bilhete para
a Rússia. Não encontrei nada. Só conversa
mole. Se é assim que funciona, eu realmente tenho
chance de ficar milionário em menos de seis meses.