Edição 1 640 - 15/3/2000

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Cheguei atrasado

Ilustração Mirian Duenhas


Poucos anos atrás, quando alguém profetizava que a internet viraria o motor da economia mundial, eu sorria com um certo desdém e afirmava que aquilo só servia para trocar recados. Agora, vergonhosamente, reconheci a minha burrice e tornei-me sócio de um site, com a certeza de ficar milionário em menos de seis meses. Vai dar errado, claro. Estou chegando atrasado. Quem tinha de chegar, já chegou muito antes de mim. Eu sou desses sujeitos que esnobaram os títulos acionários da AOL quando valiam uma ninharia e decidiram investir todas as suas economias depois que o preço se valorizou umas 800 vezes.

Por sorte, existe gente menos burra do que eu que também perdeu o bonde informático. A Europa, por exemplo, só recentemente se deu conta de que era hora de se mexer. O problema é que faltam técnicos especializados no setor, e formá-los leva tempo demais. A alternativa é contratá-los no Terceiro Mundo, sobretudo na Índia ou na Rússia. Foi isso que o governo da Alemanha resolveu fazer, concedendo 30.000 vistos de trabalho para técnicos formados em universidades estrangeiras. Numa Europa em que a xenofobia rende votos, como demonstrou o caso austríaco, trata-se de uma medida corajosa, hostilizada tanto pela direita racista quanto pelos sindicatos de esquerda, que querem proteger o próprio mercado de trabalho. Pelos cálculos dos empresários, porém, esses 30.000 imigrantes podem gerar de 200.000 a 300.000 novas vagas para operários locais.

Na verdade, o que a Alemanha está fazendo agora é copiar a política dos Estados Unidos, que pretendem dar, apenas neste ano, 115.000 vistos para técnicos estrangeiros. Com a diferença que os americanos começaram muito antes, estabelecendo acordos de financiamento e intercâmbio com as melhores universidades indianas, principalmente da zona de Bangalore, onde há catorze faculdades de engenharia e 47 institutos técnicos. Isso num país com uma taxa de 50% de analfabetismo. Ou seja, a Alemanha chegou tarde demais, porque a Índia já tem dono.

Ainda mais atrasada do que a Alemanha, como sempre, é a Itália. Esse atraso faz com que os italianos se tornem obsessivos. Todo mundo usa telefone celular com e-mail. A bolsa de valores só movimenta títulos informáticos. A imprensa dedica páginas e páginas ao assunto. É insuportável. Na semana passada, L'Espresso e Panorama, as duas revistas semanais equivalentes a VEJA, reservaram mais de 20% de seu espaço à internet. A primeira tratava da tecnologia UMTS, das farmácias on-line, do rápido desenvolvimento da internet na China. A segunda tratava do sexo cibernético, das regatas virtuais da America's Cup e, na reportagem de capa, das passagens aéreas baratíssimas compradas via computador: Roma–Barcelona por 150 reais, sete noites no Mar Vermelho por 900 reais. Chequei os sites que a revista recomendava, à procura de um bilhete para a Rússia. Não encontrei nada. Só conversa mole. Se é assim que funciona, eu realmente tenho chance de ficar milionário em menos de seis meses.