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Pesquisador sustenta que,
à luz das novas descobertas,
as chances de haver vida
inteligente fora da Terra
são mínimas
Alexandre Mansur
Cada vez que um ser humano contempla uma noite
de céu estrelado, a primeira questão que lhe
vem à cabeça diz respeito à existência
de ETs e civilizações em outros planetas.
Se há tantas galáxias no universo, por que
só nós estaríamos aqui? Nos últimos
anos, a curiosidade sobre o tema tornou-se quase obsessiva.
O paleontólogo Peter Ward e o astrônomo Donald
Brownlee, ambos da Universidade de Washington, acabam de
jogar uma ducha de água fria no debate. Eles são
os autores do livro Rare Earth Why Complex Life
Is Uncommon in the Universe (Terra Rara
Por que a Forma Complexa de Vida é Incomum no Universo),
que alcançou o oitavo lugar entre os mais vendidos
nos Estados Unidos. Com base nas descobertas científicas
recentes, Ward e Brownlee sustentam que a hipótese
de vida inteligente fora da Terra é quase nula. "Somos
produto de um lance de sorte, uma combinação
única de fatores que não se repetem em nenhum
outro lugar do universo conhecido", diz Ward. Ele explicou
por que nesta entrevista a VEJA.
Veja Por que o senhor é tão pessimista
em relação à existência de vida
fora da Terra?
Ward Primeiro é preciso esclarecer
sobre que tipo de vida estamos falando. Se você estiver
pensando em micróbios ou bactérias, há
toda a probabilidade de que possamos encontrá-los
fora da Terra, mesmo em nosso sistema solar. Acredito que
existam microrganismos no subsolo de Marte ou embaixo da
camada de gelo de Europa, uma das luas de Júpiter.
Vida inteligente, porém, é outra história,
muito mais complicada. Para chegar até ela, é
preciso que os micróbios evoluam para formas de vida
animal e depois desenvolvam inteligência. Tudo isso
leva milhões e milhões de anos. A maior parte
dos sistemas planetários hoje conhecidos não
teve tempo para que isso acontecesse. Outro problema é
que a manutenção de formas de vida mais complexas
que uma lesma exige que um planeta atenda a uma série
longa de requisitos, todos muito raros fora do sistema solar.
Veja O astrônomo Carl Sagan, que tinha
opinião contrária a sua, dizia que o fato
de haver bilhões e bilhões de galáxias
tornava muito provável a existência de vida
inteligente em outros planetas. O senhor não leva
esse dado em conta?
Ward Não é só uma
questão de probabilidade estatística. Para
começar, são pouquíssimas as galáxias
que podem hospedar formas superiores de vida. Tome como
exemplo as de forma irregular. Elas surgem quando duas galáxias
colidem. O resultado dessa colisão é um ambiente
infernal. Seria impensável a existência de
qualquer forma de vida num lugar desses. As galáxias
elípticas também não servem, porque
ali as estrelas são pobres em metais e substâncias
químicas essenciais para a vida. Pequenas galáxias
devem ser igualmente descartadas porque o interior delas
é muito instável. Por fim, podemos esquecer
as galáxias muito distantes, que são novas
demais, ainda não tiveram tempo para formar planetas
sólidos, como a Terra e Marte, e cuja composição
química não favorece em nada a existência
de vida. Então, sobra pouca coisa: apenas as galáxias
em espiral, como a nossa Via Láctea.
Veja Mesmo assim, há bilhões e
bilhões de estrelas nas galáxias espirais.
Ward Mas nem todas poderiam abrigar vida.
O núcleo das galáxias é congestionado
demais. A altíssima freqüência de explosões
e colisões de estrelas faz dessas regiões
um ambiente estéril do ponto de vista biológico.
Se você pegar o lado oposto, mais próximo das
bordas de uma galáxia, também não funciona.
Nessas áreas, é muito baixa a concentração
de elementos pesados, como carbono, ferro e sódio,
todos fundamentais para a formação de planetas
sólidos e para iniciar a fusão que aquece
o interior desses planetas. Nossa galáxia tem um
diâmetro aproximado de 85.000
anos-luz. O Sol está a cerca de 25.000
anos-luz do núcleo, na zona intermediária
de um dos braços da Via Láctea. É uma
combinação única, extremamente favorável
à existência de formas de vida como a nossa.
Tivemos muita sorte.
Veja Por que essa combinação é
única?
Ward Para sustentar vida, um planeta não
pode orbitar qualquer estrela. Muitas pessoas acreditam
que o Sol é uma estrela comum. Isso está errado.
Cerca de 95% de todas as estrelas têm massa menor
que a do Sol. As mais numerosas em nossa galáxia
têm apenas 10% da massa solar. São todas más
candidatas a hospedar vida evoluída porque emitem
pouca energia. Para conseguir calor suficiente, um planeta
precisaria estar tão perto dessa estrela que entraria
no que chamamos de rotação sincrônica.
Um lado do planeta estaria sempre de frente para a estrela.
A temperatura no lado escuro seria tão baixa que
toda a atmosfera congelaria, impedindo a formação
de vida animal.
Veja E se a estrela for maior do que o Sol?
Ward Também não serve. Nosso Sol
tem o tamanho exato para ficar praticamente estável
durante 10 bilhões de anos, tempo suficiente para
a evolução de formas complexas de vida. Se
a massa do Sol fosse apenas 50% maior, ele queimaria toda
sua energia em apenas 2 bilhões de anos. No estágio
final, antes de virar um gigante vermelho, seu brilho e
calor aumentariam 1 milhão de vezes, incinerando
os planetas mais próximos, inclusive a Terra.
Veja Digamos que, garimpando muito bem, sobrem
ainda cinco ou seis estrelas do tamanho do Sol. Apenas isso
já não bastaria para derrubar sua teoria?
Ward Ainda não. Há uma infinidade
de outros fatores que contribuem para a existência
de uma forma superior de vida como a nossa. É preciso
que o planeta não esteja sob bombardeio freqüente
de cometas e meteoros. Isso só não acontece
na Terra porque os planetas vizinhos lhe servem de escudo.
O enorme campo gravitacional de Júpiter atrai boa
parte da sujeira espacial que poderia destruir a Terra.
Resolvido esse problema, a órbita do planeta candidato
a abrigar vida precisa estar na distância correta
em relação à estrela, de modo a manter
água em estado líquido. A maior parte dos
planetas está muito longe ou perto demais. Aqueles
com pouca água não podem ter formas avançadas
de vida. Os inteiramente cobertos por oceanos profundos
também não são ideais.
Veja Por que a água é tão
essencial?
Ward O fato de haver águas rasas na Terra
pode ter sido vital, em um certo momento de sua história,
para o processo químico que formou grandes quantidades
de calcário e retirou gás carbônico
da atmosfera. Se isso não tivesse acontecido, a atmosfera
de nosso planeta teria concentrações muito
elevadas de gás carbônico. Como resultado,
a temperatura seria excessivamente alta, acima de 100 graus
Celsius. Num ambiente assim, os oceanos evaporariam e a
vida na Terra terminaria de maneira catastrófica.
Nosso planeta levou cerca de 2 bilhões de anos para
formar oxigênio em quantidade suficiente para permitir
a sobrevivência de animais. Além disso, a superfície
passou por um longo período de estabilidade, que
permitiu a existência contínua de água.
A Terra só conseguiu desenvolver um ecossistema tão
rico porque vem mantendo seus oceanos por mais de 4 bilhões
de anos. E sempre em grau de acidez e salinidade que permite
a formação de proteínas, a estrutura
básica dos seres vivos.
Veja Então, tudo se resume a uma questão
de sorte?
Ward Sorte é, sem dúvida, uma razão
para existirmos, mas há outros fatores. Veja o papel
desempenhado pela Lua nessa história. Ela mantém
um perfeito jogo de forças gravitacionais com a Terra
e evita que nosso planeta oscile demasiadamente enquanto
gira em torno do próprio eixo. Se não fosse
pelo efeito estabilizador da Lua, não estaríamos
aqui. Isso é muito raro. Em nosso sistema solar,
só Terra e Plutão têm um satélite
natural de bom tamanho. A diferença é que
Plutão é um freezer perdido na escuridão,
onde provavelmente a vida nunca florescerá.
Veja E quanto às outras formas de vida,
mais elementares, é possível haver seres não
inteligentes em outros planetas?
Ward A respeito disso eu tenho poucas dúvidas.
A forma mais antiga e abundante de vida na Terra é
a microscópica. Ela surgiu há cerca de 4 bilhões
de anos, tão logo o planeta resfriou e começou
a apresentar as condições mínimas para
a existência de vida. O fato de as primeiras bactérias
terem aparecido aqui tão cedo sugere que não
é difícil que elas brotem em qualquer outro
lugar com a mesma facilidade.
Veja Quais são as possibilidades de encontrarmos
vida microscópica em Marte?
Ward Muito boas. Há 4 bilhões
de anos, as condições em Marte eram bem mais
favoráveis à vida do que são hoje.
O planeta vizinho era mais quente, tinha uma atmosfera e
até mesmo água na superfície. E, uma
vez que formas microscópicas de vida se formam, é
difícil que desapareçam. Uma das grandes descobertas
recentes é que os micróbios podem ser encontrados
em camadas profundas do solo, até a 1 quilômetro
abaixo da superfície. Eles conseguem viver em material
rochoso, a altíssimas temperaturas, e não
precisam de muita energia. Por isso, o melhor lugar para
procurar vida em Marte é no subsolo. Como a temperatura
lá é mais alta do que na superfície,
provavelmente há uma boa quantidade de água
aprisionada no interior das rochas, inclusive em estado
líquido. O Pólo Sul marciano tem um bom volume
de água, embora em quantidade bem menor do que na
Terra, é claro.
Veja E em Europa, a lua gelada de Júpiter,
é possível haver vida lá?
Ward Europa tem uma superfície
coberta por uma camada de gelo. Há evidência
de que, no fundo dessa crosta gelada, exista um oceano,
com água em estado líquido. Lá também
há boas chances de se encontrar microrganismos extraterrestres.
Mas é praticamente impossível existir alguma
forma mais evoluída de vida. Como a superfície
é inteiramente coberta de gelo, não há
como a luz chegar ao oceano líquido embaixo. O brilho
do Sol nas imediações de Júpiter já
é muito pálido. A única fonte de calor
seria a atividade vulcânica no interior da própria
lua.
Veja Ao mostrar-se tão cético em
relação à vida fora da Terra, o senhor
não está subestimando a capacidade dos seres
vivos de se adaptar a condições hostis?
Ward Até hoje não se descobriu
um modelo tão eficiente para gerar e sustentar a
vida quanto o DNA, código genético que compõe
a base de todos os seres vivos na Terra. Nem a ficção
científica conseguiu imaginar uma estrutura molecular
tão maravilhosa para metabolizar energia, se reproduzir
e evoluir. É preciso levar em conta também
a anatomia. Veja o ET do cineasta Steven Spielberg. Biologicamente,
a criatura que ele inventou não faz nenhum sentido.
Era um bichinho muito fofo, sem dúvida. Mas um ser
com uma cabeça tão grande e um pescoço
tão fino para sustentá-la não poderia
sobreviver. Os ficcionistas dariam péssimos cientistas.
Veja O que lhe vem à cabeça quando
contempla um belo céu estrelado?
Ward Eu sempre me pergunto se há alguém
lá fora. Diante de um céu estrelado, é
fácil entender por que tantas pessoas acreditam em
ETs e discos voadores. Como cientista, porém, eu
tenho de lidar com fatos e dados concretos. E todos eles
até agora nos dizem que provavelmente estamos sós
no universo.
Veja Nos Estados Unidos, cientistas sérios
e renomados, ligados ao Programa de Busca de Inteligência
Extraterrestre, Seti, tentam escutar sinais de rádio
emitidos por seres extraterrestres. É dinheiro jogado
fora?
Ward A principal característica de nossa
espécie é ser otimista e explorar o desconhecido.
Da mesma forma como nos dedicamos à arte e à
literatura, precisamos persistir em pesquisas arriscadas,
de futuro incerto. Mas é preciso definir certas prioridades.
A biodiversidade da Terra nunca correu risco tão
grande como hoje. Antes de gastar muito dinheiro procurando
ETs, deveríamos investir prioritariamente para manter
as espécies de nosso planeta. O governo americano
está gastando mais de 60 milhões de dólares
no Seti, além dos 100 milhões de dólares
investidos pela iniciativa privada. Esse dinheiro poderia
ser mais bem aplicado em projetos que ajudem a proteger
as florestas tropicais e os ecossistemas ameaçados.
Veja Como o senhor reagiria se, amanhã
ou depois, o projeto Seti realmente captasse sinais de vida
inteligente fora da Terra?
Ward Antes de tudo, eu teria de pedir desculpas
ao pessoal do projeto. Além disso, acho que nossa
espécie seria profundamente transformada. Poucas
questões filosóficas são tão
instigantes e têm implicações tão
profundas quanto aquela relacionada ao nosso papel no universo.
Se estamos sós, é surpreendente. Se tivermos
companhia lá fora, é mais chocante ainda.
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