Edição 1 640 - 15/3/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Fel
ipede Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A Califórnia ainda está longe

"Terá a nossa recém-descoberta economia
de mercado o sangue-frio necessário para
emular o darwinismo californiano?"

Ilustração Alê Setti
A explosão empresarial ensejada pela internet tem várias explicações interessantes. Uma das mais aceitas é a de que as possibilidades de interação entre computadores subitamente se tornaram tão grandes que não cabiam mais dentro dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das empresas do setor. Em função disso, a indústria naturalmente "descentralizou" a P&D, ou seja, assistiu a um processo através do qual diferentes projetos foram espontaneamente se tornando novas empresas. Com isso, os gigantes do setor livraram-se do risco de investir numa quantidade muito grande de projetos, dos quais apenas um punhado teria chances concretas de funcionar.

Com efeito, a experiência mostra que tem sido altíssima a taxa de mortalidade das novas empresas atuando na internet. Uma pesquisa recente sobre o funcionamento do Vale do Silício revela que em média apenas seis de cada 1.000 planos de negócios submetidos a financiadores de novas empresas na internet efetivamente recebem financiamento. Destas, cerca de 60% em média vai à falência. As chances de uma nova empresa atingir o Graal, ou seja, conseguir uma oferta pública bem-sucedida de suas ações, são de aproximadamente seis para 1 milhão. Para cada herói, bilionário e capa de revista, o subproduto é um pequeno exército de cerca de 166.000 fracassados.

Será que é a isso que vamos assistir no Brasil nos próximos anos? Terá a nossa recém-descoberta economia de mercado o sangue-frio necessário para emular esse darwinismo californiano?

O fato é que nada disso parece tão exótico quanto seria cinco ou dez anos atrás. Nos últimos cinco anos em especial, o Brasil se transformou em função da combinação de abertura, estabilização, privatização, enfraquecimento do Estado, democracia, desregulamentação, soberania do consumidor e responsabilidade fiscal.

Uma das conseqüências mais imediatas dessas mudanças foi tornar a competência empresarial uma questão de sobrevivência, e boa parte (ou talvez a pior parte) do mundo empresarial achou que isso era um castigo que lhes impunha o governo, que foi açodado na abertura e descuidado com a política cambial. Como se para os favoritos do Estado os favores fossem a regra, mas para os inimigos restasse apenas o mercado.

Nada mais normal que, com o tempo, as empresas verificassem que a excelência empresarial era um requisito natural para o sucesso em uma economia de mercado. Como de fato se observou. E graças às mudanças de atitude para com as reformas o Brasil vive uma revolução dupla: a primeira, por muitos anos retardada e ainda pela metade, é a descoberta da economia de mercado. E a segunda, bem menos avançada, é a disseminação da internet e de sua cultura. Dificilmente a segunda seria possível sem a primeira, como se pode demonstrar lembrando que a revolução tecnológica anterior à de hoje – quando se disseminaram o microcomputador, o processador de texto e as planilhas eletrônicas – nos pegou com um governo que não acreditava em mercados e por isso inventou uma bobagem chamada "reserva de mercado", em conseqüência da qual atrasamos em uma década ou mais nossa entrada no mundo digital.

Desta vez, felizmente, não vamos perder o bonde. A privatização da Telebrás e das concessões para telefonia celular foi uma dura batalha que nos deu a senha de acesso à nova economia. Novas empresas estão surgindo a todo momento e, pelo menos por enquanto, a mortalidade não tem sido tão grande, pois ainda estamos na fase de reproduzir fórmulas já bem-sucedidas nos EUA. O verdadeiro teste para as novas atitudes será quando a competição começar a fazer vítimas, como recentemente observado no episódio da entrada em operação dos provedores de acesso gratuitos. Basta um pouquinho de dor que os perdedores vão reclamar com o governo. É um hábito antigo, difícil de abandonar. Num país cuja tradição é de empresários acunhadados com o Estado, o fracasso nunca é privado, mas sempre culpa do governo.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)