A Califórnia ainda está longe
"Terá a nossa recém-descoberta
economia
de mercado o sangue-frio necessário para
emular o darwinismo californiano?"
Ilustração Alê Setti
A
explosão empresarial ensejada pela internet tem várias
explicações interessantes. Uma das mais aceitas
é a de que as possibilidades de interação
entre computadores subitamente se tornaram tão grandes
que não cabiam mais dentro dos departamentos de pesquisa
e desenvolvimento (P&D) das empresas do setor. Em função
disso, a indústria naturalmente "descentralizou"
a P&D, ou seja, assistiu a um processo através
do qual diferentes projetos foram espontaneamente se tornando
novas empresas. Com isso, os gigantes do setor livraram-se
do risco de investir numa quantidade muito grande de projetos,
dos quais apenas um punhado teria chances concretas de funcionar.
Com efeito, a experiência mostra que tem sido altíssima
a taxa de mortalidade das novas empresas atuando na internet.
Uma pesquisa recente sobre o funcionamento do Vale do Silício
revela que em média apenas seis de cada 1.000
planos de negócios submetidos a financiadores de
novas empresas na internet efetivamente recebem financiamento.
Destas, cerca de 60% em média vai à falência.
As chances de uma nova empresa atingir o Graal, ou seja,
conseguir uma oferta pública bem-sucedida de suas
ações, são de aproximadamente seis
para 1 milhão. Para cada herói, bilionário
e capa de revista, o subproduto é um pequeno exército
de cerca de 166.000 fracassados.
Será que é a isso que vamos assistir no
Brasil nos próximos anos? Terá a nossa recém-descoberta
economia de mercado o sangue-frio necessário para
emular esse darwinismo californiano?
O fato é que nada disso parece tão exótico
quanto seria cinco ou dez anos atrás. Nos últimos
cinco anos em especial, o Brasil se transformou em função
da combinação de abertura, estabilização,
privatização, enfraquecimento do Estado, democracia,
desregulamentação, soberania do consumidor
e responsabilidade fiscal.
Uma das conseqüências mais imediatas dessas
mudanças foi tornar a competência empresarial
uma questão de sobrevivência, e boa parte (ou
talvez a pior parte) do mundo empresarial achou que isso
era um castigo que lhes impunha o governo, que foi açodado
na abertura e descuidado com a política cambial.
Como se para os favoritos do Estado os favores fossem a
regra, mas para os inimigos restasse apenas o mercado.
Nada mais normal que, com o tempo, as empresas verificassem
que a excelência empresarial era um requisito natural
para o sucesso em uma economia de mercado. Como de fato
se observou. E graças às mudanças de
atitude para com as reformas o Brasil vive uma revolução
dupla: a primeira, por muitos anos retardada e ainda pela
metade, é a descoberta da economia de mercado. E
a segunda, bem menos avançada, é a disseminação
da internet e de sua cultura. Dificilmente a segunda seria
possível sem a primeira, como se pode demonstrar
lembrando que a revolução tecnológica
anterior à de hoje quando se disseminaram o microcomputador,
o processador de texto e as planilhas eletrônicas
nos pegou com um governo que não acreditava em
mercados e por isso inventou uma bobagem chamada "reserva
de mercado", em conseqüência da qual atrasamos
em uma década ou mais nossa entrada no mundo digital.
Desta vez, felizmente, não vamos perder o bonde.
A privatização da Telebrás e das concessões
para telefonia celular foi uma dura batalha que nos deu
a senha de acesso à nova economia. Novas empresas
estão surgindo a todo momento e, pelo menos por enquanto,
a mortalidade não tem sido tão grande, pois
ainda estamos na fase de reproduzir fórmulas já
bem-sucedidas nos EUA. O verdadeiro teste para as novas
atitudes será quando a competição começar
a fazer vítimas, como recentemente observado no episódio
da entrada em operação dos provedores de acesso
gratuitos. Basta um pouquinho de dor que os perdedores vão
reclamar com o governo. É um hábito antigo,
difícil de abandonar. Num país cuja tradição
é de empresários acunhadados com o Estado,
o fracasso nunca é privado, mas sempre culpa do governo.
Gustavo Franco é
economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)