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Ponto
de vista: Stephen Kanitz O
patrimônio líquido nacional
"O
endeusamento do PIB e do pleno emprego como meta política
é a causa do aquecimento global, da destruição
da ecologia, do desmatamento florestal, da poluição
global e do crescimento exponencial do lixo"
A ciência econômica
nunca se interessou pelo conceito de patrimônio líquido, utilizado
por todos os contadores, analistas e administradores quando avaliam o desempenho
das empresas. Para medir o desempenho
de um país, preferiu-se usar o conceito de produto interno bruto, aquilo
que se produziu durante o ano avaliado. Tanto faz se o produto dura um mês
ou vinte anos para ser incluído no PIB. Tanto faz para um economista quantos
meses duram sapatos, casas, imóveis, celulares, TVs, computadores, eletrodomésticos,
carros, calçadas, estradas, pontes, prédios, vidros, tinta etc.
que entram no cálculo do PIB. Riqueza, sob essa definição,
é quanto uma geração gasta por ano, e não quanto se
deixa de herança para a próxima geração.
Ilustração
Ale Setti
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Se
usássemos o conceito de patrimônio líquido nacional, saberíamos
por exemplo que o país A, que fabrica produtos que duram cinco anos, é
cinco vezes mais rico do que o país B, que fabrica produtos que duram somente
um ano. Porém, para o FMI esses dois países são rigorosamente
iguais.
Talvez seja por isso que o
Brasil não se preocupa com qualidade total, durabilidade e confiabilidade,
tão discutidas em administração. Para que incentivar serviços
públicos de qualidade, por exemplo, se entram no PIB do mesmo jeito? Nossas
estradas são feitas para durar só quatro anos, para que se necessite
tapar buracos depois, aumentando duplamente o PIB?
Os três livros de introdução à economia mais usados
no mundo nem incluem a palavra durabilidade no índice remissivo. Não
é considerada uma variável econômica, como juros e câmbio,
analisados exaustivamente em capítulos inteiros dedicados ao assunto.
Tanto é que os governos de 1964 para cá criaram dezenas de "incentivos"
para produzir no Nordeste, para "substituir importações", para "exportar
o que importa". Nunca criaram incentivos fiscais para aumentar a durabilidade
dos produtos que fabricamos, o que para um país pobre seria uma importante
solução. Nossos desenvolvimentistas
nunca lutaram pelo financiamento de casas usadas, que os mais pobres poderiam
comprar, porque imóvel usado não entra no PIB pelo qual eles são
avaliados. As geladeiras de nossos avós duravam vinte anos, até
que inventaram a chamada "obsolescência programada", obrigando os consumidores
a comprar uma nova geladeira a cada cinco anos, o que aumenta o PIB, mas reduz
violentamente o patrimônio nacional.
Países ricos, local de origem dessas teorias, incentivam a obsolescência
programada porque neles o consumidor já tem tudo. Eles precisam achar um
jeito de o consumidor jogar fora o produto antigo, comprar um novo e assim aumentar
o PIB. Pobre não quer nada disso; pobre quer durabilidade, qualidade e
confiabilidade para não ter de comprar a mesma coisa duas ou mais vezes
na vida. Ele quer uma geladeira que dure, que possa ser revendida como usada sem
perder metade do valor e que tenha peças de reposição disponíveis
por vinte anos. Lutar por uma melhor
distribuição de renda no Brasil para que pobres possam em seguida
comprar produtos descartáveis não resolverá o nosso problema
da pobreza. Será que ninguém percebe essa contradição?
Se calculássemos o patrimônio
nacional descobriríamos que nosso patrimônio líquido não
pára de cair com os direitos e dívidas criados pela Constituição
de 1988. Que esta geração está longe de deixar um patrimônio
para seus filhos, mas deixará uma monstruosa dívida pública
e atuarial. Talvez por isso ninguém ouse calculá-la.
Criamos uma economia mundial que incentiva produtos descartáveis, criamos
uma sociedade consumista, predadora e destruidora, tudo isso para maximizar o
PIB. O endeusamento do PIB e do pleno emprego como meta política é
a causa do aquecimento global, da destruição da ecologia, do desmatamento
florestal, da poluição global e do crescimento exponencial do lixo.
Não estou defendendo o fim
do cálculo do PIB. Estou somente conclamando a nova geração
de economistas a não "maximizar" o PIB sem maximizar o patrimônio
nacional e a riqueza de uma nação, critério de mensuração
que seus professores nunca usaram nem se esforçam em ensinar. É
uma falha científica e social que precisa ser corrigida, e quanto antes
melhor. Stephen Kanitz é
administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
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