Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O juiz e o coronel

O juiz em questão é de futebol.
E é negro.
Azar dele: foi alvo perfeito
para a raiva do coronel

O coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo Antônio Chiari, como amante do futebol, certamente acompanhará com grande interesse a próxima Copa do Mundo. À luz de suas convicções mais íntimas, no entanto, conclui-se que torcerá pela Suécia. Não lhe agrada a cor da pele dos jogadores brasileiros.

O coronel Chiari protagonizou, no Clube dos Oficiais da Polícia Militar de São Paulo, um episódio relatado pela jornalista Dorrit Harazim, em exemplar reportagem publicada no domingo 5 pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. A semifinal do campeonato interno do clube, em 4 de dezembro, tinha como um dos contendores o time em que o coronel joga de zagueiro e como juiz o ex-jogador profissional José de Andrade Neto, hoje professor de futebol e juiz credenciado pela Federação Paulista. O jogo corria tenso. O coronel é branco, o juiz é negro. A certa altura, o juiz aplica um cartão amarelo ao coronel. "Você tinha de ser dessa cor de m... para fazer isso", reage o coronel. "Preto. Macaco. Olha essa pele, cor de m..." O coronel é expulso. O jogo continua. Fora do campo, o coronel continua a atazanar os ouvidos do juiz: "Não sei o que esse preto está fazendo aqui".

José de Andrade mora numa casinha de barro com a mãe, duas irmãs, sobrinhos e alguns dos oito filhos que amealhou em três casamentos. Como professor de futebol da criançada, ele é funcionário do Clube dos Oficiais da PM. O coronel Chiari, além de ser coronel – o que não é pouco –, integra a diretoria do clube. Por essas e outras, José de Andrade hesitou muito, remoendo sua humilhação em silêncio, ou no máximo em desabafos em família, até que finalmente, 45 dias depois, tomou a decisão de registrar queixa no 20º Distrito Policial de São Paulo. Foi o passo culminante no "processo que levou um homem que sempre se sentiu indeciso na vida a buscar seus direitos no Estado brasileiro", escreveu Dorrit Harazim.

O racismo é sempre irracional, mas é mais ainda (se é que admite gradações por localização geográfica) no Brasil, país com a segunda população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, e mais irracional ainda quando se dá num campo brasileiro de futebol. No jogo entre Juventude e Internacional, no ano passado, em Caxias do Sul, os torcedores imitavam macaco quando o jogador Tinga, do Internacional, pegava na bola. Assim como o coronel Chiari está intimado a torcer para a Suécia, exige-se que esses torcedores, pelo mesmo respeito à coerência, repitam suas macaquices sempre que Ronaldinho Gaúcho ou Robinho pegarem na bola na Copa da Alemanha.

Os negros são responsáveis pela qualidade ímpar do futebol brasileiro. O historiador Alberto da Costa e Silva, especialista em relações Brasil-África, contou numa entrevista à revista Nossa História que, ao ver um homem deitado num muro, certa vez, na África, se deu conta da identidade entre a postura corporal do brasileiro e a do negro africano. Outros povos não deitam em muros, eis a preciosa descoberta que fez naquele momento. Não é preciso ter lido Alberto da Costa e Silva, nem Gilberto Freyre, para concluir que a tal da malemolência que caracteriza a expressão corporal dos brasileiros – até dos brancos, por assimilação – é herança africana. Também não é preciso ser doutor em antropologia para intuir que essa herança está na base da vitoriosa singularidade do futebol brasileiro.

O caso do Clube dos Oficiais da PM destacou-se, além do racismo, por outro clássico brasileiro – o sabe-com-quem-está-falando. Fora do campo, o coronel é o coronel e José de Andrade é o Zé. Dentro, o coronel era um dos jogadores e o Zé, a autoridade. Tão monstruosa inversão de papéis é dura de engolir. Dias depois o coronel chamou José de Andrade para uma conversa. José achou que ele ia pedir desculpas. Não. Entre uma e outra consideração inócua, o coronel encaixou um "Você sabia que fui comandante da Rota?". A Rota é uma divisão da PM que em certa época se notabilizou pela truculência. A observação era para José de Andrade saber com quem estava falando.

No campo, já expulso o coronel, o juiz ouviu uma voz de criança que dizia: "Macaco f-da-p!". "Preferia não ter olhado", disse José de Andrade a Dorrit Harazim. Mas olhou. Era o filho do coronel. O menino, que acabava de demonstrar ser fiel seguidor do exemplo paterno, fora seu aluno na escola de futebol. Por isso, o grito lhe doeu demais. 

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Ao tomar conhecimento, na semana passada, do caso do Clube dos Oficiais da PM, o ministro interino de Promoção da Igualdade Racial, Douglas Martins de Souza, determinou que o caso seja acompanhado por seu ministério. O secretário da Justiça e Defesa da Cidadania do governo de São Paulo, Hédio Silva Jr., comentou que, se fizesse hoje o curso de formação de soldados da PM, o coronel seria reprovado. A corregedoria da PM paulista instaurou procedimento para apurar o caso. Algo se move, no país, no assunto tão longamente negligenciado das ofensas de cunho racial.

 
 
 
 
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