|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O juiz e o coronel
O juiz em
questão é
de futebol.
E é negro. Azar dele: foi alvo
perfeito
para a raiva do coronel
O coronel reformado da Polícia
Militar de São Paulo Antônio Chiari, como amante do
futebol, certamente acompanhará com grande interesse a próxima
Copa do Mundo. À luz de suas convicções mais
íntimas, no entanto, conclui-se que torcerá pela Suécia.
Não lhe agrada a cor da pele dos jogadores brasileiros.
O coronel Chiari protagonizou,
no Clube dos Oficiais da Polícia Militar de São Paulo,
um episódio relatado pela jornalista Dorrit Harazim, em exemplar
reportagem publicada no domingo 5 pelos jornais O Globo e
O Estado de S. Paulo. A semifinal do campeonato interno do
clube, em 4 de dezembro, tinha como um dos contendores o time em
que o coronel joga de zagueiro e como juiz o ex-jogador profissional
José de Andrade Neto, hoje professor de futebol e juiz credenciado
pela Federação Paulista. O jogo corria tenso. O coronel
é branco, o juiz é negro. A certa altura, o juiz aplica
um cartão amarelo ao coronel. "Você tinha de ser dessa
cor de m... para fazer isso", reage o coronel. "Preto. Macaco. Olha
essa pele, cor de m..." O coronel é expulso. O jogo continua.
Fora do campo, o coronel continua a atazanar os ouvidos do juiz:
"Não sei o que esse preto está fazendo aqui".
José de Andrade mora numa
casinha de barro com a mãe, duas irmãs, sobrinhos
e alguns dos oito filhos que amealhou em três casamentos.
Como professor de futebol da criançada, ele é funcionário
do Clube dos Oficiais da PM. O coronel Chiari, além de ser
coronel o que não é pouco , integra a
diretoria do clube. Por essas e outras, José de Andrade hesitou
muito, remoendo sua humilhação em silêncio,
ou no máximo em desabafos em família, até que
finalmente, 45 dias depois, tomou a decisão de registrar
queixa no 20º Distrito Policial de São Paulo. Foi o
passo culminante no "processo que levou um homem que sempre se sentiu
indeciso na vida a buscar seus direitos no Estado brasileiro", escreveu
Dorrit Harazim.
O racismo é sempre irracional,
mas é mais ainda (se é que admite gradações
por localização geográfica) no Brasil, país
com a segunda população negra do mundo, atrás
apenas da Nigéria, e mais irracional ainda quando se dá
num campo brasileiro de futebol. No jogo entre Juventude e Internacional,
no ano passado, em Caxias do Sul, os torcedores imitavam macaco
quando o jogador Tinga, do Internacional, pegava na bola. Assim
como o coronel Chiari está intimado a torcer para a Suécia,
exige-se que esses torcedores, pelo mesmo respeito à coerência,
repitam suas macaquices sempre que Ronaldinho Gaúcho ou Robinho
pegarem na bola na Copa da Alemanha.
Os negros são responsáveis
pela qualidade ímpar do futebol brasileiro. O historiador
Alberto da Costa e Silva, especialista em relações
Brasil-África, contou numa entrevista à revista Nossa
História que, ao ver um homem deitado num muro, certa
vez, na África, se deu conta da identidade entre a postura
corporal do brasileiro e a do negro africano. Outros povos não
deitam em muros, eis a preciosa descoberta que fez naquele momento.
Não é preciso ter lido Alberto da Costa e Silva, nem
Gilberto Freyre, para concluir que a tal da malemolência que
caracteriza a expressão corporal dos brasileiros até
dos brancos, por assimilação é herança
africana. Também não é preciso ser doutor em
antropologia para intuir que essa herança está na
base da vitoriosa singularidade do futebol brasileiro.
O caso do Clube dos Oficiais
da PM destacou-se, além do racismo, por outro clássico
brasileiro o sabe-com-quem-está-falando. Fora do campo,
o coronel é o coronel e José de Andrade é o
Zé. Dentro, o coronel era um dos jogadores e o Zé,
a autoridade. Tão monstruosa inversão de papéis
é dura de engolir. Dias depois o coronel chamou José
de Andrade para uma conversa. José achou que ele ia pedir
desculpas. Não. Entre uma e outra consideração
inócua, o coronel encaixou um "Você sabia que fui comandante
da Rota?". A Rota é uma divisão da PM que em certa
época se notabilizou pela truculência. A observação
era para José de Andrade saber com quem estava falando.
No campo, já expulso o
coronel, o juiz ouviu uma voz de criança que dizia: "Macaco
f-da-p!". "Preferia não ter olhado", disse José de
Andrade a Dorrit Harazim. Mas olhou. Era o filho do coronel. O menino,
que acabava de demonstrar ser fiel seguidor do exemplo paterno,
fora seu aluno na escola de futebol. Por isso, o grito lhe doeu
demais.
Ao tomar conhecimento, na semana
passada, do caso do Clube dos Oficiais da PM, o ministro interino
de Promoção da Igualdade Racial, Douglas Martins de
Souza, determinou que o caso seja acompanhado por seu ministério.
O secretário da Justiça e Defesa da Cidadania do governo
de São Paulo, Hédio Silva Jr., comentou que, se fizesse
hoje o curso de formação de soldados da PM, o coronel
seria reprovado. A corregedoria da PM paulista instaurou procedimento
para apurar o caso. Algo se move, no país, no assunto tão
longamente negligenciado das ofensas de cunho racial.
|