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Estilo
O requinte do oriente
Em sua exuberância e tradição, quimonos japoneses vão
da tela aos museus 
Bel Moherdaui
Fotos divulgação
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| Elegância no set:
150 trajes feitos para o filme, mais de quarenta trocas para as antagonistas Hatsumomo
e Sayuri |
No Japão da dinastia Heian,
por volta do ano 1000, um estranho surto tomou o país: a corrida dos quimonos.
Quanto mais belos, mais caros e mais numerosos, mais desejados eram. O frenesi
chegou a tal ponto que, para conter a febre e reafirmar as diferenças de
classe, decretou-se que a mais requintada das superposições, o junihitoe,
apelidado de "doze camadas" que na verdade podem chegar a vinte
, passava a ser exclusiva das mulheres da família imperial. O filme Memórias
de uma Gueixa dificilmente vai provocar furor similar, mas recupera alguma
coisa do extraordinário requinte do traje japonês. Mesmo quem não
se entusiasma com o filme fica encantado com os 150 quimonos que foram produzidos
para o figurino principal, o que representou mais de quarenta trocas de roupa
para cada uma das três protagonistas, a maldosíssima e muito elegante
Hatsumomo (que chega a compor um deles com uma estola de pele), a doce e charmosa
Sayuri e a generosa e chique Mameha. Embora levemente exagerados em matéria
de tons e de estampas para criar impacto na tela, os trajes seguem a tradição
na forma e na importância. "Queríamos criar uma atmosfera de sensualidade
usando o quimono japonês como ponto de partida", diz a figurinista Colleen
Atwood, indicada para seu segundo Oscar. Combinadas à beleza das atrizes
(todas chinesas), as roupas que deixam à mostra uma única parte
do corpo a nuca conseguem efetivamente essa proeza.
Se confeccionado à moda tradicional, um quimono obedece a leis estabelecidas
há milênios. Usa-se um único corte de seda de cerca de 10
metros de comprimento e 40 centímetros de largura, totalmente aproveitado;
é costurado a mão, assim como a mão são pintados,
ou tecidos, ou ainda bordados, seus elaborados desenhos. Frutas, pássaros,
flores, cada imagem tem seu significado (ameixeiras, por exemplo, são símbolo
de sorte; a cegonha, de longevidade), e muitas famílias usam o equivalente
a seu brasão para decorar os trajes de cerimônia. "Quimono, em japonês,
quer dizer coisa para vestir. Genericamente, seria tudo que se veste, mas acabou
virando o traje tradicional do Japão apesar de sua origem chinesa",
explica a professora de história da moda Mitsuko Shitara, da Faculdade
Santa Marcelina, em São Paulo. A forma atual aberto, um retângulo
de tecido com poucas e simples costuras; no corpo, uma minuciosa obra de engenharia
que lembra outra tradição japonesa, a do origami foi tomada
no século VIII. Às moças solteiras, cabia o furisode,
de mangas quase arrastando no chão. Às casadas, o tomesode;
as gueixas, personagens do mundo do meio, como um tipo muito especial de cortesãs
de luxo, transitavam entre todos os modelos.
Art Gallery of Greater Victoria
 | Divulgação
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| Opulência: o furisode da gueixa
Ichimaru e o desenho para o cinema | Quando
as peças viraram obra de arte, impossíveis de ser lavadas, inventou-se
a sobreposição um quimono em cima do outro, mais elaborados
à medida que vão subindo de camada, com as diferentes golas compondo
combinações esplendorosas. Por último, o obi, a faixa larga
amarrada na altura da cintura e arrematada por uma complicada arquitetura nas
costas. Vestir todo o traje, ainda que com ajuda imprescindível, pode levar
45 minutos. Na onda de japonismo suscitada por Memórias de uma Gueixa,
algumas dessas obras que resumem a disciplina social, a ritualização
do cotidiano e o culto à sutileza que tão bem exprimem a cultura
japonesa estão sendo recuperadas. A exposição From Geisha
to Diva: The Kimonos of Ichimaru (De gueixa a diva: os quimonos de Ichimaru),
que o National Geographic Museum inaugura no dia 23, em Washington, traz exemplares
extraordinários. São 24 vestes da famosa gueixa que, na década
de 30, virou cantora e celebridade pop, entre as quais o magnífico furisode
branco com fênix e flor de cerejeira bordados em cores vibrantes e fios
dourados e o quimono que reproduz a paisagem de Yanagibashi, o bairro das gueixas
em Tóquio. Um deslumbramento. |