Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

Índice
Millôr
Stephen Kanitz
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Estilo
O requinte do oriente

Em sua exuberância e tradição,
quimonos japoneses vão da tela
aos museus


Bel Moherdaui

 
Fotos divulgação

Elegância no set: 150 trajes feitos para o filme, mais de quarenta trocas para as antagonistas Hatsumomo e Sayuri


EXCLUSIVO ON-LINE
Outras imagens

No Japão da dinastia Heian, por volta do ano 1000, um estranho surto tomou o país: a corrida dos quimonos. Quanto mais belos, mais caros e mais numerosos, mais desejados eram. O frenesi chegou a tal ponto que, para conter a febre e reafirmar as diferenças de classe, decretou-se que a mais requintada das superposições, o junihitoe, apelidado de "doze camadas" – que na verdade podem chegar a vinte – , passava a ser exclusiva das mulheres da família imperial. O filme Memórias de uma Gueixa dificilmente vai provocar furor similar, mas recupera alguma coisa do extraordinário requinte do traje japonês. Mesmo quem não se entusiasma com o filme fica encantado com os 150 quimonos que foram produzidos para o figurino principal, o que representou mais de quarenta trocas de roupa para cada uma das três protagonistas, a maldosíssima e muito elegante Hatsumomo (que chega a compor um deles com uma estola de pele), a doce e charmosa Sayuri e a generosa e chique Mameha. Embora levemente exagerados em matéria de tons e de estampas para criar impacto na tela, os trajes seguem a tradição na forma e na importância. "Queríamos criar uma atmosfera de sensualidade usando o quimono japonês como ponto de partida", diz a figurinista Colleen Atwood, indicada para seu segundo Oscar. Combinadas à beleza das atrizes (todas chinesas), as roupas que deixam à mostra uma única parte do corpo – a nuca – conseguem efetivamente essa proeza.

Se confeccionado à moda tradicional, um quimono obedece a leis estabelecidas há milênios. Usa-se um único corte de seda de cerca de 10 metros de comprimento e 40 centímetros de largura, totalmente aproveitado; é costurado a mão, assim como a mão são pintados, ou tecidos, ou ainda bordados, seus elaborados desenhos. Frutas, pássaros, flores, cada imagem tem seu significado (ameixeiras, por exemplo, são símbolo de sorte; a cegonha, de longevidade), e muitas famílias usam o equivalente a seu brasão para decorar os trajes de cerimônia. "Quimono, em japonês, quer dizer coisa para vestir. Genericamente, seria tudo que se veste, mas acabou virando o traje tradicional do Japão – apesar de sua origem chinesa", explica a professora de história da moda Mitsuko Shitara, da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo. A forma atual – aberto, um retângulo de tecido com poucas e simples costuras; no corpo, uma minuciosa obra de engenharia que lembra outra tradição japonesa, a do origami – foi tomada no século VIII. Às moças solteiras, cabia o furisode, de mangas quase arrastando no chão. Às casadas, o tomesode; as gueixas, personagens do mundo do meio, como um tipo muito especial de cortesãs de luxo, transitavam entre todos os modelos.

 
Art Gallery of Greater Victoria
Divulgação
Opulência: o furisode da gueixa Ichimaru e o desenho para o cinema

Quando as peças viraram obra de arte, impossíveis de ser lavadas, inventou-se a sobreposição – um quimono em cima do outro, mais elaborados à medida que vão subindo de camada, com as diferentes golas compondo combinações esplendorosas. Por último, o obi, a faixa larga amarrada na altura da cintura e arrematada por uma complicada arquitetura nas costas. Vestir todo o traje, ainda que com ajuda imprescindível, pode levar 45 minutos. Na onda de japonismo suscitada por Memórias de uma Gueixa, algumas dessas obras que resumem a disciplina social, a ritualização do cotidiano e o culto à sutileza que tão bem exprimem a cultura japonesa estão sendo recuperadas. A exposição From Geisha to Diva: The Kimonos of Ichimaru (De gueixa a diva: os quimonos de Ichimaru), que o National Geographic Museum inaugura no dia 23, em Washington, traz exemplares extraordinários. São 24 vestes da famosa gueixa que, na década de 30, virou cantora e celebridade pop, entre as quais o magnífico furisode branco com fênix e flor de cerejeira bordados em cores vibrantes e fios dourados e o quimono que reproduz a paisagem de Yanagibashi, o bairro das gueixas em Tóquio. Um deslumbramento.

 
 
 
 
topovoltar