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Internacional O
ano dos presidentes Uma dezena de países da
América Latina vai escolher seus governantes. Em vários
deles, o favorito é um populista ao estilo de Hugo Chávez  Ruth
Costas
 | | Eleitores
tentam forçar a entrada em posto de votação em Porto Príncipe,
no Haiti: uma crise sem luz no fim do túnel |
Em dezembro deste ano, a América Latina
terá passado por onze eleições presidenciais no espaço
de doze meses. O que pode sair das urnas é motivo de preocupação
internacional, sobretudo para os próprios latino-americanos. O contexto
é repleto de obstáculos. A região está perdendo o
brilho como um celeiro de mercados emergentes. No último Fórum Econômico
Mundial, em Davos, no mês passado, os holofotes concentraram-se na China
e na Índia. A América Latina simplesmente ficou de fora do show.
A razão do desinteresse pode ser encontrada nos números econômicos.
No início dos anos 90, as economias latino-americanas e as dos países
emergentes da Ásia (China, Índia e Tigres Asiáticos) tinham
tamanho similar. De lá para cá, a riqueza asiática multiplicou-se
por quatro enquanto a da América Latina apenas dobrou. Em termos de investimento
estrangeiro, a Ásia coletou 130 bilhões de dólares no ano
passado. Os latino-americanos ficaram com 72 bilhões. Nos últimos
dez anos a América Latina cresceu 2,8% ao ano, contra 5,3% da média
dos países emergentes. A exceção foi o Chile, que há
duas décadas cresce 6% ao ano, graças ao consenso existente no país
sobre a necessidade de manter o modelo econômico iniciado na década
de 80. O que os novos governantes podem fazer para
reverter o declínio? As pesquisas eleitorais colocam entre os favoritos
boa quantidade de candidatos esquerdistas. Viradas à esquerda nos países
subdesenvolvidos, mostra a história, quase sempre significam mergulhos
mais profundos na pobreza e na corrupção. Muitos investidores europeus
e americanos suspeitam que o continente está mesmo virando à esquerda
e, precavidos, preferem levar seu dinheiro para portos mais seguros. Quem faz
isso está cometendo duas generalizações perigosas. A primeira
é considerar a América Latina como um todo homogêneo. A região
é formada por alguns países grandes, "que respeitam a democracia
e a economia de mercado", como diz o uruguaio Enrique Iglesias, ex-presidente
do Banco Interamericano de Desenvolvimento, vários paisecos sem expressão
e uns poucos Estados totalmente falidos. É o caso do Haiti, a nação
mais pobre do continente. Na semana passada, os haitianos escolheram seu presidente
numa eleição surpreendentemente pacífica.
A segunda generalização é achar que existe só um tipo
de esquerda. "Já não é mais possível dividir os candidatos
ou os governos da América Latina entre os de esquerda e os de direita",
disse a VEJA Alfredo Ramos Jiménez, da Universidade dos Andes, em Mérida,
na Venezuela. Para Jiménez, essa classificação é ultrapassada
porque não se pode agrupar em um mesmo bloco o populismo do venezuelano
Hugo Chávez e o socialismo responsável de Michelle Bachelet, presidente
eleita do Chile por mais que ambos se declarem de esquerda. "O que temos
hoje é uma divisão entre presidentes ou candidatos que almejam uma
ditadura dissimulada, como a de Chávez, e os que de fato respeitam a democracia",
diz Jiménez.
Hugo Chávez, que deve se reeleger em dezembro, é um populista que
semeia clones pelas redondezas. Faz isso não apenas com o exemplo, mas
também com a fartura de dólares proveniente da venda de petróleo.
Um dos simulacros é Evo Morales, que assumiu na Bolívia no mês
passado e anuncia projetos nebulosos de nacionalização da única
riqueza do país o gás natural e de criação
de um novo tipo de sociedade indígena. Na verdade, como seu país
é o mais pobre da América do Sul, seu espaço real de manobras
é limitado. No Haiti, da mesma forma, há poucas chances de que o
vencedor ao que tudo indica, René Préval, um aliado de Jean-Bertrand
Aristide, presidente corrupto e populista derrubado por um golpe em 2004
consiga criar condições de segurança e um sistema democrático
minimamente estável para dispensar a presença de tropas das Nações
Unidas, o que incluiria uma força brasileira.
Nessas voltas que a América Latina dá para não sair do mesmo
lugar, um dos ícones da esquerda no momento é um coronel peruano,
Ollanta Humala, cujo projeto ideológico é o tenebroso nacionalismo
militar dos anos 60. A Nicarágua é outro país que ensaia
um recuo na história com a eleição do sandinista Daniel Ortega.
Presidente nos anos 80, Ortega pilotou uma desastrosa experiência socialista
que arruinou a nação e causou uma guerra civil. O populismo, de
acordo com cientistas políticos, caracteriza-se pelo uso leviano do dinheiro
e dos poderes públicos e, sobretudo, pelo talento em fazer com que os deserdados
acreditem estar sendo beneficiados pelo assistencialismo oficial, quando na verdade
estão ficando mais pobres. Por esses critérios, Andrés Manuel
López Obrador, favorito nas eleições presidenciais mexicanas,
é um populista. Por mais que ele pose de revolucionário, dificilmente
conseguiria tirar o México do caminho econômico cimentado desde 1994
com o Nafta, o acordo de livre-comércio com os Estados Unidos.
O historiador e ensaísta mexicano Enrique Krauze, um dos pensadores mais
respeitados do continente, acredita que o risco para a América Latina está
no ressurgimento de quatro paradigmas que, no passado, serviram de obstáculo
ao desenvolvimento. O primeiro é o populismo. Chávez e seus clones
retomaram a velha tradição do político centralizador que
cativa os pobres com promessas de soluções milagrosas para problemas
complexos. Os populistas costumam ser ótimos em angariar votos, mas péssimos
em implementar políticas econômicas eficientes. O segundo paradigma
é o militarismo. Chávez e Humala são egressos dos quartéis
e, embora se apresentem como civis, tendem a ver o uso da força como uma
alternativa legítima para conquistar e manter o poder. A terceira praga
latino-americana, segundo Krauze, são as ideologias revolucionárias,
que há vinte anos eram representadas pelas guerrilhas colombianas e pelo
ditador cubano Fidel Castro. Hoje ganharam novas roupagens: o nacionalismo e o
movimento indianista. Nessa categoria se encaixam Evo Morales e Humala. O quarto
paradigma que está renascendo no continente é o modelo de economia
fechada e estatizante. Na década de 90,
depois de dez anos de estagnação econômica, hiperinflação
e calotes em instituições financeiras internacionais, a América
Latina parecia finalmente ter encontrado o caminho do crescimento. A abertura
econômica, as privatizações e o enxugamento do Estado permitiram
que a região voltasse a crescer. Em muitos países tais políticas
não tiveram tempo de amadurecer e gerar prosperidade para a maioria da
população, como aconteceu na Ásia e no Leste Europeu. Os
novos populistas atribuem a tais políticas a culpa pela miséria
e exigem o aumento do peso do Estado na economia. "O problema da América
Latina é essa mania de destruir tudo que já foi construído,
sem dar continuidade ao que foi feito de bom nos governos anteriores", disse a
VEJA o sociólogo chileno Manuel Antonio Garretón, da Universidade
do Chile. |