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Carta ao leitor Guerra
das caricaturas Lefteris
Pitarakis/AP
 | | Violência
verbal em Londres: "A Europa é o câncer, o Islã é a
resposta" |
Palavras ásperas têm
sido trocadas nas duas últimas semanas sobre o direito, a necessidade e
a propriedade de publicar as caricaturas do profeta Maomé que inflamaram
o mundo muçulmano. A publicação é legítima,
insere-se na tradição não só de liberdade de expressão
como de sátira de figuras religiosas que faz parte da cultura ocidental,
e os desenhos, embora possam compreensivelmente ser interpretados como ofensivos
por seguidores do Islã, não têm teor criminoso de incitação
ao ódio racial. Ademais, publicá-los, como argumentou um jornalista
alemão, equivale a exibir o corpus delicti: ajuda os leitores a
avaliar o real teor dos desenhos. Sem contar que não divulgá-los
implicaria ceder a um clima de medo e intimidação. Esses foram os
principais argumentos dos órgãos de comunicação que
publicaram as caricaturas dinamarquesas, inclusive VEJA. Nada disso, contrapôs-se
o lado contrário: a divulgação dos desenhos é uma
provocação gratuita, incentiva o preconceito contra muçulmanos,
ofende toda uma religião ou e este argumento está entre os
mais simplórios é burrice mostrar as charges.
O debate envolveu jornalistas, intelectuais, líderes políticos,
estudiosos das religiões e algumas poucas personalidades muçulmanas
de destaque, entre as quais o ativista polêmico Tariq Ramadan, que aborda
o assunto nas Páginas Amarelas desta edição de VEJA. Foi
uma discussão acalorada e chegou a escorregar para a irracionalidade, mas
ninguém pediu a cabeça dos adversários (bem, talvez alguns
jornalistas tenham pensado em fazer isso, mas não passaram do campo da
expressão inconsciente de desejos). Ao contrário, as manifestações
manipuladas e insufladas por grupos fundamentalistas em países muçulmanos
e europeus usaram de violência desproporcional tanto em palavras (vide o
cartaz da foto acima) quanto em atos, como se viu nos ataques a representações
diplomáticas. A forma como a "guerra das caricaturas" foi induzida e manipulada
por militantes fundamentalistas e ditaduras árabes (veja
a reportagem) ajuda a entender a onda de ódio que se espalhou
mundo afora. Ajuda também a dar algum alento a quem acredita que, excluindo-se
o elemento do fanatismo, a busca da verdade e da justiça é um valor
universal que pode criar um ponto de união entre pessoas que pensam de
maneira muito diferente. |