Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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Carta ao leitor
Guerra das caricaturas

 
Lefteris Pitarakis/AP
Violência verbal em Londres: "A Europa é o câncer, o Islã é a resposta"

Palavras ásperas têm sido trocadas nas duas últimas semanas sobre o direito, a necessidade e a propriedade de publicar as caricaturas do profeta Maomé que inflamaram o mundo muçulmano. A publicação é legítima, insere-se na tradição não só de liberdade de expressão como de sátira de figuras religiosas que faz parte da cultura ocidental, e os desenhos, embora possam compreensivelmente ser interpretados como ofensivos por seguidores do Islã, não têm teor criminoso de incitação ao ódio racial. Ademais, publicá-los, como argumentou um jornalista alemão, equivale a exibir o corpus delicti: ajuda os leitores a avaliar o real teor dos desenhos. Sem contar que não divulgá-los implicaria ceder a um clima de medo e intimidação. Esses foram os principais argumentos dos órgãos de comunicação que publicaram as caricaturas dinamarquesas, inclusive VEJA. Nada disso, contrapôs-se o lado contrário: a divulgação dos desenhos é uma provocação gratuita, incentiva o preconceito contra muçulmanos, ofende toda uma religião ou – e este argumento está entre os mais simplórios – é burrice mostrar as charges.

O debate envolveu jornalistas, intelectuais, líderes políticos, estudiosos das religiões e algumas poucas personalidades muçulmanas de destaque, entre as quais o ativista polêmico Tariq Ramadan, que aborda o assunto nas Páginas Amarelas desta edição de VEJA. Foi uma discussão acalorada e chegou a escorregar para a irracionalidade, mas ninguém pediu a cabeça dos adversários (bem, talvez alguns jornalistas tenham pensado em fazer isso, mas não passaram do campo da expressão inconsciente de desejos). Ao contrário, as manifestações manipuladas e insufladas por grupos fundamentalistas em países muçulmanos e europeus usaram de violência desproporcional tanto em palavras (vide o cartaz da foto acima) quanto em atos, como se viu nos ataques a representações diplomáticas. A forma como a "guerra das caricaturas" foi induzida e manipulada por militantes fundamentalistas e ditaduras árabes (veja a reportagem) ajuda a entender a onda de ódio que se espalhou mundo afora. Ajuda também a dar algum alento a quem acredita que, excluindo-se o elemento do fanatismo, a busca da verdade e da justiça é um valor universal que pode criar um ponto de união entre pessoas que pensam de maneira muito diferente.

 
 
 
 
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