Edição 1943 . 15 de fevereiro de 2006

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André Petry
A favor da blasfêmia

"Temos o direito de criticar, negar, satirizar
o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e
Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e
toda a imensa fileira de deuses e deusas
que a humanidade criou e criará"

Atenção, amantes da liberdade: autoridades religiosas estão tentando aproveitar a crise das charges dinamarquesas para suprimir o sagrado direito à blasfêmia. Os chefes islâmicos, com sua absoluta ignorância sobre o que é um Estado laico, exigem que o governo da Dinamarca se desculpe publicamente pela publicação das charges. Não compreendem que o governo não tem do que se desculpar porque não tem a mínima responsabilidade sobre o que publica ou deixa de publicar um jornal independente. Se o governo dinamarquês cair na cilada estará decretada a vitória do atraso: a tutela do Estado sobre a imprensa e, no rastro dessa miséria, a restrição da liberdade de crítica à religião.

Autoridades católicas também tentam arrancar um naco da liberdade de expressão. O L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, fez questão de solidarizar-se com os muçulmanos porque, entre outras razões, a própria Igreja Católica gostaria de restringir o direito à blasfêmia dentro de seus domínios. No mesmo texto em que defende os censores islâmicos, o jornal reclama de uma peça de teatro em cartaz em Madri, na Espanha, que satiriza o papa e "incita à apostasia".

É curioso que, na semana passada, a imprensa brasileira tenha começado a se encantar com a censura religiosa. Mesmo depois de tantas bandeiras queimadas, prédios depredados e vidas perdidas, continuaram a aparecer artigos, colunas e editoriais defendendo as trevas. Sustentava-se que as charges são grosseiras e sua publicação é uma irresponsabilidade, que os desenhos são uma incitação ao ódio religioso, que a Europa está ficando islamofóbica, que defesa da liberdade de expressão nesse caso não passa de um sofisma idiota e até que – supremo horror – o Ocidente perdeu o valor do sagrado. São idéias ingênuas. Ou espertas demais.

Não importa que as charges sejam grosseiras (e são). Não importa, para efeito desta discussão, que a Europa esteja dando sinais de islamofobia (e está). Não importa que a explicação do jornal dinamarquês para publicar as charges – medir até onde os chargistas ousariam ir na sátira ao profeta Maomé e ao islamismo – seja juvenil. Na democracia, temos o direito à blasfêmia. Temos o direito de criticar, negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus – e toda a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará.

A blasfêmia é o antídoto contra o triunfo do dogmatismo, é um convite à imaginação e ao trânsito de idéias do qual a humanidade não pode abrir mão sob pena de fossilizar-se. A liberdade de blasfemar é essencial porque deus, seja ele qual for, é uma idéia, e não um dado da realidade. E temos o direito de criticar, negar, satirizar toda e qualquer idéia, desde que ao fazê-lo não incitemos ao crime. Se não houver direito à blasfêmia, então devemos rasgar os versos de Dante Alighieri e Fernando Pessoa, queimar os filmes de Godard e de Theo van Gogh, incinerar os livros de Salman Rushdie, quebrar os pincéis de Giovanni de Modena e destruir os afrescos da Basílica de São Petrônio em Bolonha...

Temos o direito sagrado à blasfêmia, assim como, pelo mais elementar princípio da tolerância religiosa, temos o direito sagrado de acreditar em Deus e reverenciá-lo. Ou não.

 
 
 
 
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