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André
Petry
A favor da blasfêmia
"Temos o direito de
criticar, negar, satirizar
o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo e
Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus e
toda a imensa fileira de deuses e deusas
que a humanidade criou e criará"
Atenção, amantes
da liberdade: autoridades religiosas estão tentando aproveitar
a crise das charges dinamarquesas para suprimir o sagrado direito
à blasfêmia. Os chefes islâmicos, com sua absoluta
ignorância sobre o que é um Estado laico, exigem que
o governo da Dinamarca se desculpe publicamente pela publicação
das charges. Não compreendem que o governo não tem
do que se desculpar porque não tem a mínima responsabilidade
sobre o que publica ou deixa de publicar um jornal independente.
Se o governo dinamarquês cair na cilada estará decretada
a vitória do atraso: a tutela do Estado sobre a imprensa
e, no rastro dessa miséria, a restrição da
liberdade de crítica à religião.
Autoridades católicas
também tentam arrancar um naco da liberdade de expressão.
O L'Osservatore Romano, jornal do Vaticano, fez questão
de solidarizar-se com os muçulmanos porque, entre outras
razões, a própria Igreja Católica gostaria
de restringir o direito à blasfêmia dentro de seus
domínios. No mesmo texto em que defende os censores islâmicos,
o jornal reclama de uma peça de teatro em cartaz em Madri,
na Espanha, que satiriza o papa e "incita à apostasia".
É curioso que, na semana
passada, a imprensa brasileira tenha começado a se encantar
com a censura religiosa. Mesmo depois de tantas bandeiras queimadas,
prédios depredados e vidas perdidas, continuaram a aparecer
artigos, colunas e editoriais defendendo as trevas. Sustentava-se
que as charges são grosseiras e sua publicação
é uma irresponsabilidade, que os desenhos são uma
incitação ao ódio religioso, que a Europa está
ficando islamofóbica, que defesa da liberdade de expressão
nesse caso não passa de um sofisma idiota e até que
supremo horror o Ocidente perdeu o valor do sagrado.
São idéias ingênuas. Ou espertas demais.
Não importa que as charges
sejam grosseiras (e são). Não importa, para efeito
desta discussão, que a Europa esteja dando sinais de islamofobia
(e está). Não importa que a explicação
do jornal dinamarquês para publicar as charges medir
até onde os chargistas ousariam ir na sátira ao profeta
Maomé e ao islamismo seja juvenil. Na democracia,
temos o direito à blasfêmia. Temos o direito de criticar,
negar, satirizar o profeta Maomé e Alá e Jesus Cristo
e Shiva e Buda e Xangô e Jeová e Zeus e toda
a imensa fileira de deuses e deusas que a humanidade criou e criará.
A blasfêmia é o
antídoto contra o triunfo do dogmatismo, é um convite
à imaginação e ao trânsito de idéias
do qual a humanidade não pode abrir mão sob pena de
fossilizar-se. A liberdade de blasfemar é essencial porque
deus, seja ele qual for, é uma idéia, e não
um dado da realidade. E temos o direito de criticar, negar, satirizar
toda e qualquer idéia, desde que ao fazê-lo não
incitemos ao crime. Se não houver direito à blasfêmia,
então devemos rasgar os versos de Dante Alighieri e Fernando
Pessoa, queimar os filmes de Godard e de Theo van Gogh, incinerar
os livros de Salman Rushdie, quebrar os pincéis de Giovanni
de Modena e destruir os afrescos da Basílica de São
Petrônio em Bolonha...
Temos o direito sagrado à
blasfêmia, assim como, pelo mais elementar princípio
da tolerância religiosa, temos o direito sagrado de acreditar
em Deus e reverenciá-lo. Ou não.
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