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Luiz
Felipe de Alencastro
A
gramática do poder
"Ao
tratar o presidente dos EUA
de
'companheiro Bush', manter um
contato espontâneo com populares e
chorar em público, o presidente Lula
ainda está construindo o espaço e os
códigos do poder de
que está investido"
Ilustração Ale Setti
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Para o devido respeito à hierarquia social vigoravam, em Portugal
e no Brasil colonial, as "leis das cortesias" que fixavam o emprego do
tratamento e puniam quem usasse fórmulas inadequadas a seu status.
Na primeira lei, datada de 1597, el-rei Felipe II definiu quais eram os
aristocratas e os detentores de cargos régios que tinham direito
ao tratamento de "Vossa Excelência" ou de "Vossa Senhoria". Mais
tarde, constatando "a confusão" existente nas cortesias e no tratamento
de "Senhoria", empregado "com tanto excesso e vulgaridade que se confunde
a ordem e se perverte a distinção que faz os tratamentos
estimáveis", o rei dom João V editou, em 1739, novas normas.
Por essa época, estava em andamento a derivação de
Vossa Mercê que iria resultar no você. A substituição
do "tu" e do "vós" pelo "você" característica
do português falado no Brasil constitui uma marca da informalidade
e, pretendem alguns, da indiferença brasileira à hierarquia
social. Mas a hierarquia sempre se restabelece, às vezes abruptamente.
"Você,
é a mãe!". Foi desse jeito que o presidente Collor respondeu
a um incauto jornalista que o tratara por "você" durante seu tumultuado
mandato. A forma da resposta é acafajestada, mas, no fundo, Collor
tinha razão. O cargo presidencial impõe a todos o respeito
reservado, primeiro e sobretudo, à função ocupada
pelo eleito.
Entre o tratamento de fraternidade sindicalista que o fez chamar o presidente
dos EUA de "companheiro Bush", a espontaneidade de seu contato com os
populares e os choros em público, o presidente Lula ainda está
construindo o espaço e os códigos do poder de que está
investido. Esse processo influencia diretamente a percepção
externa sobre o novo governo brasileiro.
Desse modo, de um dia para outro, desenhou-se uma nítida reavaliação
positiva da Presidência de Lula. Nos Estados Unidos, a imprensa
não havia dado a menor pelota à posse do novo presidente.
No entanto, logo no dia seguinte, a dimensão das manifestações
em Brasília levou o The Miami Herald, jornal importante
na comunidade latina da Flórida, a reconsiderar o evento sob uma
luz mais favorável. Julgando que a Casa Branca havia mal calculado
a importância da posse, o Herald afirmou: "Não é
difícil concluir que Bush cometeu um erro por não mandar
pelo menos o secretário de Estado, Colin Powell, além de
Zoellick (o secretário de Comércio, representante oficial
dos EUA)". No mesmo dia, o Le Monde fazia um editorial similar,
criticando a gafe diplomática francesa. Para o jornal parisiense,
Jacques Chirac deveria ter mandado o primeiro-ministro ou o ministro do
Exterior francês a Brasília, a fim de "saudar a chegada à
direção desse país-continente de um homem portador
de uma imensa esperança para seu povo, mas também para todos
os povos da América Latina e, além disso, para o (Hemisfério)
Sul". A estocada atingiu o governo e, no dia seguinte, o ministro do Exterior
escreveu ao jornal uma carta de explicações cuja primeira
linha retomava o tom empolgado do editorial. "Que alegria e que honra
teria sido para mim estar no Brasil num dia em que toda a vitalidade e
o dinamismo da América Latina tinham encontro marcado." Nos meus
25 anos de estada na França e em 35 anos de leitura regular do
Le Monde não me lembro de nenhuma controvérsia análoga,
em que o ministro do Exterior e o principal jornal do país tenham
alternado elogios ao Brasil numa discussão sobre política
exterior francesa.
Quando os caminhos do atual governo cruzarem as enormes expectativas que
ele vem suscitando, o destino da Presidência Lula estará
selado. No meio tempo, no processo de definição de sua imagem
pública, Lula poderia seguir o conselho simples e profundo da Duquesa,
um dos personagens de Alice no País das Maravilhas, de Lewis
Carroll, que vale tanto para sua pessoa como para o país de que
é presidente: "Seja o que você parece ser!".
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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