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Edição 1 785 - 15 de janeiro de 2003
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Luiz Felipe de Alencastro

A gramática do poder

"Ao tratar o presidente dos EUA de
'companheiro Bush', manter um
contato espontâneo com populares e
chorar em público, o presidente Lula
ainda está construindo o espaço e os
códigos do poder
de que está investido"


Ilustração Ale Setti


Para o devido respeito à hierarquia social vigoravam, em Portugal e no Brasil colonial, as "leis das cortesias" que fixavam o emprego do tratamento e puniam quem usasse fórmulas inadequadas a seu status. Na primeira lei, datada de 1597, el-rei Felipe II definiu quais eram os aristocratas e os detentores de cargos régios que tinham direito ao tratamento de "Vossa Excelência" ou de "Vossa Senhoria". Mais tarde, constatando "a confusão" existente nas cortesias e no tratamento de "Senhoria", empregado "com tanto excesso e vulgaridade que se confunde a ordem e se perverte a distinção que faz os tratamentos estimáveis", o rei dom João V editou, em 1739, novas normas. Por essa época, estava em andamento a derivação de Vossa Mercê que iria resultar no você. A substituição do "tu" e do "vós" pelo "você" — característica do português falado no Brasil — constitui uma marca da informalidade e, pretendem alguns, da indiferença brasileira à hierarquia social. Mas a hierarquia sempre se restabelece, às vezes abruptamente.

"Você, é a mãe!". Foi desse jeito que o presidente Collor respondeu a um incauto jornalista que o tratara por "você" durante seu tumultuado mandato. A forma da resposta é acafajestada, mas, no fundo, Collor tinha razão. O cargo presidencial impõe a todos o respeito reservado, primeiro e sobretudo, à função ocupada pelo eleito.

Entre o tratamento de fraternidade sindicalista que o fez chamar o presidente dos EUA de "companheiro Bush", a espontaneidade de seu contato com os populares e os choros em público, o presidente Lula ainda está construindo o espaço e os códigos do poder de que está investido. Esse processo influencia diretamente a percepção externa sobre o novo governo brasileiro.

Desse modo, de um dia para outro, desenhou-se uma nítida reavaliação positiva da Presidência de Lula. Nos Estados Unidos, a imprensa não havia dado a menor pelota à posse do novo presidente. No entanto, logo no dia seguinte, a dimensão das manifestações em Brasília levou o The Miami Herald, jornal importante na comunidade latina da Flórida, a reconsiderar o evento sob uma luz mais favorável. Julgando que a Casa Branca havia mal calculado a importância da posse, o Herald afirmou: "Não é difícil concluir que Bush cometeu um erro por não mandar pelo menos o secretário de Estado, Colin Powell, além de Zoellick (o secretário de Comércio, representante oficial dos EUA)". No mesmo dia, o Le Monde fazia um editorial similar, criticando a gafe diplomática francesa. Para o jornal parisiense, Jacques Chirac deveria ter mandado o primeiro-ministro ou o ministro do Exterior francês a Brasília, a fim de "saudar a chegada à direção desse país-continente de um homem portador de uma imensa esperança para seu povo, mas também para todos os povos da América Latina e, além disso, para o (Hemisfério) Sul". A estocada atingiu o governo e, no dia seguinte, o ministro do Exterior escreveu ao jornal uma carta de explicações cuja primeira linha retomava o tom empolgado do editorial. "Que alegria e que honra teria sido para mim estar no Brasil num dia em que toda a vitalidade e o dinamismo da América Latina tinham encontro marcado." Nos meus 25 anos de estada na França e em 35 anos de leitura regular do Le Monde não me lembro de nenhuma controvérsia análoga, em que o ministro do Exterior e o principal jornal do país tenham alternado elogios ao Brasil numa discussão sobre política exterior francesa.

Quando os caminhos do atual governo cruzarem as enormes expectativas que ele vem suscitando, o destino da Presidência Lula estará selado. No meio tempo, no processo de definição de sua imagem pública, Lula poderia seguir o conselho simples e profundo da Duquesa, um dos personagens de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que vale tanto para sua pessoa como para o país de que é presidente: "Seja o que você parece ser!".


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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