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Edição 1 785 - 15 de janeiro de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

O governo Lula – primeiras impressões

Este é o 30º ou 50º presidente?
E ainda: a simpatia de Lula e
Marina Silva como Frida Kahlo

Luiz Inácio Lula da Silva pode ser considerado desde o 30º, ou 35º presidente do Brasil, até o 45º ou 50º, à vontade do freguês. Contar os presidentes é complicado. Ranieri Mazzilli, o presidente da Câmara dos Deputados que preencheu o vácuo da renúncia de Jânio Quadros por duas semanas, em 1961, e cumpriu o mesmo papel, por outras duas semanas, na deposição de João Goulart, em 1964, conta ou não? Se conta, vale por uma Presidência ou duas? E Carlos Luz, outro deputado, sucessor de Café Filho por três dias, em 1955, conta? Se conta, devem contar também os plantonistas que substituem os presidentes nas viagens, inclusive o inesquecível homem de Mombaça, deputado Paes de Andrade, que encheu o avião presidencial e foi auto-homenagear-se na cidade natal, quando lhe coube substituir o presidente Sarney. As dificuldades duplicam quando se depara com as juntas militares – a que por dez dias cuidou da Presidência na deposição de Washington Luís, em 1930, e a que por dois meses sucedeu ao presidente Costa e Silva, em 1969. Junta conta? Se conta, contribui com mais três presidentes ou só com um, como se fosse um só bicho – um monstro, e a comparação não lhe cai mal – de três cabeças?

Não é à toa que cada órgão de imprensa deu uma posição para Lula, no rol dos presidentes. Só uma comissão de sábios, com poderes para fixar critérios definitivos, poria fim ao caos. Mas vale a pena? Querer contar os presidentes direitinho, como fazem os americanos, é igual a festejar o Halloween. É querer imitá-los. Assumamos nossa história. A impossível lista dos presidentes reflete nossa bagunça fundadora.

 

Há algo de perturbador no fato de os primeiros dias do governo se caracterizarem por tantas continuidades. Não só Palocci ecoa Malan e Meirelles copia Armínio Fraga como o governo do PT, diante do desafio dos governadores, põe-se em defesa da Lei de Responsabilidade Fiscal, que repudiou no passado. Isso sem falar no reconhecimento tributado ao governo anterior em setores como a educação e a saúde. O perturbador nisso é que abala uma das principais características do PT – o de partido da ética. Fica no ar a impressão de que não foi sincero nas posições que defendeu no passado. E, como ética não é só não roubar, mas também não fingir, nem pintar como errado o que no fundo acha certo, fica a impressão de que faltou com a ética.

Lula é o mais simpático presidente brasileiro pelo menos desde Juscelino Kubitschek. Mesmo diante de uma situação embaraçosa, como a do homem que lhe pediu para subir na motocicleta, na semana passada, sai-se com graça. Lula já era uma pessoa notoriamente satisfeita em sua pele. Depois do reforço de auto-estima representado pelo triunfo eleitoral, ficou mais ainda. Fernando Henrique Cardoso também é pessoa bem resolvida, mas é professor e, nessa qualidade, com freqüência, professoral. Também tem o vezo, característico das pessoas de seu nível intelectual, da ironia – algo que, se se comunica bem com a inteligência dos interlocutores, não cativa os corações. Lula não usa da ironia. Sua maneira de comunicar-se, com a palavra ou com o corpo, é direta. Deve ser por isso que os brasileiros estão enamorados dele.

 

Dez dias de governo bastaram para definir o ministro campeão da trapalhada. É o titular da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, o homem que, numa entrevista, defendeu a pesquisa da bomba atômica no Brasil. A trapalhada começa na suspeita de que Amaral talvez tenha errado de porta, ao entrar no governo Lula. Melhor se daria no gabinete do doutor Enéas.

Nem de dez dias se precisou para definir aquela que, entre os 34 novos ministros, tem a unanimidade da nação. É Marina Silva, a senadora do Acre feita ministra do Meio Ambiente. Se Lula é um símbolo ambulante da vitória sobre a adversidade social, Marina é também isso e, de quebra, símbolo da vitória sobre a adversidade em geral. O fiapo de corpinho, a saúde precária e a voz de criança são compensados pelo discurso forte e, sobretudo, pela grandeza moral que irradia. Mas há mais... Repare-se nas sobrancelhas grossas, na cor da pele, no corpo miúdo, o rosto magro... Marina Silva tem traços que lembram Frida Kahlo! Sim, Frida Kahlo: a pintora mexicana que se auto-retratou à exaustão, em telas comoventes.

Frida Kahlo é hoje a mais prestigiada artista mexicana, mais ainda do que os célebres muralistas, entre os quais seu marido, Diego Rivera. Muito provavelmente é a mais prestigiada – e amada – artista latino-americana. Tinha saúde frágil como Marina Silva e gostava de povoar as telas com animais e plantas que bem poderiam ser tomados por espécimes da Amazônia. A parecença aponta para mais além da simples curiosidade. Marina Silva, como Frida Kahlo, presta-se a representar as profundezas de Nuestra America.

   
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