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Roberto
Pompeu de Toledo
O
governo Lula primeiras impressões
Este
é o 30º
ou 50º presidente?
E
ainda: a
simpatia de
Lula e
Marina
Silva como
Frida
Kahlo
Luiz Inácio Lula da Silva pode ser considerado desde o 30º,
ou 35º presidente do Brasil, até o 45º ou 50º, à
vontade do freguês. Contar os presidentes é complicado. Ranieri
Mazzilli, o presidente da Câmara dos Deputados que preencheu o vácuo
da renúncia de Jânio Quadros por duas semanas, em 1961, e
cumpriu o mesmo papel, por outras duas semanas, na deposição
de João Goulart, em 1964, conta ou não? Se conta, vale por
uma Presidência ou duas? E Carlos Luz, outro deputado, sucessor
de Café Filho por três dias, em 1955, conta? Se conta, devem
contar também os plantonistas que substituem os presidentes nas
viagens, inclusive o inesquecível homem de Mombaça, deputado
Paes de Andrade, que encheu o avião presidencial e foi auto-homenagear-se
na cidade natal, quando lhe coube substituir o presidente Sarney. As dificuldades
duplicam quando se depara com as juntas militares a que por dez
dias cuidou da Presidência na deposição de Washington
Luís, em 1930, e a que por dois meses sucedeu ao presidente Costa
e Silva, em 1969. Junta conta? Se conta, contribui com mais três
presidentes ou só com um, como se fosse um só bicho
um monstro, e a comparação não lhe cai mal
de três cabeças?
Não é à toa que cada órgão de imprensa
deu uma posição para Lula, no rol dos presidentes. Só
uma comissão de sábios, com poderes para fixar critérios
definitivos, poria fim ao caos. Mas vale a pena? Querer contar os presidentes
direitinho, como fazem os americanos, é igual a festejar o Halloween.
É querer imitá-los. Assumamos nossa história. A impossível
lista dos presidentes reflete nossa bagunça fundadora.
Há algo de perturbador no fato de os primeiros dias do governo
se caracterizarem por tantas continuidades. Não só Palocci
ecoa Malan e Meirelles copia Armínio Fraga como o governo do PT,
diante do desafio dos governadores, põe-se em defesa da Lei de
Responsabilidade Fiscal, que repudiou no passado. Isso sem falar no reconhecimento
tributado ao governo anterior em setores como a educação
e a saúde. O perturbador nisso é que abala uma das principais
características do PT o de partido da ética. Fica
no ar a impressão de que não foi sincero nas posições
que defendeu no passado. E, como ética não é só
não roubar, mas também não fingir, nem pintar como
errado o que no fundo acha certo, fica a impressão de que faltou
com a ética.
Lula
é o mais simpático presidente brasileiro pelo menos desde
Juscelino Kubitschek. Mesmo diante de uma situação embaraçosa,
como a do homem que lhe pediu para subir na motocicleta, na semana passada,
sai-se com graça. Lula já era uma pessoa notoriamente satisfeita
em sua pele. Depois do reforço de auto-estima representado pelo
triunfo eleitoral, ficou mais ainda. Fernando Henrique Cardoso também
é pessoa bem resolvida, mas é professor e, nessa qualidade,
com freqüência, professoral. Também tem o vezo, característico
das pessoas de seu nível intelectual, da ironia algo que,
se se comunica bem com a inteligência dos interlocutores, não
cativa os corações. Lula não usa da ironia. Sua maneira
de comunicar-se, com a palavra ou com o corpo, é direta. Deve ser
por isso que os brasileiros estão enamorados dele.
Dez dias de governo bastaram para definir o ministro campeão da
trapalhada. É o titular da Ciência e Tecnologia, Roberto
Amaral, o homem que, numa entrevista, defendeu a pesquisa da bomba atômica
no Brasil. A trapalhada começa na suspeita de que Amaral talvez
tenha errado de porta, ao entrar no governo Lula. Melhor se daria no gabinete
do doutor Enéas.
Nem de dez dias se precisou para definir aquela que, entre os 34 novos
ministros, tem a unanimidade da nação. É Marina Silva,
a senadora do Acre feita ministra do Meio Ambiente. Se Lula é um
símbolo ambulante da vitória sobre a adversidade social,
Marina é também isso e, de quebra, símbolo da vitória
sobre a adversidade em geral. O fiapo de corpinho, a saúde precária
e a voz de criança são compensados pelo discurso forte e,
sobretudo, pela grandeza moral que irradia. Mas há mais... Repare-se
nas sobrancelhas grossas, na cor da pele, no corpo miúdo, o rosto
magro... Marina Silva tem traços que lembram Frida Kahlo! Sim,
Frida Kahlo: a pintora mexicana que se auto-retratou à exaustão,
em telas comoventes.
Frida Kahlo é hoje a mais prestigiada artista mexicana, mais ainda
do que os célebres muralistas, entre os quais seu marido, Diego
Rivera. Muito provavelmente é a mais prestigiada e amada
artista latino-americana. Tinha saúde frágil como
Marina Silva e gostava de povoar as telas com animais e plantas que bem
poderiam ser tomados por espécimes da Amazônia. A parecença
aponta para mais além da simples curiosidade. Marina Silva, como
Frida Kahlo, presta-se a representar as profundezas de Nuestra America.
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