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Os gays
de Hollywood
Na
tela, galãs que enlouqueciam
as mulheres e estrelas que faziam
suspirar os marmanjos. Fora dela...
Marcelo
Marthe
Celebrizado por papéis de caubói valentão, o astro
Gary Cooper passou à história do cinema como protótipo
do homem másculo. Mas há um dado que abala essa imagem.
Em sua juventude, nos anos 20, Cooper foi ligado ao ator homossexual Anderson
Lawler. Preferia, inclusive, sua companhia à da namorada. Inseparáveis,
ambos passavam longas horas juntos no campo, trocavam telegramas afetuosos
e chegaram a dividir o mesmo teto. Essa relação ia além
da amizade é o que afirma o jornalista americano William
J. Mann em Bastidores de Hollywood (tradução
de Celina Cavalcante Falck; Landscape; 448 páginas; 51 reais).
No livro, que acaba de sair no país, Mann faz um inventário
da presença dos gays e lésbicas no cinema americano entre
1910 e 1969. Mais do que analisar o tratamento dispensado a eles nos filmes,
interessa-lhe mostrar como os homossexuais envolvidos com o cinema viviam
na época áurea dos grandes estúdios. Boa parte do
livro é preenchida com perfis de gays que trabalhavam atrás
das câmeras, cuidando dos figurinos ou da direção
de arte, por exemplo. Pode-se pular essa parte e ir direto ao ponto: os
capítulos em que o autor se dedica a tirar do armário celebridades
mortas. Mann um pesquisador que não disfarça sua
militância gay reúne histórias de famosos cuja
homossexualidade é conhecida ou que já foram objeto de especulação,
como a atriz Marlene Dietrich, o astro Cary Grant e o diretor Vincente
Minnelli. E tenta provar que outros nomes até então insuspeitos,
como o próprio Cooper e a estrela dos primeiros tempos do cinema
falado Claudette Colbert, tiveram experiências na área.
Revelar-se gay em Hollywood era e é duplamente complicado.
Isso porque, afora o preconceito social, o trabalho de um astro está
colado à sua imagem pública. Um ator ou atriz que proclame
preferências sexuais pouco ortodoxas verá limitadas as suas
possibilidades de atuação. Como tornar crível um
galã romântico se ele sai dizendo por aí que gosta
mesmo é de rapagões? "Mesmo atualmente, com o poder de vários
estúdios nas mãos de executivos homossexuais, é mau
negócio para um astro vir a público dizer que prefere os
garotos às mulheres", disse Mann a VEJA. Não é à
toa que a insinuação de que fosse gay levou o astro Tom
Cruise a processar o tablóide alemão Bild por danos
morais.
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Cary
Grant
"Assim
que o código de produção cinematográfica
foi estabelecido e começou a campanha contra os gays na tela
e na vida real, Cary Grant saiu de casa, onde vivia com Randolph
Scott, e casou-se com a atriz Virginia Cherrill. Desde o início,
o casamento foi um desastre:
Grant, que antes não ligava para nada, tentou o suicídio
depois de alguns meses. Libertado pelo divórcio, voltou a
morar com Scott. Dick Ellis passou alguns meses morando com Grant
e Scott, considerando-os profunda e loucamente apaixonados."
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Nesse
aspecto, Hollywood nunca foi diferente. Nos anos 20, talvez fosse até
mais fácil para um ator importante viver suas aventuras homossexuais,
já que não havia uma vigilância tão implacável
dos meios de comunicação. Foi nessa época que Claudette
Colbert, em razão de sua queda por garotas, ganhou um apelido:
entre os íntimos, ela era conhecida como Tio Claude. Mas os estúdios,
que detinham o passe dos astros e tinham um poder considerável
sobre suas carreiras, exigiam que eles se mantivessem dentro de limites
estreitos. Não se podia ir a eventos sociais sem um acompanhante
do sexo oposto. E permanecer solteiro por muito tempo era imprudente.
Um dos primeiros grandes astros do cinema, Jack Kerrigan foi tão
infernizado por sua condição de solteirão que certa
vez publicou um anúncio numa revista. "Até agora eu não
encontrei nenhuma moça que quisesse se casar comigo. Mas vou arranjar
uma, vocês vão ver só!", prometeu o mocinho. Ninguém
acreditou e sua carreira foi parar no limbo.
A partir dos anos 30, com a entrada em vigor do Código Hays, que
estabelecia a censura prévia dos filmes para eliminar qualquer
detalhe que pudesse atentar contra a moral e os bons costumes, a marcação
tornou-se ainda mais cerrada. O caso de Cary Grant um dos maiores
ícones masculinos produzidos pelo cinema é emblemático.
Até então, narra o livro, o astro morava com seu namorado,
o ator Randolph Scott, outro modelo de machão nas telas. Com a
cruzada moralizadora, Grant resolveu casar-se. Ao longo da vida, teve
cinco mulheres, e algumas nunca esconderam quanto foram infelizes. Na
velhice, ele freqüentemente era visto num restaurante com seu velho
e bom amigo Scott, de mãos dadas. O uso do casamento como disfarce
foi seguido por muitos outros, do astro Rock Hudson ao diretor Vincente
Minnelli, criador de musicais como Um Americano em Paris. Mann
pinta o cineasta como uma figura pateticamente enrustida, que se casou
na meia-idade para tentar apagar seu passado gay. Até nisso Minnelli
deu bandeira: uniu-se a Judy Garland, um dos maiores ídolos do
público homossexual graças às suas cantorias em musicais
como O Mágico de Oz. A ironia do destino é que ambos
geraram Liza Minnelli outra artista venerada pelas hostes do arco-íris.
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Marlene
Dietrich
"Na estréia alemã de O Anjo Azul, ela
subiu ao palco com um ramo de violetas pregado ao vestido na altura
da virilha. Violetas, o símbolo do lesbianismo. Foi um gesto
a favor das 'meninas', como ela costumava se referir carinhosamente
ao bando de mulheres transviadas que chamava de amigas."
Vincente
Minnelli
"A homossexualidade de
Vincente Minnelli não era tratada pela indústria como
do mesmo tipo 'livro aberto' que a
do diretor George Cukor. Isso apesar do
fato de Minnelli ser muito mais efeminado do que Cukor ou seu colega
Charles Walters."
Gary
Cooper
"Alguns
ainda ficam em dúvida sobre a homossexualidade de Cooper.
Mas as demarcações da sexualidade eram muito mais
fluidas em 1929 do que são hoje. Admitir a possibilidade
de uma relação sexual e romântica entre Cooper
e o ator Anderson Lawler não é uma idéia tão
radical assim."
Claudette
Colbert
Costumávamos
chamá-la de Tio Claude disse Don Bachardy, o amante
do escritor Christopher Isherwood. Na verdade, acho que ela
é mesmo um bom exemplo de uma situação bem
enrustida. Só no círculo mais íntimo dela é
que sabiam da verdade."
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