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Morto
a pontapés
Três rapazes desocupados divertem-se
chutando
um índio que dormia na calçada
Karine
Moura Vieira
Sem muito que fazer numa noite de segunda-feira em cidade pequena, os
amigos Roberto Carlos Moraski e Almiro Borges Souza, ambos de 19 anos,
juntaram-se a um garoto de 14 em Miraguaí, a 470 quilômetros
de Porto Alegre, e decidiram fazer uma brincadeira com um homem que dormia
numa calçada. A idéia era chutar o mendigo até que
ele acordasse e se levantasse. Chutaram. Ele não se levantou. Parecia
bêbado. Chutaram ainda mais e jogaram uma pedra. O homem nem assim
se levantou. Só soltou uns gemidos. Os rapazes enjoaram da diversão,
andaram algumas quadras, dispersaram-se, foram dormir. No dia seguinte,
souberam que o índio caingangue Leopoldo Crespo, de 77 anos, o
homem que tinham espancado, morrera de traumatismo craniano numa
repetição, em outro cenário e com outras armas, do
caso ocorrido em Brasília há quase seis anos.
Naquela ocasião, para se divertir, cinco rapazes da mesma faixa
etária atearam fogo num índio, que também dormia
ao relento. Queimaram vivo o pataxó Galdino Jesus dos Santos, e
a cena acabou presenciada por uma testemunha que anotou a placa do carro
usado pelos assassinos. Desta vez, do mesmo modo, uma pessoa presenciou
a cena final do espancamento, tentou socorrer o índio e pôde
descrever e reconhecer, depois, os agressores. Rapidamente encontrados,
os garotos confessaram o crime. "Para eles, tinha sido só uma brincadeira",
diz a delegada Cristiane de Moura e Silva.
Leopoldo vivia na Reserva da Guarita, uma área de 23.000 hectares
ocupada pelos índios há mais de 150 anos. Hoje existem 1.030
famílias caingangues e 23 guaranis no local. O índio tinha
ido a Miraguaí de carona na manhã da segunda 6, para fazer
compras. Como teria de voltar à cidade no dia seguinte, para receber
sua aposentadoria, preferiu dormir na rua e economizar o dinheiro da passagem
até a reserva, a 7 quilômetros do centro. Era um dos mais
velhos moradores da aldeia. Os três rapazes são de famílias
humildes. Roberto e Almiro têm antecedentes por ameaças,
porte ilegal de armas e danos ao patrimônio público. Foram
presos e indiciados por homicídio qualificado. O menor foi encaminhado
para uma unidade da Fundação de Atendimento Sócio
Educacional (Fase) do Rio Grande do Sul, em Santo Ângelo.
Desentendimentos entre índios daquela reserva e moradores das cidades
vizinhas não são incomuns, embora poucas vezes tenha ocorrido
violência física. O relacionamento era melhor na época
em que os índios podiam alugar terras aos agricultores locais,
mas a prática está proibida e nos últimos anos a
fiscalização a extinguiu. "Com isso, eles ficaram ainda
mais isolados das comunidades vizinhas", diz o administrador regional
da Funai, Neri Ribeiro. Os rapazes sabiam que o homem que dormia na calçada
era um caingangue. Do ponto de vista legal, isso não faz nenhuma
diferença. Mas, para entidades de defesa dos direitos indígenas
e para a história não muito edificante do país nesse
aspecto, conta muito. No caso de Brasília, os matadores se desculparam
com os pataxós dizendo que pensavam estar agredindo "apenas" um
mendigo. Não estavam enganados. Como Leopoldo, de Miraguaí,
a vítima era índio e também mendigo.
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