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Edição 1 785 - 15 de janeiro de 2003
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Morto a pontapés

Três rapazes desocupados divertem-se
chutando um índio que dormia na calçada

Karine Moura Vieira

Sem muito que fazer numa noite de segunda-feira em cidade pequena, os amigos Roberto Carlos Moraski e Almiro Borges Souza, ambos de 19 anos, juntaram-se a um garoto de 14 em Miraguaí, a 470 quilômetros de Porto Alegre, e decidiram fazer uma brincadeira com um homem que dormia numa calçada. A idéia era chutar o mendigo até que ele acordasse e se levantasse. Chutaram. Ele não se levantou. Parecia bêbado. Chutaram ainda mais e jogaram uma pedra. O homem nem assim se levantou. Só soltou uns gemidos. Os rapazes enjoaram da diversão, andaram algumas quadras, dispersaram-se, foram dormir. No dia seguinte, souberam que o índio caingangue Leopoldo Crespo, de 77 anos, o homem que tinham espancado, morrera de traumatismo craniano — numa repetição, em outro cenário e com outras armas, do caso ocorrido em Brasília há quase seis anos.

Naquela ocasião, para se divertir, cinco rapazes da mesma faixa etária atearam fogo num índio, que também dormia ao relento. Queimaram vivo o pataxó Galdino Jesus dos Santos, e a cena acabou presenciada por uma testemunha que anotou a placa do carro usado pelos assassinos. Desta vez, do mesmo modo, uma pessoa presenciou a cena final do espancamento, tentou socorrer o índio e pôde descrever e reconhecer, depois, os agressores. Rapidamente encontrados, os garotos confessaram o crime. "Para eles, tinha sido só uma brincadeira", diz a delegada Cristiane de Moura e Silva.

Leopoldo vivia na Reserva da Guarita, uma área de 23.000 hectares ocupada pelos índios há mais de 150 anos. Hoje existem 1.030 famílias caingangues e 23 guaranis no local. O índio tinha ido a Miraguaí de carona na manhã da segunda 6, para fazer compras. Como teria de voltar à cidade no dia seguinte, para receber sua aposentadoria, preferiu dormir na rua e economizar o dinheiro da passagem até a reserva, a 7 quilômetros do centro. Era um dos mais velhos moradores da aldeia. Os três rapazes são de famílias humildes. Roberto e Almiro têm antecedentes por ameaças, porte ilegal de armas e danos ao patrimônio público. Foram presos e indiciados por homicídio qualificado. O menor foi encaminhado para uma unidade da Fundação de Atendimento Sócio Educacional (Fase) do Rio Grande do Sul, em Santo Ângelo.

Desentendimentos entre índios daquela reserva e moradores das cidades vizinhas não são incomuns, embora poucas vezes tenha ocorrido violência física. O relacionamento era melhor na época em que os índios podiam alugar terras aos agricultores locais, mas a prática está proibida e nos últimos anos a fiscalização a extinguiu. "Com isso, eles ficaram ainda mais isolados das comunidades vizinhas", diz o administrador regional da Funai, Neri Ribeiro. Os rapazes sabiam que o homem que dormia na calçada era um caingangue. Do ponto de vista legal, isso não faz nenhuma diferença. Mas, para entidades de defesa dos direitos indígenas e para a história não muito edificante do país nesse aspecto, conta muito. No caso de Brasília, os matadores se desculparam com os pataxós dizendo que pensavam estar agredindo "apenas" um mendigo. Não estavam enganados. Como Leopoldo, de Miraguaí, a vítima era índio e também mendigo.

   
 
   
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