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Edição 1 785 - 15 de janeiro de 2003
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É horrível, mas eles gostam

Pesquisa mostra que os americanos
gostam de pegar a estrada para
conhecer monumentos kitsch

Monica Weinberg

 
AP

Skowhegan Area Chamber of Commerce

A elefanta Lucy e o maior índio do mundo, no Maine: o que não se faz para vender mais

A Associação da Indústria do Turismo dos Estados Unidos encomendou uma pesquisa para conhecer um pouco melhor os americanos que viajam de férias com a família, de carro. Queria saber o que mais os atrai na hora de decidir o destino da viagem. Três respostas se destacaram. Uma fatia de entrevistados, que gosta de fazer compras, declarou escolher o lugar levando em conta a oferta de lojas existentes no local. Outro grupo disse selecionar o destino considerando as facilidades para a prática de atividades ao ar livre. A terceira resposta chamou a atenção dos entrevistadores. Uma parte dos turistas disse preferir locais onde possa admirar monumentos. A associação foi verificar que monumentos são esses e localizou estátuas "pré-históricas", caubóis tamanho-família e marcianos a bordo de naves espaciais, entre outras inúmeras esculturas espetadas às margens de estradas americanas ou na entrada de minúsculas cidades dos Estados Unidos.

Tais monumentos foram construídos por comerciantes locais com o objetivo de atrair clientela para postos de gasolina e lanchonetes no acostamento ou fisgar a atenção de turistas para cidades sem atrativo nenhum. Foi com essa filosofia que ganhou vida, na cidade de Dothan, no Alabama, um colossal amendoim banhado em ouro, único chamariz em um lugarejo cujo maior orgulho é sediar o concurso Miss Amendoim. Em Margate, no Estado de Nova Jersey, a estrela é Lucy, uma elefanta de latão e madeira que pesa 90 toneladas e mede 20 metros. Os turistas podem passear pelo interior de Lucy e subir a seu dorso, de onde se aprecia uma visão panorâmica da cidadezinha, que tem apenas 8.200 habitantes. Esse conjunto de "obras" se enquadra com precisão no gênero kitsch, sinônimo de brega, cafona, excessivo, exagerado.

Tais obras não foram construídas com o propósito de integrar o acervo do Metropolitan Museum, em Nova York. A idéia de seus autores é que só sejam o mais espalhafatosas possível para aumentar o comércio na região. E o expediente tem funcionado. Afinal, se não fosse por um meganovelo de barbante de 8 toneladas, por que alguém se deslocaria até a pequenina Cawker City, no interior do Kansas? Só com a ajuda de um monumento kitsch, Collinsville, no Illinois, consegue alguma badalação. É lá que se localiza a auto-intitulada "maior garrafa de ketchup do mundo". Uma coleção kitsch de centenas de bonecões com quase 10 metros de altura, os Muffler Men, é prova viva da força dessas estátuas. Construídas para anunciar a presença de uma rede especializada em silenciadores para automóveis da Califórnia, as esculturas foram abandonadas à própria sorte quando a companhia fechou as portas. Isso até recentemente. No embalo da onda de popularidade kitsch, algumas apareceram para ser vendidas. O preço? Até 10.000 dólares. Os americanos estão adorando pegar o carro só para conferir. Monumentos kitsch vêm sendo construídos nos Estados Unidos há anos. A maioria data das décadas de 50 a 70. Mas agora eles voltaram a despertar o interesse dos americanos.

Como toda moda, a onda de visitação já se tornou alvo de estudos acadêmicos, e o resultado é uma série de teorias para explicar o fenômeno. Sim, nos Estados Unidos, onde se estuda de tudo, discute-se até mesmo o porquê da popularidade de índios e elefantes gigantes. A autora do livro A América Excêntrica, Jan Friedman, dedicou 320 páginas ao assunto. "Os americanos gostam de ser os maiores do mundo, e as esculturas de beira de estrada fazem tanto sucesso porque são a síntese disso", ensaia sua explicação. Outra, com excesso de verniz intelectual, diz que os monstrengos de estrada ganharam popularidade no encalço de uma maré nostálgica. Os americanos estariam com saudade de um período dourado perdido entre os anos 50 e 70, e as estátuas ajudam a reviver o passado. São leituras possíveis, mas a preocupação dos comerciantes é investir no bizarro para extrair dele o maior retorno possível – inclusive teorias acadêmicas que aumentem ainda mais o interesse das pessoas pelos monumentos kitsch.



   
 
   
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