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Edição 1 785 - 15 de janeiro de 2003
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Esta mulher vende tudo

A eBay, dirigida por Meg Whitman,
começou com CDs e fotos autografadas
de ídolos. Agora leiloa aviões, ilhas
e até cidades

 
Divulgação
Meg: seu site de leilões on-line é uma relíquia da nova economia

Cerca de 1 500 empresas pontocom dos Estados Unidos fecharam o ano passado com lucro. Uma surpresa depois da explosão da bolha da internet. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu a proeza da eBay, o portal de leilões comandado pela já lendária Meg Whitman. Meg, como é chamada por todos, inclusive seus subalternos, vende de tudo. Até uma cidade. Bridgeville, no norte da Califórnia, tem 32 hectares, área equivalente a duas vezes um estádio de futebol. Com treze casas e 25 habitantes, é uma espécie de condomínio fechado que não perdeu o título de cidade por uma liberalidade da lei estadual da Califórnia. Bridgeville manteve até código postal próprio. Para o casal Elizabeth e Joe Lapple, os proprietários do terreno da cidade, a manutenção do lugar se tornou insustentável. Foi então que Elizabeth decidiu colocar Bridgeville à venda no eBay, site que já usava compulsivamente. O terreno e as casas do vilarejo acabaram arrematados há poucas semanas por 1,8 milhão de dólares. O comprador, um milionário californiano, preferiu ficar no anonimato.

 
Fotos AP
Bridgeville, a cidade vendida pelo eBay: de 300 habitantes, sobraram 25

Meg, da eBay, comercializa desde cidades e aviões até um par de meias e um conjunto de guardanapos. Os valores vão de alguns poucos dólares a quase 5 milhões de dólares. No ano passado, vendeu um antigo silo de mísseis no Estado de Nova York por 2,1 milhões de dólares. Na semana passada, o site anunciava a ilha caribenha de Thatch Cay, localizada no território americano das Ilhas Virgens. Em uma conferência na semana passada, Meg tinha tudo para estar orgulhosa. Quem apostou nas ações da empresa nos últimos anos não perdeu dinheiro. Os valores estão longe do recorde registrado em 2000, quando uma ação chegou a ser cotada a 127 dólares. Mas a valorização foi considerável. Em 1999, o preço da ação estava em 5 dólares. Na semana passada ela era vendida a 71 dólares. O lucro líquido cresce a uma taxa anual de 30% e deve ter fechado 2002 na casa dos 115 milhões de dólares. O valor dos produtos e serviços vendidos no site no ano passado chegou a cerca de 15 bilhões de dólares, o equivalente a 18% das vendas do varejo on-line em todo o mundo. Perto de companhias da velha economia, como Wal-Mart, que está no patamar de 260 bilhões em vendas, a eBay é nanica. Mas, no ranking dos maiores varejistas americanos, incluindo os da economia real, não faz feio. Está em trigésimo lugar. No ramo dos leilões on-line, não tem para ninguém. A empresa é líder na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde controla cerca de 90% do mercado.

Como se explica tamanho sucesso depois da crise da internet? "A eBay ficou imune à crise porque é uma empresa considerada transparente e objetiva", disse a VEJA Jeff Fieler, analista de internet do Bear Stearns, o banco de investimentos americano. Meg criou um ambiente seguro para evitar fraudes, uma das maiores ameaças à credibilidade de um site de leilões, e investiu pesado em marketing. Como os custos de unir vendedores e compradores é baixo na internet, os preços são bastante competitivos. Depois do acerto, a eBay deixa que ambas as partes acertem o envio do produto. Não há custos com estocagem e transporte. Meg conhece bem os vários perfis dos usuários do site. Basicamente, o que une caçadores de barganha e empresários é a comodidade, a possibilidade de comprar e vender sem sair de casa ou do escritório.

 
Fotos divulgação
A grande oferta do site agora é uma ilha: paraíso caribenho à venda

Casada com o neurocirurgião Griffith Harsh, professor nas universidades Stanford e Harvard, Meg abriu sua primeira conta particular de e-mail há cerca de cinco anos. Formada em Princeton e com MBA em Harvard, Meg trabalhou longos anos na velha economia e passou por empresas do porte da Procter & Gamble e da Disney. Em 1997, atuava como chefe da divisão da multinacional americana Hasbro, que fabrica brinquedos para bebês e crianças em idade pré-escolar. Tinha cerca de 600 empregados, gerenciava vendas anuais de 600 milhões de dólares e estava contente com o que fazia. Foi então que recebeu o telefonema de um headhunter oferecendo a direção da eBay. Meg não quis nem conversa. A idéia de tirar os dois filhos da escola, nos arredores de Boston, e fazer o marido mudar de emprego era terrível. No segundo telefonema, ficou mais receptiva. Nunca tinha ouvido falar da empresa fundada em 1995 pelo francês naturalizado americano Pierre Omydiar. Foram três semanas de negociação até Meg, já encantada com o desafio da internet, aceitar o emprego.

Na eBay, nem tudo depende de Meg. O teste aconteceu em 11 de setembro de 2001, quando os principais diretores da empresa estavam fora dos Estados Unidos, em viagens de negócios. Diante do choque causado pelos ataques terroristas, o segundo escalão agiu com rapidez e eficiência. Cuidou para que o site não saísse do ar e montou um leilão para ajudar as famílias das vítimas. Na volta da Ásia, Meg elogiou o desempenho dos auxiliares dizendo que não teria feito melhor. A humildade é outra característica sua. Clientes insatisfeitos já receberam e-mails da número 1 com pedidos de desculpa. A presidente da eBay também é conhecida como uma chefe acessível, uma raridade num setor em que o ego dos poderosos parece não ter limites.

   
 
   
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