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Licença
para gastar
Supremo permite ao Rio
descumprir
acordo da dívida com a União e abre
impasse entre Lula e os Estados
Marcelo Carneiro
José Paulo Lacerda/AE
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| Lula
e Paulo Hartung no Planalto: Espírito Santo "de pires na mão"
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Boa
parte das mais importantes batalhas jurídicas travadas no Brasil
tem como último destino o Supremo Tribunal Federal. Cabe aos ministros
da mais alta corte do país dar a palavra final sobre a legalidade
de planos econômicos ou a constitucionalidade de uma medida provisória.
São atos que mexem com a vida de milhões de brasileiros.
Na semana passada, não foi diferente. Uma liminar concedida pelo
ministro Ilmar Galvão obrigou a União a suspender um bloqueio
de recursos de 86 milhões de reais, executado contra o Rio de Janeiro,
e criou o primeiro impasse do governo Lula. Com sérios problemas
de caixa, o Estado está atrasado no pagamento de parcelas do contrato
de refinanciamento de sua dívida para com a União. Pelo
acordo, em caso de inadimplência, os recursos do governo federal
destinados ao Estado devedor são bloqueados automaticamente. Na
liminar, Galvão mostrou-se sensibilizado com o que chamou de "risco
de comprometimento dos serviços essenciais" no Rio. Com isso, abriu
um perigoso precedente: a possibilidade de que outros Estados endividados
usem a mesma alegação para descumprir seus acordos.
A medida, que ainda não é definitiva a Advocacia-Geral
da União entrou com recurso contra a liminar , deixou o novo
governo em polvorosa. O medo é de que a decisão do STF e
a pressão dos governadores que receberam Estados em dificuldades
financeiras transformem em letra morta a Lei de Responsabilidade Fiscal,
o mais importante mecanismo da legislação brasileira para
controle das contas públicas. "Se abrirmos a porteira, passa uma
boiada, e o país pode quebrar", disse José Genoíno,
presidente do PT. O raciocínio de Genoíno é parecido
com o do ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, que nos anos
80 acompanhou de perto o descontrole acelerado nas finanças estaduais.
Para o economista, o descumprimento da lei ou a reforma dos contratos
hoje em vigor acionariam um círculo vicioso. O primeiro passo seria
o aumento da taxa de risco do país, em razão do receio dos
investidores internacionais de descontrole nas contas públicas.
A partir daí, haveria a pressão sobre o câmbio e o
aumento da inflação. Com isso, as taxas de juro continuariam
altas e a economia desaceleraria. "Viria, então, o aumento do desemprego,
o que poderia até ameaçar a governabilidade", conclui Mailson.
É
claro que ainda se está distante de cenário tão assustador,
mas o tamanho do rombo dos Estados e municípios e sua importância
na dívida total do país mostram que há motivos para
preocupação (veja quadro abaixo). Na semana passada,
Lula recebeu claros sinais de que os governadores vão jogar pesado.
Rosinha Garotinho, que conseguiu a liminar beneficiando o Rio, apelou
ao passado de trabalhador do presidente, alegando que o bloqueio de recursos
do Estado inviabilizaria o pagamento dos servidores. Paulo Hartung, do
Espírito Santo, foi recebido no Palácio do Planalto e disse,
sem rodeios, que estava indo a Brasília "de pires na mão".
A maior parte dos Estados endividados é administrada por governadores
que herdaram uma situação precária de seus antecessores.
Dois dos mais encalacrados Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul
eram administrados por estrelas petistas, respectivamente Benedita da
Silva e Olívio Dutra, hoje ministros do governo Lula. No caso do
Rio, a governadora Rosinha vive um problema adicional: o aparecimento
de denúncias envolvendo um ex-colaborador do governo Garotinho,
suspeito de integrar o esquema de corrupção e remessa ilegal
de 32 milhões de dólares para a Suíça. Subsecretário
de Fazenda na gestão Garotinho, Rodrigo Silveirinha tinha sido
nomeado por Rosinha presidente da Companhia de Desenvolvimento Industrial
do Estado. Acabou exonerado.
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