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O
cérebro do roubo ao cofre
Com passado pouco conhecido,
a
ministra envolveu-se em ações
espetaculares da guerrilha
Alexandre Oltramari
Antonio Milena
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| A
ficha nos arquivos militares de Dilma Rousseff, hoje ministra das
Minas e Energia: só em 1969, ela organizou três ações de roubo de
armamentos em unidades do Exército no Rio de Janeiro |

Veja também |
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No
atual governo, há dois ex-guerrilheiros com posto de ministro de
Estado. Um é o ex-presidente do PT, José Dirceu, ministro
da Casa Civil, cuja trajetória política é bastante
conhecida. Foi preso pelo regime militar, recebeu treinamento de guerrilha
em Cuba e, antes de voltar às escondidas para o Brasil, submeteu-se
a uma cirurgia plástica no rosto para despistar a polícia.
O outro integrante do primeiro escalão com passagem pela guerrilha
contra a ditadura militar é a ministra Dilma Rousseff, das Minas
e Energia mulher de fala pausada, mãos gesticuladoras, olhar
austero e passado que poucos conhecem. Até agora, tudo o que se
disse a respeito da ministra dava conta apenas de que combatera nas fileiras
da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, a VAR-Palmares, um
dos principais grupos armados da década de 60. Dilma Rousseff,
no entanto, teve uma militância armada muito mais ativa e muito
mais importante. Ela, ao contrário de José Dirceu, pegou
em armas, foi duramente perseguida, presa e torturada e teve papel relevante
numa das ações mais espetaculares da guerrilha urbana no
Brasil o célebre roubo do cofre do governador paulista Adhemar
de Barros, que rendeu 2,5 milhões de dólares.
O assalto ao cofre ocorreu na tarde de 18 de julho de 1969, no Rio de
Janeiro. Até então, fora "o maior golpe da história
do terrorismo mundial", segundo informa o jornalista Elio Gaspari em seu
livro A Ditadura Escancarada. Naquela tarde, a bordo de três
veículos, um grupo formado por onze homens e duas mulheres, todos
da VAR-Palmares, chegou à mansão do irmão de Ana
Capriglioni, amante do governador, no bairro de Santa Teresa, no Rio.
Quatro guerrilheiros ficaram em frente à casa. Nove entraram, renderam
os empregados, cortaram as duas linhas telefônicas e dividiram-se:
um grupo ficou vigiando os empregados e outro subiu ao quarto para chegar
ao cofre. Pesava 350 quilos. Devia deslizar sobre uma prancha de madeira
pela escadaria de mármore, mas acabou rolando escada abaixo. A
ação durou 28 minutos e foi coordenada por Dilma Rousseff
e Carlos Franklin Paixão de Araújo, que então comandava
a guerrilha urbana da VAR-Palmares em todo o país e mais tarde
se tornaria pai da única filha de Dilma. O casal planejou, monitorou
e coordenou o assalto ao cofre de Adhemar de Barros. Dilma, no entanto,
não teve participação física na ação.
"Se tivesse tido, não teria nenhum problema em admitir", diz a
ministra, com orgulho de seu passado de combatente.
"A
Dilma era tão importante que não podia ir para a linha de
frente. Ela tinha tanta informação que sua prisão
colocaria em risco toda a organização. Era o cérebro
da ação", diz o ex-sargento e ex-guerrilheiro Darcy Rodrigues,
que adotava o codinome "Leo" e, em outra ação espetacular,
ajudou o capitão Carlos Lamarca a roubar uma Kombi carregada de
fuzis de dentro de um quartel do Exército, em Osasco, na região
metropolitana de São Paulo. "Quem passava as orientações
do comando nacional para a gente era ela." O ex-sargento conta que uma
das funções de Dilma era indicar o tipo de armamento que
deveria ser usado nas ações e informar onde poderia ser
roubado. Só em 1969, ela organizou três ações
de roubo de armas em unidades do Exército, no Rio. Quando foi presa,
em janeiro de 1970, o promotor militar que preparou a acusação
classificou-a com epítetos superlativos: "Joana D'Arc da guerrilha"
e "papisa da subversão". Dilma passou três anos encarcerada
em São Paulo e foi submetida aos suplícios da tortura.
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Décio Bar
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| O
capitão Carlos Lamarca, o
maior mito da esquerda armada no Brasil, e Iara Iavelberg, com quem
o capitão manteve um tórrido e tumultuado romance. Com
Lamarca, Dilma Rousseff polemizou sobre os rumos da guerrilha, numa
famosa reunião realizada em Teresópolis. Com Iara, ia
à praia, falava de cinema, e tornaram-se confidentes
|
A
atual ministra era tão temida que o Exército chegou a ordenar
a transferência de um guerrilheiro preso em Belo Horizonte, o estudante
Ângelo Pezzuti, temendo que Dilma conseguisse montar uma ação
armada de invasão da prisão e libertação do
companheiro. Durante o famoso encontro da cúpula da VAR-Palmares
realizado em setembro de 1969, em Teresópolis, região serrana
do Rio, Dilma Rousseff polemizou duramente com Carlos Lamarca, o maior
mito da esquerda guerrilheira. Lamarca queria intensificar as ações
de guerrilha rural, e Dilma achava que as operações armadas
deveriam ser abrandadas, priorizando a mobilização de massas
nas grandes cidades. Do encontro, produziu-se um racha. Dos 37 presentes,
apenas sete acompanharam Lamarca. Ficaram com boa parte das armas da VAR-Palmares
e metade da fortuna do cofre de Adhemar de Barros. Os demais concordaram
com a posição de Dilma Rousseff.
A divergência com Carlos Lamarca não impediu Dilma de manter
uma sólida amizade com a guerrilheira Iara Iavelberg, musa da esquerda
nos anos 60, com quem o capitão manteve um tórrido e tumultuado
romance. Dilma chegou a hospedá-la em seu apartamento, no Rio.
Juntas, iam à praia, falavam de cinema, tornaram-se confidentes.
Nos três anos que passou na cadeia, seu nome chegou a aparecer em
listas de guerrilheiros a ser soltos em troca da libertação
de autoridades seqüestradas mas a ação que renderia
sua liberdade foi malsucedida. Aos 55 anos, recentemente separada de Carlos
Franklin de Araújo, Dilma Rousseff não lembra a guerrilheira
radical de trinta anos atrás, embora exiba a mesma firmeza. "Ela
é uma mulher suave e determinada", diz a jornalista Judith Patarra,
autora do livro Iara, que conta a trajetória de Iara Iavelberg
(1944-1971). "Quando a vi na televisão, percebi que Dilma continua
a mesma. É uma mulher espetacular e será uma sargentona
no governo. Ela não é mulher de meio-tom", resume o ex-companheiro
de guerrilha Darcy Rodrigues.
Com
reportagem de Luís Henrique Amaral
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