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O que é isso, companheiros?Com
anúncios mirabolantes,
Maurício Lima
A semana de estréia de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República foi um sucesso no atacado. O dólar teve uma queda forte, a inflação deu sinais claros de desaceleração, as bolsas de valores mostraram-se confiantes no discurso austero do novo governo. No varejo, porém, a estréia foi calamitosa, produzindo um espetáculo em que se misturaram um toque de comédia, altas doses de amadorismo, muita afoiteza dos ministros novatos e vários factóides essa palavra que se popularizou para designar aquelas ações pirobológicas que fazem muito barulho, rendem a manchete do dia, mas não passam de vento. Até o projeto Fome Zero, apresentado pelo presidente como a grande prioridade de sua gestão, até agora não passou de um factóide. O lançamento do programa, previsto para ser feito na viagem de Lula e alguns ministros ao Nordeste na sexta-feira 10, acabou sendo adiado. Os técnicos descobriram que ainda não sabem o tamanho exato da fome no país, não sabem qual o tamanho da ajuda que o governo deve dar aos pobres e não sabem, sequer, a forma de fazê-lo. Na semana passada, o projeto Fome Zero chegou a ser criticado pelo bispo Mauro Moreli e por Zilda Arns, dois respeitados líderes brasileiros no terreno do apoio social às pessoas de baixa renda. A verdade é esta: o Fome Zero, como meta, é impecável e merece aplausos. Como projeto prático, não passa de uma confusão de amadores.
Sabe-se que um novo governo leva pelo menos três meses para se familiarizar
com a máquina federal, descobrindo como funcionam suas engrenagens
centrais. É natural, portanto, que uma nova equipe cometa deslizes.
A mudança no roteiro da viagem de Lula, destinada a fazer com que
seus ministros conhecessem a miséria de perto, foi um desses deslizes.
A promessa era levar a comitiva a Guaribas, paupérrima cidade no
interior do Piauí. A visita ficou restrita à periferia de
Teresina, além de áreas pobres de Pernambuco e Minas Gerais.
"Uma coisa era Lula viajar como candidato. Outra coisa é viajar
como presidente. É uma parafernália infernal: segurança,
médicos, pessoal de apoio...", diz um assessor com sala no Palácio
do Planalto, recém-introduzido aos ritos presidenciais. Mas, na
semana passada, alguns ministros cometeram mais que meros deslizes. Uns
falaram o que não deviam. Outros falaram o que deviam, mas foram
repreendidos. Houve os que discutiram entre si e, por fim, os que se esparramaram
fazendo ingênuas pirotecnias.
É compreensível que o governo, logo na sua estréia, tente mostrar trabalho, mas chama a atenção o volume de decisões e declarações que não passam de espuma. A primeira foi a suspensão da licitação internacional para a compra de doze jatos de combate para reequipar a Força Aérea, cujos caças Mirage já não estão mais em condições técnicas de realizar vôos. Alguns já foram tirados de ação. Os que restam deverão ser aposentados em até dois anos. O motivo da suspensão da licitação para a compra dos novos jatos era tão bonito que provocou elogios ao governo na imprensa internacional. Tratava-se, aparentemente, de economizar o gasto com armamento aéreo e aplicar o dinheiro, 700 milhões de dólares, no combate à fome no Brasil. No discurso, nada mais louvável. Na prática, um factóide amador. A questão é que o dinheiro para a compra dos jatos não sairá do Tesouro Nacional, mas de um empréstimo internacional que só começaria a ser pago daqui a três anos, assim mesmo com financiamento externo e prestações a perder de vista. Ou seja: o dinheiro que Lula quer transferir da compra dos jatos para o combate à fome não existe no Tesouro. Conclusão: o dinheiro da fome continuará o mesmo e o dos jatos sumiu.
Outro
vazamento de espuma veio da Petrobras, cujo novo presidente, José
Eduardo Dutra, anunciou que vai priorizar os fornecedores nacionais. O
que Dutra não disse é que, já hoje, a Petrobras compra
85% do que consome justamente de fabricantes nacionais. Um terceiro vazamento
saiu do Ministério dos Transportes. Segundo declarou solenemente
o ministro Anderson Adauto, sua prioridade será a recuperação
das estradas que já existem, não a construção
de novas. O que o ministro também não disse é que
hoje 95% das verbas do ministério já são destinadas
à recuperação das rodovias do país
e não à construção de novas. O governo também
anunciou, precipitadamente, que o Exército poderá ser usado
na construção de rodovias no Brasil, já que tem capacidade
de implantar perto de 1.000 quilômetros anuais de estradas. Ouvido
em seguida, o ministro da Defesa pediu menos afobação dos
colegas. A verdade é que o Exército não tem verbas
nem instrumentos para cumprir a meta imaginada.
O ministro Cristovam Buarque quer mais do que a ajuda da farda. Anunciou mudanças no Provão, uma das mais elogiadas heranças deixadas pelo governo anterior, com a assinatura do ex-ministro tucano Paulo Renato. Cristovam alega que o Provão só avalia a qualidade das universidades por meio do aluno. Na verdade, o governo anterior também criou outras avaliações, que se ocupam em examinar justamente itens como a qualificação acadêmica dos professores e até as condições das instalações físicas, como bibliotecas e laboratórios. Já funcionam há seis anos. Tantos casos parecidos preencheram a semana de estréia do governo Lula que se produziu a impressão de que a Esplanada dos Ministérios foi subitamente tomada por um afã novidadeiro. Na história da política brasileira, as excentricidades são um dado corriqueiro para chamar a atenção do eleitorado e ganhar popularidade. O ex-presidente Jânio Quadros andava com sanduíche no bolso e caspas nos ombros e gostava de sair às ruas para multar, ele próprio, motoristas que cometessem alguma infração no trânsito. O ex-presidente Fernando Collor encenava espetáculos: dirigia uma Ferrari, pilotava um avião, desfilava de jet-ski nas águas do Paranoá, o lago que banha a capital federal. Mas foi o atual prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, que aliou a excentricidade aos anúncios bombásticos, trazendo a palavra "factóide" para o vocabulário político. Em seu primeiro mandato na prefeitura carioca, iniciado em 1993, Cesar Maia varria o Sambódromo em dia de desfile, queria que o Rio fosse a única cidade a permanecer com horário de verão durante o ano inteiro e visitava obras vestindo casaco debaixo de um calor de 40 graus. Aos poucos, começou a angariar fama de maluco e, é claro, popularidade. Ao deixar a prefeitura, ao final do primeiro mandato, criou uma empresa de comunicação. Batizou-a de Factóide.
"Nós precisamos harmonizar o discurso. Não se trata de um controle das informações, mas de uma organização maior para evitar ruídos", diz Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência da República. Além da expectativa da estréia, o governo de Lula tem outra característica que ajuda na explosão continuada de factóides o grande número de ministros com carreira política. Por vício do ofício, eles são naturalmente ávidos por holofotes e, em geral, inexperientes no comando executivo. Uma coisa é dar declarações como deputado federal ou senador. Por mais autoridade que tenha, o parlamentar sempre percorre um longo caminho entre o mundo das idéias e a materialização de suas propostas. São comissões, negociações, votações e uma infinidade de funis burocráticos. Um ministro também não faz o que quer, mas, pela própria natureza do posto, tem melhores condições de colocar suas idéias em prática, razão pela qual seus pronunciamentos costumam ter maior repercussão.
Além de factóides e velharias apresentadas com nova roupagem, os ministros também deram trombadas voluntárias e involuntárias. No início da semana, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, uma das grandes revelações positivas desse ministério, travou um duelo voluntário com uma colega. Palocci saiu a público para negar que o governo estivesse estudando mudar a forma de cálculo dos valores das tarifas de energia elétrica, desautorizando anúncio anterior feito pela ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff. Houve outros conflitos. Na semana da posse do novo governo, o ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, dizia que os alimentos transgênicos poderiam ajudar no combate à fome, enquanto a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, afirmava que os transgênicos não deveriam ser liberados ao consumo antes que se comprovasse que são produtos inofensivos à saúde. Como diz com propriedade o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, está faltando harmonizar o discurso dos ministros. No decorrer do tempo, as balbúrdias, pirotecnias e divergências podem ser sanadas, mas o presidente Lula da Silva terá de reger uma orquestra numerosa para chegar lá. Com a reforma administrativa, o governo petista tem 34 órgãos com status de ministério. É um recorde. São mais ministérios do que havia nos governos José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. Com tantas pastas, aconteceu o inevitável: há ministérios com funções semelhantes ou sobrepostas. O Ministério das Cidades, sob o comando do ex-governador gaúcho Olívio Dutra, cuidará do trânsito nas metrópoles, o que se choca com a tarefa do Ministério dos Transportes. Também disputará espaço com o Ministério da Integração Nacional, comandado por Ciro Gomes, que cuida da infra-estrutura das cidades e, se voltar suas ações para as áreas rurais, se chocará com as atribuições do Ministério da Agricultura e, quem sabe, do Desenvolvimento Agrário. Além da profusão de pastas, o presidente bateu outro recorde: já tem cinco assessores especiais, mais que qualquer antecessor depois da redemocratização do país. O que o Brasil espera é que Luiz Inácio Lula da Silva comande sua máquina com afinação geral. Todos compreendem as trapalhadas iniciais de um governo. Como depositário de mais de 50 milhões de votos e, mais do que isso, como figura política amada pelos brasileiros, como se viu no dia da posse , Lula conta com a confiança nacional e tem seu período de graça para ir ajustando as peças de seu governo. O essencial está funcionando. Os encarregados do Ministério da Fazenda e Banco Central se ocuparam em manter os princípios de boa gerência econômica que herdaram da gestão FHC. O ministro do Trabalho e o da Previdência, ao contrário, estão proclamando sua intenção de reformar instituições caducas, como o instituto dos aposentados e as leis trabalhistas. Mudança no que tem de ser mudado e manutenção daquilo que precisa ser mantido. Só essa combinação já garantiria sucesso ao governo Lula.
Com
reportagem de Malu Gaspar
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