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Vou
desfilar no Rio
"Seria
bom substituir um daqueles
sujeitos que, com um bastão, ditam
a progressão da escola de samba,
empurrando as baianas ofegantes
ou
dando pauladas nos atores da
Globo apressados
demais"
Qualquer um pode desfilar no Carnaval do Rio de Janeiro. Basta pagar.
No ano passado, caí na besteira de ir ao camarote da Brahma. Este
ano, ninguém me engana: vou direto para a avenida. Tudo é
feito pela internet. Você escolhe uma escola de samba, compra uma
fantasia com cartão de crédito ou depósito bancário
(pagamento em duas vezes, sem juros), e aparece no Sambódromo na
hora do desfile. De todos os enredos, o que mais me intrigou foi o da
Mocidade Independente de Padre Miguel. Concebido pelo carnavalesco Chico
Spinosa, cujo nome indica um claro pendor filosófico, trata da
doação de órgãos: "Só o doador faz
a vida prosseguir / Basta se conscientizar / A família querer aceitar
/ Pro sonho se realizar". A Mocidade Independente promete que seu desfile
irá refigurar transplantes de córneas, medula, ossos, pele,
rins e fígado. Interessei-me por algumas fantasias. "Anjo Arterial",
por exemplo. Ou "Odisséia Genética Alfa". Ou "Rejeição
Zero". Ou "Hepato-Folia". Esta última combina comigo. Fico bem
de roxo. Custa apenas 400 reais. Com entrega em domicílio. É
só dar a medida do pé e partir para a passarela.
A Mangueira também optou por um enredo importante: "Os Dez Mandamentos:
O Samba da Paz Canta a Saga da Liberdade". Tem Moisés, Faraó,
Fuga do Egito, Mar Vermelho, Bezerro de Ouro. O assessor de imprensa me
explicou que a ambição do carnavalesco não é
simplesmente narrar episódios bíblicos, mas apontar caminhos
para a solução dos conflitos no Oriente Médio. No
último sábado, fui à quadra da Mangueira. Era dia
de ensaio. Todos os mangueirenses pareciam desanimados. Os únicos
que sambavam sem parar eram italianos com a camiseta do Ronaldo e latas
de cerveja morna na mão. Eu inventei que tinha um grupo de trinta
italianos dispostos a comprar a fantasia "Pragas do Egito: Doença
de Chagas", da ala Fome e Destruição. A responsável
pelas vendas me informou que o preço oficial era de 450 reais,
destinados aos trabalhos sociais da Mangueira, mas sugeriu que eu, como
todas as agências de viagens, cobrasse dos italianos 300 dólares
por fantasia, embolsando a diferença. Gostei muito da idéia.
Agora só falta encontrar os trinta italianos.
Quem ainda conserva o clima de otimismo e orgulho pátrio, que sempre
caracterizou o Carnaval, é a escola de samba Grande Rio. Ao descrever
seu enredo, o carnavalesco Joãosinho Trinta exalta nossa fauna,
nossa flora, nossas riquezas minerais, nossos índios, nossas artes:
"Meu coração brasileiro vibra de emoção e
alegria!". Joãosinho Trinta também afirma que "preservamos,
com carinho, nossos rios e mares". O curioso é que, no mesmo instante
em que eu lia essa frase, um grande rio de esgoto cortava a Praia de Copacabana
ao meio. Vou desfilar fantasiado de "Hepato-Folia", portanto. Ou de "Praga
do Egito". Melhor do que isso, só se eu conseguisse substituir
um daqueles sujeitos que, com um bastão, ditam a progressão
da escola de samba, empurrando as baianas ofegantes ou dando pauladas
nos atores da Globo apressados demais.
Quanto custa? Eu pago.
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