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Edição 1 785 - 15 de janeiro de 2003
Diogo Mainardi

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Vou desfilar no Rio

"Seria bom substituir um daqueles
sujeitos que, com um bastão, ditam
a progressão da escola de samba,
empurrando as baianas ofegantes
ou dando pauladas nos atores da
Globo
apressados demais"

Qualquer um pode desfilar no Carnaval do Rio de Janeiro. Basta pagar. No ano passado, caí na besteira de ir ao camarote da Brahma. Este ano, ninguém me engana: vou direto para a avenida. Tudo é feito pela internet. Você escolhe uma escola de samba, compra uma fantasia com cartão de crédito ou depósito bancário (pagamento em duas vezes, sem juros), e aparece no Sambódromo na hora do desfile. De todos os enredos, o que mais me intrigou foi o da Mocidade Independente de Padre Miguel. Concebido pelo carnavalesco Chico Spinosa, cujo nome indica um claro pendor filosófico, trata da doação de órgãos: "Só o doador faz a vida prosseguir / Basta se conscientizar / A família querer aceitar / Pro sonho se realizar". A Mocidade Independente promete que seu desfile irá refigurar transplantes de córneas, medula, ossos, pele, rins e fígado. Interessei-me por algumas fantasias. "Anjo Arterial", por exemplo. Ou "Odisséia Genética Alfa". Ou "Rejeição Zero". Ou "Hepato-Folia". Esta última combina comigo. Fico bem de roxo. Custa apenas 400 reais. Com entrega em domicílio. É só dar a medida do pé e partir para a passarela.

A Mangueira também optou por um enredo importante: "Os Dez Mandamentos: O Samba da Paz Canta a Saga da Liberdade". Tem Moisés, Faraó, Fuga do Egito, Mar Vermelho, Bezerro de Ouro. O assessor de imprensa me explicou que a ambição do carnavalesco não é simplesmente narrar episódios bíblicos, mas apontar caminhos para a solução dos conflitos no Oriente Médio. No último sábado, fui à quadra da Mangueira. Era dia de ensaio. Todos os mangueirenses pareciam desanimados. Os únicos que sambavam sem parar eram italianos com a camiseta do Ronaldo e latas de cerveja morna na mão. Eu inventei que tinha um grupo de trinta italianos dispostos a comprar a fantasia "Pragas do Egito: Doença de Chagas", da ala Fome e Destruição. A responsável pelas vendas me informou que o preço oficial era de 450 reais, destinados aos trabalhos sociais da Mangueira, mas sugeriu que eu, como todas as agências de viagens, cobrasse dos italianos 300 dólares por fantasia, embolsando a diferença. Gostei muito da idéia. Agora só falta encontrar os trinta italianos.

Quem ainda conserva o clima de otimismo e orgulho pátrio, que sempre caracterizou o Carnaval, é a escola de samba Grande Rio. Ao descrever seu enredo, o carnavalesco Joãosinho Trinta exalta nossa fauna, nossa flora, nossas riquezas minerais, nossos índios, nossas artes: "Meu coração brasileiro vibra de emoção e alegria!". Joãosinho Trinta também afirma que "preservamos, com carinho, nossos rios e mares". O curioso é que, no mesmo instante em que eu lia essa frase, um grande rio de esgoto cortava a Praia de Copacabana ao meio. Vou desfilar fantasiado de "Hepato-Folia", portanto. Ou de "Praga do Egito". Melhor do que isso, só se eu conseguisse substituir um daqueles sujeitos que, com um bastão, ditam a progressão da escola de samba, empurrando as baianas ofegantes ou dando pauladas nos atores da Globo apressados demais.

Quanto custa? Eu pago.



 
 
   
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