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Sérgio
Abranches
Lula e a Previdência
"As
melhores reformas quase
sempre
tiveram a liderança
ou o apoio ativo da
esquerda, que tem mais legitimidade
para propor sacrifícios,
sem que isso
pareça aos olhos da maioria uma
maldade dos
especuladores"
Ilustração Ale Setti
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O novo governo vai recolocar a reforma da Previdência em pauta. Afirma
ser sua primeira prioridade. Tem boa chance de sucesso se o projeto for
coerente e tiver o apoio de suas bases, no partido e no meio sindical. Suas
propostas, até agora, estão aquém do que os partidos
de centro-esquerda foram capazes de aprovar na Europa, mas vão além
do que se fez na Alemanha, Áustria e França.
Há
muito mito sobre as reformas na Europa pós-Maastricht e pós-globalização.
Diz-se que houve drástica redução do gasto social,
com prejuízo para o bem-estar. Não foi assim. Houve muita
mudança, mas o gasto social continuou crescendo. Na maioria dos
países, a questão não foi gastar mais ou menos, mas
criar uma nova rede de proteção social, mais adaptada aos
novos tempos. Houve mudança em graus muito diferentes, em larga
medida por causa da distinta dinâmica da competição
partidária e da correlação de forças entre
governo e oposição. O teor da mudança teve muito
a ver também com a estrutura de previdência existente. Os
sistemas mais problemáticos, que produziram crises mais graves
e necessitaram de reformas mais amplas, foram aqueles inspirados no modelo
da Alemanha de Bismarck e que têm como centro uma previdência
financiada por contribuições, associada a categorias funcionais,
de benefício definido e que incentivam a aposentadoria precoce.
Requer mais mudanças, porque gera mais distorções.
O modelo brasileiro é uma versão agravada dele.
A reforma
se tornou obrigatória em quase todos os países do mundo,
porque o novo contexto global é prejudicial às exportações
de países que oneram a folha de pagamentos e por causa das restrições
econômicas internas e da trajetória demográfica, que
têm impacto inarredável nos sistemas previdenciários.
Nos anos 80, as mudanças foram quase só paliativas. Mas
nos anos 90 ocorreu um ciclo de verdadeiras reformas, embora com conteúdo
e extensão diferentes. O modelo bismarckiano financia os benefícios
em bases correntes e, com o crescimento da massa de beneficiários
ou a ampliação de benefícios, produz déficits
rápidos e gigantescos ou exige que as contribuições
aumentem exponencialmente. Hoje, na Europa, as restrições
de Maastricht impedem a expansão do déficit. As reformas
se impuseram porque já não é mais possível
aumentar o valor das contribuições, que elevam o custo do
trabalho, reduzindo a competitividade e estrangulam o trabalhador.
No Brasil,
aumenta o déficit, não a contribuição. O sistema
cria desigualdades gritantes entre pensionistas privados e pensionistas
do setor público, que acumulam privilégios ao longo do tempo.
Aqui, essa desigualdade é imensa e, durante muito tempo, os funcionários
nem sequer contribuíram e acabam financiados por toda a sociedade.
Ao mesmo tempo, no setor privado a previdência é irrisória
para quem tem renda suficiente na ativa e insuficiente para quem tem renda
irrisória.
A reforma
busca equilibrar contribuições e benefícios, criar
um sistema mais universal e menos desigual, com pisos e tetos bem definidos
e não muito distantes entre si, e unificar os regimes. A direção
geral tem sido rumo a sistemas de contribuição definida
(os benefícios são determinados pela contribuição),
com limites altos de idade para a aposentadoria. Um sistema privado complementar,
na maioria dos casos compulsório, ainda contribui para aumentar
a poupança dos trabalhadores. Os sistemas mais igualitários
prevêem uma pensão pública igual para todos. São
financiados pelos impostos gerais e deixam a diferenciação
para a contribuição de cada um para o sistema privado. A
Suécia foi o país que mais avançou na reforma. Em
seguida, a Itália. As reformas mais modestas foram as da Alemanha,
Áustria e França. Por quê? As melhores reformas tiveram,
quase sempre, a liderança ou, pelo menos, o apoio ativo da esquerda.
Avançaram mais onde a esquerda conseguiu remover o veto dos sindicatos.
Partidos de centro ou de direita não conseguem fazer oposição
suficiente para bloquear reformas na Previdência que tenham o apoio
da esquerda. A esquerda tem mais legitimidade para propor sacrifícios
que não pareçam aos olhos da maioria uma "maldade dos especuladores".
Por outro lado, propõe sacrifícios com mais senso de justiça
social, preservando os mais fracos e propondo mais bem-estar futuro para
a maioria.
O PT pode
reformar a Previdência porque pode formar um forte consenso partidário
e social a favor da reforma. Deveria ser ousado e mudar a Previdência
não só para obter equilíbrio fiscal, mas para transformá-la
radicalmente, de regime de desigualdades que concentra a renda em um regime
mais redistributivo.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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