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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Perón, Bolívar, Dirceu,
Aldo, Tevez etc.
Notas que
vão da nova composição
do Mercosul à síndrome da criação
do mundo que ataca o presidente
A Argentina teve em Carlos Menem um fiel seguidor
da economia de mercado e, como dizia seu chanceler Di Tella, um
aliado "carnal" dos Estados Unidos. Menem era peronista. Eduardo
Duhalde foi menos entusiasta, tanto da economia de mercado quanto
dos EUA. Era peronista, igualmente. Néstor Kirchner não
gosta dos EUA e, com a nomeação da nova ministra da
Economia, Felisa Miceli, prepara uma reação contra
o império da globalização e da economia de
mercado. Mais um peronista. Antes deles o país conheceu o
movimento dos Montoneros, guerrilheiros de esquerda dos anos 70.
Peronistas. E, durante o governo de Isabelita, a viúva de
Perón, o mais influente ministro, José López
Rega, dirigia nos bastidores a organização paramilitar
Aliança Anticomunista Argentina (AAA). Em nome do peronismo,
claro.
A explicação está na velha
anedota que começa com o próprio Juan Domingo Perón
explicando a um estrangeiro o quadro político argentino:
"Temos à direita desde golpistas até um civilizado
movimento conservador. Importante setor é o dos liberais.
Não esqueçamos os social-democratas, que juntam o
desejo de eficácia com a preocupação social.
Temos ainda um centro, uma democracia cristã, um forte núcleo
nacional-desenvolvimentista... A esquerda divide-se entre os revolucionários
e aqueles, mais moderados, que já se dispõem a integrar
o jogo eleitoral e parlamentar. Nomes expressivos integram todos
esses...". O interlocutor o interrompe: "Mas... e os peronistas?".
"Como, os peronistas?!", surpreende-se o caudilho. "Peronistas
son todos."
Com o ingresso da Venezuela no Mercosul, sob o alto
patrocínio da Argentina, ao peronismo junta-se o bolivarianismo.
Agora vai.
O presidente da Câmara, Aldo Rebelo, questionado
se a Casa não devia reagir diante das sucessivas interferências
do Supremo Tribunal Federal no processo a que era submetido o deputado
José Dirceu, respondeu que longe dele querer desafiar as
determinações dos magistrados. "Sou um homem temente
a Deus e respeitador da Justiça", argumentou. Segundo contabilidade
do colunista Jorge Bastos Moreno, de O Globo, Rebelo, desde
que assumiu seu atual cargo, já participou de três
novenas (sendo que em uma puxou o terço), presidiu sessão
em homenagem aos 80 anos do arcebispo emérito de Brasília,
dom José Freire Falcão, esteve à frente de
dois cultos ecumênicos e, no Dia de Ação de
Graças, se fez presente a um culto e a uma missa. Rebelo
é comunista, como se sabe. Ah, se aquelas senhoras soubessem...
aquelas senhoras que, terço nas mãos, se manifestavam
nas ruas contra o comunismo ateu, algum tempo atrás... se
elas soubessem, teriam logo entregado tudo aos comunistas, de uma
vez.
Da mesma série "Ah, se eu soubesse", temos
a reação daquele empresário diante da performance
do governo Lula: "Se eu soubesse que o PT iria adotar a política
econômica do Malan e depois se suicidar, teria votado nele".
O ex-deputado José Dirceu, numa entrevista
à revista Fórum, disse que o presidente Lula
é uma pessoa difícil. Suas palavras: "O personagem
(Lula) é difícil. Está ficando claro
isso". Meses atrás, quando o senador Eduardo Suplicy, contrariando
a posição do governo, assinou o pedido de constituição
da CPI dos Correios, Dirceu dissera que Suplicy era "um caso à
parte, hors-concours". E acrescentara: "(Suplicy) é
um pouco estranho". Dirceu é aquele que adotou outro nome
e durante anos não revelou sua identidade à mulher
com quem vivia e com quem teve um filho. E ainda acha que esquisitos
são os outros.
Ainda bem que, para contrabalançar a aliança
Kirchner-Hugo Chávez, temos a aliança Lula-Carlitos
Tevez, formalizada durante a visita dos jogadores do Corinthians
ao Palácio do Planalto, na semana passada. Lula fez elogios
ao craque argentino, acariciou-lhe a curiosa cabeleira e atribuiu
seu sucesso às relações com a Argentina, que
"nunca foram tão boas". "Imagine há dez anos um jogador
argentino fazer esse sucesso no Brasil", acrescentou. Mais uma vez
atacava-o a síndrome da criação do mundo, segundo
a qual nada de bom ocorreu antes de sua chegada à Presidência.
De Sastre, companheiro de Leônidas numa histórica formação
do São Paulo, a Sorín, ídolo da torcida do
Cruzeiro, são inúmeros os jogadores argentinos bem-sucedidos
no Brasil.
A greve nas universidades federais completou 100
dias na quarta-feira passada. Passou a ter pleno direito ao anátema
do senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque:
"Uma greve que ultrapassa os 100 dias mostra que a universidade
não é mais necessária, da forma como está
estruturada. Imagine um banco parado por 100 dias".
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