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Livros Não
há lugar como o lar Obras recentes contrariam
Tolstoi: existe, sim, felicidade doméstica 
Jerônimo Teixeira
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A primeira frase
de Anna Kariênina (tradução de Rubens Figueiredo;
Cosac Naify; 816 páginas; 98 reais) é uma das mais célebres
aberturas de romance da história literária: "Todas as famílias
felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua
maneira". A princípio, parece que esse inspirado aforismo se refere à
crise matrimonial do príncipe russo Oblónski, cujo caso amoroso
com uma ex-governanta francesa foi descoberto pela esposa. Mas, à medida
que o leitor avança irresistivelmente pelas 800 páginas dessa obra-prima,
percebe que a sentença pesa mesmo é sobre a personagem-título.
Depois de trair seu marido com o conde Vronski, só restam a Anna o opróbrio
social e o suicídio. O clássico de Leon (ou Liev, na transliteração
usada pelo tradutor) Tolstoi (1828-1910) acaba de ganhar uma nova tradução,
a primeira realizada diretamente do russo, fiel às idiossincrasias estilísticas
e ao fôlego enciclopédico de Tolstoi. Não poderia haver momento
melhor para reler esse clássico: ele oferece um contraste curioso para
uma safra recente de obras estreladas, veja só, por famílias felizes
(veja quadro)
e muito diferentes umas das outras.
Ainda é cedo para saber se esse fato configura uma sólida tendência,
mas é significativo que pelo menos em quatro obras recentes de bons escritores
de língua inglesa dois britânicos, Ian McEwan e Hanif Kureishi,
e dois americanos, Philip Roth e Paul Auster a vida familiar seja apresentada
sob uma luz favorável, com matizes que vão do nostálgico
ao heróico. Roth, talvez o melhor escritor americano em atividade hoje,
já provou que sabe uma coisa ou outra sobre famílias infelizes.
Sua reputação se firmou com O Complexo de Portnoy, de 1969,
romance sobre um judeu americano sexual e existencialmente esmagado pela mãe
dominadora. A mãe judia do mais recente romance de Roth, Complô
contra a América, é uma figura igualmente forte, mas compassiva
trata-se, afinal, de um retrato ficcional da mãe do próprio
escritor. Complô cria uma história alternativa para os Estados
Unidos, na qual o aviador Charles Lindbergh, notório anti-semita, se torna
presidente do país em 1940. A coesão familiar toma suas pancadas
no meio desse pesadelo político, mas resiste bem.
Enquanto Roth esperneia para negar qualquer interpretação de Complô
como uma crítica disfarçada à política americana
atual, Auster e McEwan, ao contrário, colocaram suas famílias felizes
contra o pano de fundo esfumaçado do mundo sitiado pelo terrorismo. A história
de Sábado tem lugar em Londres, no dia de uma passeata contra a
participação do Reino Unido na Guerra do Iraque. Assim como Tolstoi
usou o personagem Liévin para criticar a participação russa
na guerra contra os turcos do Kosovo, McEwan se vale sutilmente de seu herói
o neurocirurgião Henry Perowne para apoiar a derrubada do
ditador Saddam Hussein. Perowne é fiel à mulher, tem muito orgulho
dos filhos e busca refúgio na família contra as agressões
de um mundo hostil. Desvarios no Brooklyn, de Auster, termina exatamente
no dia dos atentados que derrubaram o World Trade Center. É a história
de Nathan Glass, um aposentado pessimista que redescobre a felicidade depois de
uma série de encontros casuais com parentes. Na Nova York de Auster, as
mulheres "desgarradas" não precisam se jogar na frente do trem como Anna
Kariênina: uma sobrinha de Nathan, ex-atriz pornô, também tem
direito a um final feliz, namorando outra mulher.
Nesses três livros, a família aparece como o único refúgio
possível, ainda que precário, no meio das realidades ameaçadoras
da história e da política. Hanif Kureishi sugere uma explicação
alternativa para a corrida de volta ao lar. Os personagens dos contos de O
Corpo são órfãos da revolução sexual dos
anos 60 que buscam recuperar um esteio afetivo. Em qualquer caso, não há
conservadorismo nesse retorno: as famílias retratadas não são
mais os encalacrados redutos de hipocrisia e machismo que fizeram do adultério
o tema por excelência do romance no século XIX. O século XXI
ainda está para produzir uma obra literária do porte de Anna
Kariênina. As famílias de hoje, porém, têm a oportunidade
de ser bem mais felizes.
| Famílias felizes
e diferentes
| Ian McEwan O
escritor inglês já foi chamado de "Ian MacAbro" devido a seu gosto
por enredos bizarros. Seu mais recente romance, Sábado, conserva
certa dose de violência. Mas seu protagonista, o neurocirurgião Henry
Perowne, é o convicto chefe de uma família feliz, que funciona como
uma espécie de escudo contra as agressões do mundo | Chester
Higgins Jr./ The New York Times  |
Philip Roth
No
romance Complô contra a América, o autor americano criou uma
realidade alternativa em que o aviador Charles Lindbergh, um notório anti-semita,
se torna presidente dos Estados Unidos nos anos 40. O único refúgio
nesse pesadelo histórico é a família do protagonista
os pais do próprio Roth, pessoas comuns que ganham até uma certa
aura heróica Paul Auster Em
Desvarios no Brooklyn, último lançamento do escritor nova-iorquino,
o narrador, Nathan Glass, é um aposentado amargo que curte sua solidão
num apartamento no Brooklyn. Um encontro casual com um sobrinho vai mudar tudo,
e Glass acaba reencontrando a felicidade na companhia dos parentes. É uma
família liberal: abriga uma ex-atriz pornô que namora outra mulher
Hanif Kureishi O
autor inglês de ascendência paquistanesa já dramatizou o próprio
divórcio no romance Intimidade. Nos contos reunidos em O Corpo,
porém, ele retrata os filhos da revolução sexual correndo
de volta para o abrigo da família. Um dos mais pungentes textos da coletânea
é Tchau, Mãe, no qual o personagem tenta se reconciliar com
a mãe numa visita a um cemitério | |
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