Edição 1935 . 14 de dezembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Não há lugar como o lar

Obras recentes contrariam Tolstoi:
existe, sim, felicidade doméstica


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

A primeira frase de Anna Kariênina (tradução de Rubens Figueiredo; Cosac Naify; 816 páginas; 98 reais) é uma das mais célebres aberturas de romance da história literária: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". A princípio, parece que esse inspirado aforismo se refere à crise matrimonial do príncipe russo Oblónski, cujo caso amoroso com uma ex-governanta francesa foi descoberto pela esposa. Mas, à medida que o leitor avança irresistivelmente pelas 800 páginas dessa obra-prima, percebe que a sentença pesa mesmo é sobre a personagem-título. Depois de trair seu marido com o conde Vronski, só restam a Anna o opróbrio social e o suicídio. O clássico de Leon (ou Liev, na transliteração usada pelo tradutor) Tolstoi (1828-1910) acaba de ganhar uma nova tradução, a primeira realizada diretamente do russo, fiel às idiossincrasias estilísticas e ao fôlego enciclopédico de Tolstoi. Não poderia haver momento melhor para reler esse clássico: ele oferece um contraste curioso para uma safra recente de obras estreladas, veja só, por famílias felizes (veja quadro) – e muito diferentes umas das outras.

Ainda é cedo para saber se esse fato configura uma sólida tendência, mas é significativo que pelo menos em quatro obras recentes de bons escritores de língua inglesa – dois britânicos, Ian McEwan e Hanif Kureishi, e dois americanos, Philip Roth e Paul Auster – a vida familiar seja apresentada sob uma luz favorável, com matizes que vão do nostálgico ao heróico. Roth, talvez o melhor escritor americano em atividade hoje, já provou que sabe uma coisa ou outra sobre famílias infelizes. Sua reputação se firmou com O Complexo de Portnoy, de 1969, romance sobre um judeu americano sexual e existencialmente esmagado pela mãe dominadora. A mãe judia do mais recente romance de Roth, Complô contra a América, é uma figura igualmente forte, mas compassiva – trata-se, afinal, de um retrato ficcional da mãe do próprio escritor. Complô cria uma história alternativa para os Estados Unidos, na qual o aviador Charles Lindbergh, notório anti-semita, se torna presidente do país em 1940. A coesão familiar toma suas pancadas no meio desse pesadelo político, mas resiste bem.

Enquanto Roth esperneia para negar qualquer interpretação de Complô como uma crítica disfarçada à política americana atual, Auster e McEwan, ao contrário, colocaram suas famílias felizes contra o pano de fundo esfumaçado do mundo sitiado pelo terrorismo. A história de Sábado tem lugar em Londres, no dia de uma passeata contra a participação do Reino Unido na Guerra do Iraque. Assim como Tolstoi usou o personagem Liévin para criticar a participação russa na guerra contra os turcos do Kosovo, McEwan se vale sutilmente de seu herói – o neurocirurgião Henry Perowne – para apoiar a derrubada do ditador Saddam Hussein. Perowne é fiel à mulher, tem muito orgulho dos filhos e busca refúgio na família contra as agressões de um mundo hostil. Desvarios no Brooklyn, de Auster, termina exatamente no dia dos atentados que derrubaram o World Trade Center. É a história de Nathan Glass, um aposentado pessimista que redescobre a felicidade depois de uma série de encontros casuais com parentes. Na Nova York de Auster, as mulheres "desgarradas" não precisam se jogar na frente do trem como Anna Kariênina: uma sobrinha de Nathan, ex-atriz pornô, também tem direito a um final feliz, namorando outra mulher.

Nesses três livros, a família aparece como o único refúgio possível, ainda que precário, no meio das realidades ameaçadoras da história e da política. Hanif Kureishi sugere uma explicação alternativa para a corrida de volta ao lar. Os personagens dos contos de O Corpo são órfãos da revolução sexual dos anos 60 que buscam recuperar um esteio afetivo. Em qualquer caso, não há conservadorismo nesse retorno: as famílias retratadas não são mais os encalacrados redutos de hipocrisia e machismo que fizeram do adultério o tema por excelência do romance no século XIX. O século XXI ainda está para produzir uma obra literária do porte de Anna Kariênina. As famílias de hoje, porém, têm a oportunidade de ser bem mais felizes.

 

Famílias felizes – e diferentes

Ian McEwan

O escritor inglês já foi chamado de "Ian MacAbro" devido a seu gosto por enredos bizarros. Seu mais recente romance, Sábado, conserva certa dose de violência. Mas seu protagonista, o neurocirurgião Henry Perowne, é o convicto chefe de uma família feliz, que funciona como uma espécie de escudo contra as agressões do mundo

Chester Higgins Jr./
The New York Times


Philip Roth

No romance Complô contra a América, o autor americano criou uma realidade alternativa em que o aviador Charles Lindbergh, um notório anti-semita, se torna presidente dos Estados Unidos nos anos 40. O único refúgio nesse pesadelo histórico é a família do protagonista – os pais do próprio Roth, pessoas comuns que ganham até uma certa aura heróica

 

Paul Auster

Em Desvarios no Brooklyn, último lançamento do escritor nova-iorquino, o narrador, Nathan Glass, é um aposentado amargo que curte sua solidão num apartamento no Brooklyn. Um encontro casual com um sobrinho vai mudar tudo, e Glass acaba reencontrando a felicidade na companhia dos parentes. É uma família liberal: abriga uma ex-atriz pornô que namora outra mulher

 

Hanif Kureishi

O autor inglês de ascendência paquistanesa já dramatizou o próprio divórcio no romance Intimidade. Nos contos reunidos em O Corpo, porém, ele retrata os filhos da revolução sexual correndo de volta para o abrigo da família. Um dos mais pungentes textos da coletânea é Tchau, Mãe, no qual o personagem tenta se reconciliar com a mãe numa visita a um cemitério

 
 
 
 
topovoltar