Edição 1935 . 14 de dezembro de 2005

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Animais
O que seu bicho precisa...

Dica: não é de roupinha, nem
banho toda semana, nem fricotes
mil. Comida, exercício e atenção
bastam para fazê-lo se sentir bem


Laura Ming

 

Luludi/Ag. Luz
Frost, o tetracampeão: vida de rei, que não deve ser imitada no dia-a-dia, por mais que criaturinhas fofas convidem ao exagero

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Outros luxos para os bichos

O ser espetacularmente belo da foto acima se chama "Frost", é um persa, tem 4 anos e uma vida de rei. Come ração "super premium", aprecia cravo e carne crua e nada lhe é proibido, desde que venha da mão – mão mesmo, literalmente – do dono, Gerson Pereira ("Na tigela ele se suja e pode manchar o pêlo"). Só toma água mineral. Os olhos acobreados que contemplam o mundo com felina superioridade são limpos três vezes ao dia. A branca e fofa pelagem dá um trabalhão: é desembaraçada diariamente com pente e lavada uma vez por semana com 1) musse desembaraçante; 2) xampu e condicionador especiais ("Primeiro testo no meu cabelo", ressalta o dono); 3) mais musse; 4) soprador (secador bem potente e morno); 5) secador normal, para a "escova" final. Dorme numa bergère só sua, coberta com manta azul. Nunca pisou a pata imaculadamente branca na rua. Quando sai para competições – no mês passado, foi eleito pela quarta vez o "Gato do Ano" no Brasil pela Federação Internacional Felina Européia (Fife), em São Paulo –, vai dentro de uma caixinha. Pereira, 43 anos, solteiro, dono de gatil, que trouxe Frost da Alemanha com 3 meses, confessa: deixa de sair e de viajar para cuidar de seu tetracampeão. "O Frost é a minha diversão", justifica.

Frost pode, porque é Frost – um animal de competição, exceção das exceções. Mas veterinários e psicólogos que estudam o relacionamento entre humanos e bichos de estimação alertam: não é saudável tratar (e vestir, e enfeitar, e alimentar, e mimar) animais como gente, algo cada vez mais freqüente num mundo em que esse vínculo se estreita – e multiplicam-se as ofertas de produtos e serviços. "Pessoas sem filhos, ou com filhos crescidos, transferem o afeto para o animal de estimação. Isso é comum. O problema é quando exageram. Vejo bichos que esqueceram que são bichos; quando encontram outros na rua, se encolhem de medo", diz a veterinária Mirela Tinucci Costa, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), quatro cachorros e um gato.

Basicamente, cães e gatos precisam de ração, carinho e companhia (vacinas também, obviamente). Cães têm de tomar banho, mas toda semana, como é costume dos exagerados, faz mal. "Muita limpeza remove a oleosidade natural dos pêlos e pode trazer doenças dermatológicas", alerta o veterinário Carlos Eduardo Larson, um cachorro, que recomenda intervalo de no mínimo dez dias entre uma ducha e outra – de água fria. "Água quente amolece a queratina e pode aumentar a escamação da pele", explica Larson. A tosa só é importante, por evitar parasitas e facilitar a limpeza, para raças que perdem pouco pêlo, como os poodles. Cachorros também precisam sair de casa pelo menos uma vez por dia, tanto pelo exercício físico quanto pela socialização com outros animais. Uma caminhada de cinco minutos até a esquina, puxando o totó pela coleira, não adianta; ele tem de poder parar, cheirar e explorar o ambiente. Mais imprescindível que o passeio, só mesmo o convívio com o dono. "O cachorro prefere ficar dentro de uma bolsa com sua dona a ficar sozinho num quintal enorme", afirma o psicólogo Alexandre Rossi, três cães, especializado em animais. Roupas são completamente dispensáveis em todos os casos – só servem mesmo para brincar de boneca com o animal. "Elas trazem mais problemas que benefícios. Além de incomodarem, provocam reações alérgicas", garante Fernando Bretas, quatro cachorros e 300 passarinhos, professor de veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais. "Se o frio é rigoroso, basta pôr o animal em ambiente fechado", aconselha.

Gatos se limpam sozinhos e, a não ser que se encostem numa parede recém-pintada, dispensam totalmente o banho. Mas precisam, sim, de estímulo, sobretudo aqueles que moram em apartamento e por isso ficam confinados em espaço limitado. Brincadeiras que simulem caça, com ratinhos e bolinhas, costumam ser as preferidas. Outra providência menos conhecida é instalar um aparador ou alguma "base", de certa altura, de onde o gato possa ficar olhando a rua. "Eles gostam de ver o movimento", explica Rossi. Tédio e depressão são problemas comuns em bichos que passam o dia sozinhos. Os sintomas são desânimo, falta de apetite e dermatites causadas por excesso de lambidas. Para combatê-los, o dono tem de brincar em dobro com seu cão ou gato quando está em casa. Um passo bem maior – pois aumentam as responsabilidades – é providenciar-lhe uma companhia animal. "Nunca exile o cachorro na área de serviço ou no quintal, por exemplo. Quando a casa está vazia, ele se conforta com os cheiros da família no sofá, em alguma peça de roupa", ensina Rossi.

Rações são universalmente recomendadas. Caso sacrifiquem o orçamento, a alternativa é comida balanceada, sem temperos. Quem ganha ou compra um filhote fofinho deve ter em mente que ele ficará adulto e chegará à terceira idade. Exigirá cuidados e atenção por toda a vida – por sinal, cada vez mais longa: em média, cerca de quinze anos. Limpos, alimentados, exercitados e, vá lá, amados, cães e gatos, mesmo confinados, terão as condições certas para se sentir bem – e retribuir à sua moda, com afeto incondicional e companhia. Mais que isso, o cuidado vira exagero. "Pensamos que, quanto mais próximos de nós, melhor estão os bichos. É um erro. Animais só estão confortáveis se mantidos dentro da sua condição de animais", diz Mirela.

 

...e o que é totalmente inútil

Aperta, irrita a pele, custa caro, mas é
difícil de resistir – ele fica tão bonitinho!

 
Fotos divulgação
Óculos escuros: supérfluos para olhos que já contam com proteção natural contra a luz

É quase Natal – hora de providenciar a roupinha vermelha e o gorro de Papai Noel (preço médio: 20 reais) com que totó vai recepcionar a família na hora da ceia. Antes disso, cãezinhos de coração corintiano vestiram a camisa 10 do time para celebrar a conquista do Campeonato Brasileiro. Isso, o guarda-roupa de festa. Há também o enxoval de todo dia, que inclui sainhas, casaquinhos, chapéus de todos os tipos, bandanas e calçados – sapatos, tênis, botas. Tudo rigorosamente desnecessário e até, potencialmente, prejudicial. "Vestir animais traz mais problemas que benefícios", afirma o professor de veterinária Fernando Bretas. Mas fazer o quê, se lulu fica fofo com um par de tênis (60 a 70 reais) para proteger da sujeira das ruas e outro de pantufas (60 reais) para ficar em casa? Se o companheiro humano encara o fato de que roupa e sapato são exagero, não tem nenhum motivo para escapar das coleiras. Que se multiplicam: de couro, de tecido, de corrente, de cristais (300 reais), de grife (400 reais uma Harley-Davidson). Mais uma profusão de lacinhos, item barato que, além de enfeitar, tira do olho o pêlo comprido da shih tzu – pretexto perfeito para empetecar o bicho. Por falar em olho: há proteção mais garantida, nos dias de muito sol, que um bom par de óculos escuros (130 reais), muito parecidos com – e provavelmente tão confortáveis quanto – o tipo que se usa para praticar natação? Há, sim: olhos nus. "Eles têm proteção natural contra a luz", informa o veterinário Carlos Eduardo Larson.

Pantufas: o sofá branco agradece, mas para o dono das patinhas é certeza de desconforto

Em matéria de cosméticos e estética, a lista de tratamentos faz inveja a spas (que também existem, para cães que precisam emagrecer). Há xampus, condicionadores e musses, tonalizantes para ressaltar o brilho dos pêlos e até uma espécie de rímel para recuperar a cor mais "queimada" na área em volta dos olhos. A sessão no cabeleireiro inclui escova e chapinha, com o inevitável ressecamento dos pêlos, que recobram a maciez com hidratação e banho de queratina. Em matéria de perfumes, a prateleira das pet shops é lotada de marcas nacionais e estrangeiras – a francesa Dog Generation Paris lançou uma linha de perfumes para cães e gatos que custa cerca de 130 reais o frasco de 50 mililitros. Nada que faça falta aos bichos, muito pelo contrário: "O cheiro, por exemplo, faz parte da identidade do animal", pondera Larson. Cachorrinhas podem ter as unhas pintadas com esmalte (próprio para cachorros, antialérgico, mais espesso e de secagem ultra-rápida, por motivos óbvios – 10 reais a manicure); outra opção, para cães e gatos, são as capinhas de silicone colorido para as unhas (200 reais o pacote com quarenta unidades). Mal não faz, tampouco traz benefícios. Com um detalhe extra: arrancar as tais capinhas, na maioria dos casos, é questão de minutos. Apesar dos alertas contra os males da água quente em pêlos e peles, lulus estressados (e qual não é, depois de tudo isso?) dispõem de banhos de ofurô com flores, e mais aromaterapia, reiki e massagens, a preços que variam entre 30 e 60 reais. Filhotinhos saudosos da mamãe podem contar com uma almofada térmica de 65 reais, que na versão mais completa, com barulho de coração batendo, custa 90 reais.

Carrinho de 400 reais: para "consumidores" de quatro patas

Isso tudo ainda é pouco para a dona-de-casa Fernanda Federzoni, 22 anos, desvelada dona dos shih tzus "Laura", 1 ano e 8 meses, e "Tobias", 8 meses. Moradora de Jundiaí, viaja toda semana os 60 quilômetros até São Paulo para tratamentos em uma pet shop da cidade, porque "só confio nela". Fernanda penteia o pêlo dos cachorros duas vezes por dia, escova seus dentes com pasta canina quando acordam e quando vão dormir e limpa os bichinhos com lenço umedecido toda vez que, por assim dizer, vão ao banheiro. Laura faz chapinha de quinze em quinze dias e hidratação toda semana. Para passear, a dupla dispõe de carrinho (400 reais) parecido com o de bebê. "Alguns shoppings não deixam cachorro andar no chão. E na praia tenho medo que peguem doenças", explica Fernanda, que calcula gastar cerca de 600 reais por mês com seus "filhinhos". Até a chegada de Tobias, Laura não suportava se separar um minuto da dona. "Quando eu saía, ela vomitava", conta Fernanda. De qualquer forma, na maior parte do tempo os três são inseparáveis. "Se chego a um hotel e ele não aceita cachorro, mudo de hotel", declara.

 
 
 
 
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