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Educação
Um ano a mais na escola
Projeto que amplia para nove anos
o ensino fundamental é bom, mas não
resolve as deficiências educacionais

Monica Weinberg
José Luiz da Conceição/AE
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A Câmara dos Deputados acaba
de aprovar um projeto de lei que pode ajudar a tirar o Brasil de
uma situação de atraso na comparação
com outros países: ele prevê que o Estado garanta um
ano a mais de estudo às crianças. Atualmente, a lei
assegura aos estudantes brasileiros os oito anos de ensino fundamental
dos 7 aos 14 anos. Com a nova legislação, que
ainda precisa ser aprovada pelo Senado para entrar em vigor, as
crianças terão garantido um lugar na escola a partir
dos 6. Isso ainda não leva o Brasil ao patamar da maioria
dos países. Segundo levantamento da Unesco, a média
na Europa e nos Estados Unidos é de doze anos obrigatórios
de estudo. Na América do Sul, todos os países, exceto
o Suriname e a Bolívia, têm leis que garantem mais
anos na escola que o Brasil (veja quadro ao lado).
Os especialistas quantificam
pelo menos dois efeitos positivos no aumento do tempo obrigatório
de estudo. Um deles é o impacto que traz à vida adulta:
pesquisas mostram que cada ano a mais na escola resultará
em um aumento de renda de 10% no futuro. Outro efeito positivo foi
descrito em um trabalho com base em dados do MEC. Estudantes que
cursam a pré-escola colhem resultados no decorrer da vida
acadêmica até 15% superiores àqueles obtidos
por alunos que ingressam no ensino fundamental com 7 anos. Como
no Brasil 700.000 crianças nunca pisaram numa escola antes
dessa idade, o projeto de lei em questão tem seu mérito.
"Ele pode ampliar as chances que essas crianças terão
ao longo da vida", diz Claudia Costin, ex-secretária de Cultura
do Estado de São Paulo e atual vice-presidente da Fundação
Victor Civita.
Esse projeto está longe,
no entanto, de resolver as precariedades do sistema de ensino que
colocam o Brasil nas piores posições em rankings internacionais
de educação. Uma questão emergencial, de acordo
com os especialistas, é ampliar a jornada escolar, outro
quesito em que o país ocupa a lanterna. Pesquisa da OCDE
mostra que um estudante brasileiro de ensino fundamental permanece,
em média, quatro horas por dia na escola. Na Coréia
do Sul e nos Estados Unidos, esse número é de sete
horas diárias. Levantamento feito na cidade de São
Paulo aponta para um dado ainda mais alarmante: da jornada escolar,
o tempo efetivamente consumido pelos estudos está em torno
de duas horas e meia. "Aumentar o tempo das crianças na sala
de aula é uma questão prioritária para melhorar
o desempenho do Brasil na educação", diz a educadora
Maria Helena Guimarães de Castro. Outro ponto central é
a qualidade do ensino ofertado na rede pública. Ela confere
ao Brasil as últimas colocações nas listas
internacionais e tem como resultado uma lógica perversa:
quase todo mundo ingressa no ensino fundamental, mas 32% não
conseguem passar para o segundo ano. Essa média de repetência
é de 3% na OCDE (organização formada por países
da Europa mais os Estados Unidos, Canadá, México,
Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coréia
do Sul). Na vizinha Argentina, fica em 10%. Conclusão: as
crianças passam pelo ensino fundamental a duras penas e concluem
o ciclo sem dominar os fundamentos básicos da alfabetização.
Tomando-se esse cenário,
o fato de um projeto de lei garantir mais anos de estudo às
crianças, por si só, está distante de significar
que elas aprenderão mais. "Sem melhorar as condições
básicas para o aprendizado, essa iniciativa tende a não
surtir nenhum efeito", diz a educadora Iara Prado. Outro problema
é que o projeto não contém uma linha sobre
o que ocorrerá do ponto de vista pedagógico com as
crianças de 6 anos depois que forem oficialmente absorvidas
pelas escolas. Na prática de um país com 5.560 municípios
como o Brasil, abre-se um precedente para que cada um escolha o
que considera prioritário incluir no currículo da
nova série incorporada ao sistema. Isso é temerário.
Se o projeto de lei for de fato aprovado, os estados e municípios
terão até 2010 para adotar as novas regras. Esse tempo
poderia ser gasto com a adoção de medidas que efetivamente
melhorem a qualidade do ensino.

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