|
|
Brasil
Mais candidato que nunca
Lula deixa claro que tentará a reeleição
e já manda abrir os cofres para gastar

Otávio Cabral
Evaristo Sa/AFP
 |
NA FAINA REELEITORAL
O presidente: no balanço do ano, ações
simpáticas à classe média |
O presidente Luiz Inácio
Lula da Silva finalmente desfez quaisquer dúvidas quanto
às suas intenções eleitorais para 2006. Em
público e em privado, Lula agiu desinibidamente como candidato
à reeleição. Na segunda-feira, anunciou a liberação
de 2,8 bilhões de reais (veja o trâmite das verbas
públicas no quadro).
No mesmo dia, ao abrir uma conferência de assistentes
sociais em Brasília, fez um de seus discursos reeleitorais
mais explícitos. "Tem muita gente nervosa porque o fracasso
do governo virou sucesso. Nossos adversários ficam irritados
quando comparamos dados", disse ele, procurando fustigar uma oposição
que fez de tudo para não pedir seu impeachment no auge do
escândalo do mensalão e trabalha diligentemente para
manter o ministro Antonio Palocci de pé. Na terça-feira,
Lula recebeu os astros do time do Corinthians, o novo campeão
brasileiro de futebol. No dia seguinte, durante a posse da nova
direção do PSB, defendeu uma mudança na lei
eleitoral que, em tese, beneficiaria sua candidatura e convidou
publicamente o PSB para conversar com vistas a estabelecer uma aliança
eleitoral para 2006.
Nilton Fukuda/AE
 |
UM DOS NOMES
Mercadante: se não tentar o governo paulista,
vai para a cúpula da campanha de Lula |
A revelação dos planos reeleitorais de Lula, tendo
ocorrido a dez meses do pleito presidencial, não veio a público
com uma antecipação exorbitante. Afinal, Fernando
Henrique Cardoso já estava empenhado em apresentar uma emenda
autorizando a reeleição antes mesmo de tomar posse
de seu primeiro mandato. O que chamou atenção na semana
passada foi o espaço que a reeleição tomou
na agenda de Lula. Além das indicações públicas,
o presidente teve pelo menos dois encontros privados para tratar
do assunto. Em um, pediu à cúpula do PMDB apoio à
sua reeleição e à sua proposta de orçamento
para 2006. Noutro, em conversa com um de seus articuladores políticos,
mostrou-se preocupado com o atraso de sua campanha. Disse que os
adversários já estão em campo, mas que o PT,
destroçado pelo mensalão, caiu na letargia e não
trabalha para 2006. Falou que se considera um candidato competitivo
e prometeu concorrer mesmo que a crise venha a ceifar-lhe ainda
mais popularidade. "No pior cenário, terei 30% dos votos
e ajudarei o PT a eleger uma boa bancada. Sem mim, não há
outro nome. O PT se enfraqueceria demais", analisou o presidente,
de acordo com relato feito a VEJA por seu interlocutor.
Para driblar o que considera
atraso na largada, Lula quer definir a estrutura da campanha ainda
neste ano. Já fala em nomes. Com a saída do marqueteiro
Duda Mendonça do circuito petista desde que se soube da bolada
que ele recebeu em depósitos clandestinos no exterior, dois
nomes têm sido cogitados: João Santana, ex-sócio
de Duda, e Paulo de Tarso Santos, dono da agência Matisse
e publicitário de duas campanhas presidenciais do PT. Para
a coordenação do programa de governo, cargo ocupado
por Palocci em 2002, Lula está entre o ex-ministro Tarso
Genro e o senador Aloizio Mercadante desde que Mercadante,
é claro, desista de concorrer ao governo de São Paulo.
O comando da campanha tende a ficar com o ex-ministro Ricardo Berzoini,
atual presidente do PT. O maior nó, naturalmente, é
encontrar um tesoureiro, função demonizada pelas picaretagens
de Delúbio Soares. Lula sonha com um empresário. Chegou
a sondar Oded Grajew, que foi seu assessor especial mas, decepcionado,
acabou deixando o governo. Grajew descartou a idéia no ato.
O risco é que o empenho
reeleitoral de Lula acabe degenerando em gastança, retomando
o velho populismo econômico tão típico dos períodos
pré-eleitorais. Até agora, felizmente, isso não
aconteceu. Lula já marcou uma reunião com Palocci
e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na qual deve
dizer que espera resultados mais robustos para 2006, com um crescimento
econômico de pelo menos 4% do PIB, mas ainda não mexeu
nos pilares que sustentam a política econômica. Os
2,8 bilhões de reais que serão liberados em dezembro
não comprometem o equilíbrio fiscal. A quantia corresponde
a uma parte do excesso do superávit primário, que
chegou a bater em 6,1% do PIB em outubro passado e deverá
fechar o ano por volta de 5% ainda assim, bem acima da meta
oficial de 4,25%. O orçamento da União para 2006,
no entanto, já exibe sinais claros de que uma eleição
vem por aí. Só para publicidade, os gastos aumentarão
em 46,5%, chegando a 326 milhões de reais. Além disso,
Lula pediu que, no balanço anual a ser feito em 19 de dezembro
na Granja do Torto, os ministros levem propostas de obras e projetos
para 2006 que tenham alta octanagem eleitoral.
A idéia é realizar
investimentos que tenham repercussão na classe média,
a faixa do eleitorado que mais se desencantou com Lula depois do
escândalo do mensalão. Na última pesquisa do
instituto Sensus, divulgada no mês passado, informa-se que
os eleitores que ganham de dez salários mínimos em
diante apresentam o mais alto índice de rejeição
a Lula cerca de 60% reprovam sua administração
e não pretendem votar em sua reeleição. Caindo
na classe média, Lula também viu seu patrimônio
eleitoral minguar nos maiores centros urbanos e nas regiões
mais desenvolvidas do país. Continua imbatível, mas
apenas entre os mais pobres, os menos educados e os habitantes do
Norte e do Nordeste. Algumas das ações estudadas para
reconquistar a simpatia do eleitorado que está sumindo são
a construção de prisões federais, a duplicação
e a recuperação de rodovias, o aumento dos financiamentos
imobiliários, a utilização do fundo de garantia
para o pagamento de mensalidades escolares e a conclusão
de obras do metrô em Fortaleza, Salvador e Belo Horizonte.
Quando um dirigente começa a pensar em ganhar a eleição
à base de investimentos públicos, há dois riscos
que o investimento seja malfeito e que o equilíbrio
fiscal das finanças públicas vá para o espaço.
Torce-se para que não aconteça nem uma coisa nem outra.
|